sexta-feira, 2 de agosto de 2019

No deserto de nós dois



Há muito conviviam com a solidão. Mesmo em companhia de outras pessoas, podiam ainda se sentir sós. A repleta solidão que viviam era habitada por muitos seres, histórias de outros mundos, mais amplos e ilimitados. Também habitavam monstros, e assim se convenciam de que a solidão era a maneira de não perturbar o mundo lá fora. Foram crescendo e a solidão foi crescendo junto com eles. Apesar disso, nesse mundo interior de suas solitudes, sonhavam com o amor.
Mas os dias e os anos eram lentos, e pareciam longos demais para o desejo que sentiam, tão premente. O tempo pesava sobre eles, e só fazia crescer ainda mais a solidão. Até que ela se tornou do tamanho de um buraco sem fundo, uma vacuidade plena, um total vazio. Tentaram relutar e se preencher de toda a sorte de coisas, pessoas, lugares, buscas. Precipitaram-se, sem discernir mais, por puro desespero. Queriam a qualquer custo encontrar a saída do deserto que só crescia dentro deles. Mas não conseguiram evitar, e suas almas ficaram absolutamente desérticas.
Uma amplidão sem fim nem começo surgiu dentro deles. Até que finalmente desistiram de lutar e entregaram-se. Aprenderam a não temer a solidão, perceberam que ela era uma enorme presença. Aprenderam também a aceitar o vazio, descansando e encontrando a paz nele. Perceberam mais além, que neste espaço de nulidade as estrelas fazem seu berço, todos os universos existem em potencial. Renderam-se, não por fraqueza, mas porque o tempo de solitude os ensinou a amar o mistério.
Até que um dia se encontraram. Duas alegres presenças que podiam repousar em paz no vazio absoluto. Logo que se olharam, se reconheceram, um nos olhos do outro. Entre os dois havia espaço para o infinito. Num beijo, a plenitude inundou a vacuidade, o som de seus corações compôs a mais bela canção de amor que já se ouviu. Fluía de seus corpos água vulcânica do fundo da Terra, seus braços e abraços eram asas, que os levavam ao céu. No deserto da solidão, do vazio e do silêncio, transpareceu a vastidão do mundo de duas almas.

 06-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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