sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Plena nudez do amor



Dançavam no meio da floresta com as luzes da manhã de primavera. A terra úmida, o ar fresco, sentindo o exalar das flores e do amor. O vestido esvoaçava com o vento e redescobria seu corpo. Brincava de ser a própria Vênus que nascia. Seu corpo era a menor parte descoberta, sua alma clamava e sentia um anseio pela nudez de um modo novo.
O que sentia por ele era diferente. Havia gostado de outras pessoas antes, desejado outros homens, mas agora era diferente de tudo. Desde o primeiro encontro, ele a fazia sentir como se não estivesse mais sobre a terra, como um simples mortal. Quase podia sentir que tinha asas. Quando começou a tirar a roupa naquele lugar, diante dos seus olhos, viu que essa era essa a menor parte do seu segredo. Havia algo mais profundo de que precisava se despir.
Depois de terminar de tirar o vestido, ele continuava a olhá-la, como se ainda faltasse algo. Ela se olhou, procurando se talvez ainda houvesse um cordão ou alguma coisa do tipo. Mas não havia nada, ela estava nua, e ele não satisfeito, continuava a olhá-la. Seu olhar era paciente, e percebendo-a encabulada, pegou sua mão. Nesse momento, seu corpo vibrou por dentro e algo mais caiu. Algo que não era uma peça de roupa. Não sabia dizer o que era, mas se sentiu mais leve. 
Ele a olhou fundo nos olhos, e seguiu com o mesmo olhar ao longo do seu corpo. Era um olhar que a via por inteiro, como se ela fosse inteira, como nunca havia se sentido antes. Lentamente a puxou contra seus braços, colou seu coração ao dela, e sentiram num instante o mundo parar, a eternidade numa fração de segundo. Sentiu que era um só com ele. Sentiu-se livre de tudo o que foi até então. 
De volta do abraço, já suados, depois do amor, o mundo inteiro e toda a vida faziam sentido. Ela chorou. Ouvia um canto de outro mundo, via uma hoste de seres sutis com rosas e grinaldas dançando. Sentia o perfume do amor, voando através do tempo, e despertando-os no exato encontro com a eternidade. Sentiu que podia ser totalmente verdadeira. Finalmente estava nua.

31-01-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco


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