Árvores
frondosas prevaleciam na paisagem, por onde caminhava uma mulher de cabelos
longos e coroa de flores. Com os pés descalços, ela podia ouvir a voz da terra.
Dançava e brincava na companhia alegre dos elementais. Seu ofício era cantar
sobre os ossos e ressuscitar os mortos. Quando cantava, toda a natureza desabrochava,
a luz e as cores irrompiam. As almas perdidas, ou há tempos cravadas, ressuscitavam
do pó, reencontravam caminho. Seu canto que brota do Grande Silêncio, da pausa
sagrada.
E por isso, ela vive e trabalha em silêncio. Vive longe dos
humanos, só aparece a eles quando é lembrada e chamada para cantar sobre os
ossos. Seu canto ressuscita-os do sono, cura-os do esquecimento. A cantora vive
na solidão de um mundo onde os vivos pairam mortos sem o saber. Assim
habituou-se a companhia do seu próprio espírito, esperando o dia em que cada
ser humano desejará ressuscitar do mundo dos mortos. Seus pés ouvem a terra dizer
que também espera por este dia, em que a humanidade recuperará sua ligação
original com a vida.
A cantora escuta desde as esferas do céu até o centro da terra, o canto em
uníssono pela ressurreição da humanidade. Coros de anjos e arcanjos bradam a
possibilidade humana, de o ser humano, nesta Terra, tornar-se verdadeiramente humano.
Visto que ele é ainda uma possibilidade, uma utopia realizável.
A encantadora
de ossos vem reanimar a humanidade, trazê-la de volta à existência. Vem soprar
com o Sopro, mais uma vez, fazendo ressurgir o espírito humano. Desce aos
jardins da babilônia para reanimar a alma que se perdeu entre enganos e
ilusões, e que morreu sem saber renascer. Para isso ela não apenas canta, mas encanta e desencanta, sopra a Vida.
11-07-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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