Seu passatempo preferido era olhar as pessoas procurando algo de especial
nelas. Tanto procurava que encontrava. Via algo de bom e de belo em todas as
pessoas. Tanto as olhou procurando a beleza, que ela mesma se tornou bela.
Tanto procurou virtudes no outro, que as desenvolveu em si mesma.
Não que ela
não visse também os defeitos, mas não dava a eles peso maior do que dava às
virtudes. Achava que os defeitos são a infância das virtudes. Pensava que, às
vezes, podiam ser até um tipo de charme, um tempero a mais, que podiam servir a uma
boa comédia.
Assim ela cativava o que parecia indigno de ser amado no outro. Via o
belo mesmo nas formas desarmoniosas. Via outra harmonia possível, além da
imagem aparente. Considerando a mais pura potencialidade criativa e a autenticidade intrínseca às pessoas.
Contemplava
o numinoso - a luz e a sombra - com o mesmo amor. Tinha um olho único. Olhava
integrando, olhava abençoando. Tinha o dom de pescar virtudes, de ser a luz dos
olhos do amigo e ver algo no outro que ele sozinho não era capaz de ver.
Era sua vocação e seu prazer devolver o outro a si mesmo, servir como espelho das potencialidades e virtudes desconhecidas. Procurava conhecer
o essencial com os olhos do coração. Um dia, vendo um velho edifício pegando fogo, enquanto muitos
temiam e se lamentavam pelo edifício que ruía, ela salvava o fogo.
( 31-03-2014)
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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