Dançavam no meio da
floresta com as luzes da manhã de primavera. A terra úmida, o ar fresco, sentindo
o exalar das flores e do amor. O vestido esvoaçava com o vento e redescobria seu corpo. Brincava de ser a própria Vênus que nascia. Seu corpo era a menor parte descoberta, sua alma clamava e sentia um anseio pela nudez de um modo novo.
O que
sentia por ele era diferente. Havia gostado de outras pessoas antes, desejado
outros homens, mas agora era diferente de tudo. Desde o primeiro encontro, ele a fazia sentir como se não estivesse mais sobre a terra, como um simples mortal. Quase podia sentir que tinha asas. Quando começou a tirar a
roupa naquele lugar, diante dos seus olhos, viu que essa era essa a menor parte
do seu segredo. Havia algo mais profundo de que precisava se despir.
Depois de terminar de tirar o vestido, ele
continuava a olhá-la, como se ainda faltasse algo. Ela se olhou, procurando se
talvez ainda houvesse um cordão ou alguma coisa do tipo. Mas não havia nada, ela estava nua, e ele não satisfeito, continuava a olhá-la. Seu olhar era paciente, e percebendo-a encabulada, pegou sua mão. Nesse momento, seu corpo vibrou por
dentro e algo mais caiu. Algo que não era uma peça de roupa. Não sabia dizer o
que era, mas se sentiu mais leve.
Ele a olhou fundo nos olhos, e
seguiu com o mesmo olhar ao longo do seu corpo. Era um olhar que a via por
inteiro, como se ela fosse inteira, como nunca havia se sentido antes. Lentamente a puxou
contra seus braços, colou seu coração ao dela, e sentiram num instante o
mundo parar, a eternidade numa fração de segundo. Sentiu que era um só com ele. Sentiu-se livre de tudo o que foi até então.
De volta
do abraço, já suados, depois do amor, o mundo inteiro e toda a vida faziam
sentido. Ela chorou. Ouvia um canto de outro mundo, via uma hoste de seres sutis com rosas e
grinaldas dançando. Sentia o perfume do amor, voando através do
tempo, e despertando-os no exato encontro com a eternidade. Sentiu que podia
ser totalmente verdadeira. Finalmente estava nua.
31-01-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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