segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Artigo: O Grande Remédio




O amor e a cura têm muito em comum, possuem o mesmo princípio básico: a atenção. Para que haja amor e para que aconteça a cura é preciso antes de tudo atenção. Por isso, o arquétipo do curador diz que é o amor que promove a cura. Não há amor sem atenção e cuidado, assim como não há cura sem atenção e cuidado. Ambos dependem da escuta inclusiva, da aceitação e do cuidado essencial. Nas palavras de Roberto Crema, “toda patologia é desatenção”, complementando a ideia de Yves-Leloup, quando afirma que para ter atenção, é preciso morrer em cada ação. 
Quando estamos totalmente atentos ao instante, na presença, podemos resgatar as partes perdidas de nós mesmos, interpretar os sonhos e os sintomas, como quem lê um texto sagrado. A cura passa pela transparência, pela essência que se expressa na existência, pelo aflorar dos potenciais e dos dons de cada um. Curar-se é tornar-se o que se é. Quando perdemos nossa alma, o contato com o núcleo de confluência do nosso ser, é que abrimos espaço para o sofrimento e as doenças. Cada um recebeu do mistério dons únicos, para com eles fazer uma obra- prima, e oferecer ao mundo o remédio, aquilo que em nós pode contribuir para a evolução e o bem maior.
Os povos originários falam que cada pessoa traz consigo o “Grande Remédio”; o potencial para ofertar ao mundo um bálsamo de cura. Mas para que esse bálsamo seja derramado, precisamos reaprender a contar histórias, a dançar, cantar e silenciar, segundo Angeles Arrien, em seu livro O Caminho Quádruplo. A cura tem a ver com um processo de “individuação”, no termo Junguiano, que descreve o processo humano de integração na trilha de retorno a plenitude do ser. A saúde plena é a via elegida do vir a ser, do tornar-se humano com autenticidade.
Em Saber Cuidar, Leonardo Boff, fala que existia um templo antigo na Grécia, em que se praticavam artes, ciências, filosofias e místicas, para a cura. Tinha o teatro para desdramatizar questões existenciais, tinha a poesia para tornar a alma sensível, a música para elevar às esferas superiores da consciência, a dança, o sono, a alimentação balanceada, o silêncio, passeios diários ao ar livre, esportes. Essas e outras atividades combinadas serviam para que este “Grande Remédio” fosse trazido à tona, curando o individuo e o mundo a sua volta.
No mundo atual, temos uma cultura médica voltada para a parte, para o microscópico, o germe, mas esquecida do todo que é o indivíduo. Temos profissionais que focam, de um modo geral, na doença, na disfunção, ao invés de focar na saúde e na cura. Que se ocupam em imediatamente desaparecer ou mascarar o sintoma, ao invés de ouví-lo e interpretá-lo, à luz daquele que está doente. Uma medicina regida pela economia, pela técnica e pelo uso indiscriminado da tecnologia. O corpo é tratado como uma máquina, composto de peças desvinculadas umas das outras, e desprovido de consciência e alma.
Na cultura chinesa antiga, quando uma pessoa ficava doente, ela parava de pagar o médico, pois a doença era sinal de que o médico fracassou. Ele era visto como um cuidador da saúde, responsável pela manutenção do bem estar total da pessoa, trabalhando para isso com a prevenção, o cultivo da energia e o equilíbrio. Na modernidade tardia, existe a crença de que a doença surge exclusivamente de uma alteração química do corpo, por ataques de germes nocivos. Os problemas reais apontados pelo sintoma são transferidos para os remédios da indústria farmacêutica, que cria um arsenal de guerra farmacológico para combater os “males” e as “pragas”, que vitimizam a humanidade.
A Organização Mundial de Saúde já aceita que ‘saúde é dinâmica de bem estar pessoal, social, ambiental e espiritual’. Se assim é, para pensarmos em saúde e cura, antes de tudo precisamos considerar os pensamentos, os sentimentos, o comportamento e o propósito de vida do paciente em questão. Entender o que pode ter causado uma disfunção no seu padrão natural de energia, que pode ter afetado seu campo vibracional. Uma parte específica do corpo quando adoece, tem uma mensagem a dar à consciência, assinala uma disfunção em algum ponto da sua rede energética-vibracional. Carece da atenção de alguém que não é mero paciente, mas um agente da própria saúde, e um cuidador em potencial.

Mariana Montenegro
Publicado no site Somos Todos Um
            26-06-2014

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