Eu escutei seu choro triste e a abriguei em meus braços. Deixei que expressasse
tudo o que sentia, sem julgamento. Acolhi sua dor e seu desejo. Dei de todo o
meu amor e reconhecimento. Mostrei a ela a sua luz e a sua beleza. Apesar de
tudo o que sofreu, apesar do abandono e do padecimento, conseguiu ainda conservar
sua essência. Quando eu a amparei em meu peito, descobri o tesouro do meu
coração.
Ela tinha o anseio de crescer, de aprender, de fazer coisas. E eu tinha o
desejo de me tornar completa. Esse foi o grande encontro da minha vida, aquele
que veio reunir os pedaços perdidos da minha alma. Nesse momento tinha
encontrado minha criança interior, e minha criança interior enfim havia me encontrado;
aquela que podia dar-lhe tudo o que ela merecia. Fomos conhecendo-nos aos
poucos, desdobrando as camadas de memórias e sentimentos que nos afastava.
Houve momentos difíceis, mas estávamos unidas e decididas a prosseguir. Eu
a neguei por tanto tempo porque a achava tão frágil, mas foi ela que despertou
minhas maiores forças e minha criatividade. Ela é a espontaneidade em mim, a
renovação, o pulsar da vida. Ela é o puro jorrar da força vital. O esvaziamento
e o transbordamento constante. Ela gostava muito de cantar. Quando a ouvi
cantarolar pela primeira vez, vi a porta do céu se abrir, e um coro de anjos solfejar
a mais bela Aleluia.
Seu Corpo Divino era de cristal e bem-aventurança. Ela é a musa no
coração das musas, o amor puro da Fonte. Ela tem o anseio profundo de
expandir-se pelo mundo. É a energia que me move a querer atingir a plenitude do
meu ser, e meu guia neste caminho. Resgatá-la de dentro de mim foi o que me
salvou do naufrágio. Sem ela eu não poderia sequer partir. Graças a ela
reencontrei o melhor em mim: a pureza de amar. E a ajudei a compreender porque foi
que não recebeu o amor que merecia.
Não porque houvesse algo de errado com ela, pelo contrário. Mas porque
ela era um ser de amor tão puro que, simplesmente, não sabiam como amar assim.
Não aprenderam esse amor, que é inocente e compassivo, incapaz da menor
violência. Ela tem esse amor para dar, pois ela é esse amor. Não há outra maneira de se dar esse amor, senão sendo ele. O que ela sofreu, na verdade,
foi a dor do outro. E sofreu para ensinar o amor divino nesse mundo, para trazê-lo
das altas esferas.
Ela, então, entendeu a humanidade. Simplesmente não poderiam dar o que
não tem para dar. Pois o amor, como ela, não é desse mundo. Com os olhos molhados e
brilhantes cantei à Divina Criança nascida em mim. Seu choro triste se
transformou numa divinal canção. O céu se abriu, a terra tornou a prosperar, a
criança voltava a sorrir. E com toda a ternura, ela cantou:
O Amor é abrir-se,
É a mais perfeita flor.
Beija-Flor, Beija-Flor,
Vem Amor.
14-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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