Por Mariana Montenegro
Jonas é um personagem bíblico que recebe a missão de ir até a cidade de Nínive pregar a palavra de Deus aos homens, mas, ao invés disso, ele foge. Na fuga, sua embarcação quase afunda e ele é atirado ao mar. Um grande peixe o engole e ele passa três dias e três noites na barriga do peixe. Até que é regurgitado, chegando a uma praia.
Na psicologia humanista, a história de Jonas é considerada a história do ser humano que tenta fugir do seu potencial de plenitude. É a pessoa que tem medo de ser diferente e prefere renunciar à própria autenticidade. O psicólogo humanista, Abraham Maslow, que desenvolveu a conhecida Pirâmide das Necessidades, fala que no topo da pirâmide está a necessidade de autorrealização.
Interessante notar que, diferente do ser humano, o animal não tenta ser aquilo que não é. Um gato não tenta ser um elefante. Ele nasce gato e não precisa de uma escola para aprender a ser gato. Já o ser humano, não nasce humano, precisa de educação para se tornar um. Precisa de um processo de aprendizagem que o leve a reconhecer suas potencialidades e colocá-las a serviço.
Jonas quer evitar o desajustamento social. Ele foge das possíveis punições e hostilidades a que estaria exposto. O que o Complexo de Jonas mostra é que reprimimos não apenas os impulsos neuróticos, mas também os impulsos humanos mais nobres. Isso por receio do que podemos causar. Nas palavras de Hermann Hesse:"A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo".
Ser, assim, é ousar ser. A neurose de Jonas é uma contenção do fluir das suas virtualidades. Sob a égide do medo, ele obstrui e acorrenta a si próprio. Para assumir suas qualidades, é preciso lidar com a incompreensão alheia, com a baixa auto-estima de outros indivíduos também atingidos por esse complexo, e ainda, ter que lidar com a própria arrogância e orgulho. Assim, muitas vezes, o caminho mais fácil é subtrair-se, não crescer até sua altura máxima.
Um exemplo de repressão do potencial de plenitude é o corriqueiro senso comum que sustenta que o homem não pode ter características como a delicadeza e a vulnerabilidade. Jonas possui uma sabedoria e uma escuta interna que o faz diferente da maioria. E ouvir o chamado do coração requer coragem de sair das trilhas do conhecido. "Ninguém poderá fazer escolhas sábias se não aprender a ouvir a si mesmo, o seu próprio eu, em cada momento da sua vida", diz Maslow.
Ver um rio é vê-lo da nascente ao logradouro. - Quem viu um rio? - Quem viu um ser humano? Indaga o psicólogo e antropólogo Roberto Crema. Um ser humano que ouve o chamado da sua alma, trilhará por caminhos nada convencionais. Será um desconhecido até para si mesmo. Buda dizia que o melhor serviço que pode ser feito aos outros, é a libertação de si mesmo. Para se permitir fluir, ser, florescer.
Quando chega à praia, depois de fracassada sua fuga de si mesmo, Jonas aceita a vocação da sua alma, seu ser-viço - o viço do seu ser. Decide romper com o script da primeira infância e o senso comum da sociedade normótica, deixa de perder-se na existência rasteira e aproxima-se da sua sombra. Desiste de mascarar suas capacidades. Aceita sua limitação e seu alcance. Busca a força para expressar o melhor de si.
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