Há muito conviviam com a solidão. Mesmo em companhia de outras pessoas,
podiam ainda se sentir sós. A repleta solidão que viviam era habitada por muitos
seres, histórias de outros mundos, mais amplos e ilimitados. Também
habitavam monstros, e assim se convenciam de que a solidão era a maneira de
não perturbar o mundo lá fora. Foram crescendo e a solidão foi crescendo junto com eles. Apesar disso, nesse
mundo interior de suas solitudes, sonhavam com o amor.
Mas os dias e os anos eram lentos, e pareciam longos demais para o desejo
que sentiam, tão premente. O tempo pesava sobre eles, e só fazia crescer ainda
mais a solidão. Até que ela se tornou do tamanho de um buraco sem fundo, uma
vacuidade plena, um total vazio. Tentaram relutar e se preencher de toda a
sorte de coisas, pessoas, lugares, buscas. Precipitaram-se, sem discernir mais,
por puro desespero. Queriam a qualquer custo encontrar a saída do deserto que
só crescia dentro deles. Mas não conseguiram evitar, e suas almas ficaram absolutamente
desérticas.
Uma amplidão sem fim nem começo surgiu dentro deles. Até que finalmente desistiram
de lutar e entregaram-se. Aprenderam a não temer a solidão, perceberam que ela
era uma enorme presença. Aprenderam também a aceitar o vazio, descansando e
encontrando a paz nele. Perceberam mais além, que neste espaço de nulidade as
estrelas fazem seu berço, todos os universos existem em potencial. Renderam-se, não
por fraqueza, mas porque o tempo de solitude os ensinou a amar
o mistério.
Até que um dia se encontraram. Duas alegres presenças que podiam repousar
em paz no vazio absoluto. Logo que se olharam, se reconheceram, um nos olhos do
outro. Entre os dois havia espaço para o infinito. Num beijo, a plenitude inundou
a vacuidade, o som de seus corações compôs a mais bela canção de amor que já se
ouviu. Fluía de seus corpos água vulcânica do fundo da Terra, seus braços e
abraços eram asas, que os levavam ao céu. No deserto da solidão, do vazio e do
silêncio, transpareceu a vastidão do mundo de duas almas.
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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