sexta-feira, 2 de agosto de 2019

A Pescadora de Virtudes


                                                         
                                                                                     

Seu passatempo preferido era olhar as pessoas procurando algo de especial nelas. Tanto procurava que encontrava. Via algo de bom e de belo em todas as pessoas. Tanto as olhou procurando a beleza, que ela mesma se tornou bela. Tanto procurou virtudes no outro, que as desenvolveu em si mesma. 

Não que ela não visse também os defeitos, mas não dava a eles peso maior do que dava às virtudes. Achava que os defeitos são a infância das virtudes. Pensava que, às vezes, podiam ser até um tipo de charme, um tempero a mais, que podiam servir a uma boa comédia.

Assim ela cativava o que parecia indigno de ser amado no outro. Via o belo mesmo nas formas desarmoniosas. Via outra harmonia possível, além da imagem aparente. Considerando a mais pura potencialidade criativa e a autenticidade intrínseca às pessoas. 

Contemplava o numinoso - a luz e a sombra - com o mesmo amor. Tinha um olho único. Olhava integrando, olhava abençoando. Tinha o dom de pescar virtudes, de ser a luz dos olhos do amigo e ver algo no outro que ele sozinho não era capaz de ver.

Era sua vocação e seu prazer devolver o outro a si mesmo, servir como espelho das potencialidades e virtudes desconhecidas. Procurava conhecer o essencial com os olhos do coração. Um dia, vendo um velho edifício pegando fogo, enquanto muitos temiam e se lamentavam pelo edifício que ruía, ela salvava o fogo.

31-03-2014)
Mariana Montenegro 
Do livro Contos da Alma Peregrina 
Editora Multifoco

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