quarta-feira, 24 de março de 2021

A Cidade Celeste

 

(baseado numa alegoria da tradição zen)

“Mudar o mundo é mudar o olhar”

Roberto Crema

A mulher decidiu seguir sozinha. Deixando tudo para trás. Sua cidade, parentes, amigos. Em busca da Cidade Celeste. Estava decidida a ter outra vida, ansiava por outro mundo, onde houvesse a justiça e o bem que sonhava. Assim pôs-se em marcha.

Na estrada, num dado momento, precisou descansar. Deitou-se ao abrigo de uma sombra e recostou a cabeça sobre o fardo. Mas antes, deixou seus sapatos virados na direção da Cidade Celeste, para garantir que o cansaço e o vento não a desorientassem de seu destino.

Foi então que ao cair da noite, um espírito brincalhão, vendo a mulher dormindo, virou os sapatos na direção da cidade de onde ela vinha. Depois do gracejo foi-se embora sorrateiro, e a mulher tomou, ao acordar, sem saber, o rumo de volta.

Enquanto caminhava, pensava: “- Como se parece esse caminho com o da minha cidade natal!” Mas continuava dessabida em regresso. Então, acreditando mesmo que se tratava do caminho da Cidade Celeste, passou a olhar a tudo com outros olhos.

Passou a admirar a beleza que antes não via, encantando-se com a paisagem do alvorecer. Quando encontrou os primeiros habitantes via-os como anjos benditos e brilhantes. Seu coração palpitava e ansiava com a proximidade do centro da “Cidade Celeste”.

Até que reencontrando velhos amigos, espantada disse: -“Como vocês se parecem com a gente da minha antiga terra!” Ela já tinha ouvido falar que encontramos entes queridos no céu, só não imaginava que eles seriam assim tão parecidos com aqueles da sua terra.

Tendo voltado a casa, entre os parentes, estava muito feliz, com sua família celestial. Ela os amava com amor divino - via neles toda a sua luz e a sua beleza. Passando finalmente a viver na cidade celeste dos seus sonhos, na luz do seu olhar.  

Mariana Montenegro

março de 2021

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