Um passarinho observa enquanto outro come os frutos da árvore. Um guia a
construção da casa e o outro a empreende. Enquanto um busca uma sólida massa
de construção, o concreto, o outro quer algo como a matéria escura, sutil. Eles
têm habilidades diferentes, e até opostas, no entanto ambos gostam de dar asas
a sua imaginação. Em comum, cantam, entoando diferentes sonoridades. O canto do
pássaro que contempla vem das alturas das esferas, sua inspiração surge feito
raio de instantânea intuição. Seus ouvidos ouvem o som que jaz dentro do som, o
canto dos anjos ressoa através dele.
Já o outro pássaro é um artesão da música, que lhe surge num processo
labiríntico de criação. Utiliza-se de rimas e métricas perfeitas para compor obras
monumentais. Juntos, alcançam às grandes sínteses, produzem fabulosas obras-primas.
Um não vive sem o outro, se vivessem, seria uma vida pela metade, no cativeiro
de si mesmo. O pássaro artesão segue pelas trilhas da invenção, cria os mundos através
do seu desejo. O outro abençoa e mostra o caminho, sempre atento para corrigir
a rota em caso de desvio, sempre pronto para harmonizar as notas dissonantes.
É um especialista em harmonia, um auscultador, dos sons que ressoam
dentro dos sons. Um percebe o que ouve com escuta atenta e primorosa, enquanto
o outro cria numa laboriosa experimentação das infinitas possibilidades do
universo vibracional. Apesar da diferença de seus estilos, vivem lado a lado. Suas
inclinações contrárias convergem na própria tensão do universo que
compartilham. Eles juntos formam uma parceria tão perfeita como só a alma humana
e seu Espírito podem se equiparar.
Ambos apreciam os jogos da floresta, brincam de ser e não ser, compor e
decompor novas obras. Ao construí-las, se reconhecem, e se reconhecendo nas
obras, constroem-se. Eles não se misturam, nem se separam, mas são parceiros,
vivem lado a lado. Um dia, sobrevoando a floresta, sedentos por espaços
longínquos, avistaram outro pássaro. Só que este não vivia livre na floresta, vivia
numa gaiola. Aproximando-se dele, perguntaram o que lhe havia acontecido:
- O que houve
com você, pobre pássaro, para viver engaiolado?
- Ora, não
houve nada de mal. Estou aqui porque me sinto mais seguro dentro da gaiola.
- Desculpe
amigo, mas como você pode abrir suas asas dentro da gaiola?
- Sabe o que
é, prefiro viver aqui empoleirado, voar por aí na floresta é perigoso, poderia ser
devorado por outro animal.
- Mas é lá
fora que está a vida para um pássaro. Você tem certeza que não quer a nossa
ajuda para sair daí?
-Ai de mim, minhas
asas são fracas e inertes! E meu dono é muito bom para mim, me alimenta e me
protege.
- Tudo bem,
amigo. Mas lembre-se que você é um pássaro como nós, nascido para voar e cantar
as árias da floresta.
Os pássaros seguiram então seu voo, e pensando no amigo engaiolado,
lembraram-se dos seres humanos, que como ele, preferem viver empoleirados. Como
o amigo, preferem viver presos a seguranças e certezas, no cativeiro de si
mesmos, no lugar de assumirem a liberdade de serem verdadeiramente o que são. Mas
diferente do pobre pássaro engaiolado, o ser humano tem a chave da própria
prisão.
17-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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