Um dia os mundos se separaram, o mundo sutil e o mundo denso, o mundo
feminino e o mundo masculino. Nesse tempo, a mulher foi domesticada, relegada à
prisão, à fogueira, ao esquecimento. Brumas esconderam a realidade interior, as
múltiplas dimensões da consciência e da sensibilidade. O mundo ficou frio e
sombrio. Mas depois de séculos, ela despertou do terrível pesadelo, e acordou
de volta à sua origem, a natureza selvagem. Quando, enfim, reviveu o sagrado
feminino, e resgatou a sabedoria antiga das sacerdotisas. Com a consciência feminina
renascida, os mundos foram novamente reunidos.
Ao invés de dissociação, monocultura, estagnação, descobriu-se a vinculação,
a diversidade, a mudança constante. Ao invés do poder de um sobre o outro,
descobriu-se a potência em cada um. A medicina voltou a ser a arte do cuidado
integral, curando-se através da consciência, do amor, e do correto
relacionamento com a natureza. Esse novo mundo redescoberto é originado pela Deusa,
o Grande Útero, a substância primeva. Nele vivem livres as fadas, seres puros e
alados da natureza sutil. Nesse mundo os mistérios da natureza são inspirados
pelas Ninfas, e a harmonia existe perfeita no espírito de esplendor das Graças.
As Musas nesse mundo são as portadoras das chaves da individuação humana.
Juntas são as energias de ressurreição da mulher, a alegria do desabrochar das
maiores virtudes femininas. O tempo em que ficou esquecida serviu para que se
tornasse ainda mais forte e ainda mais sábia. Hoje dança seu bailado gracioso, veste
seus trajes de encanto, fazendo brotar flores e florestas, em canções jubilosas. Vive a felicidade da satisfação reconquistada, emanando sensações de prazer e
contentamento. Amante da fruição da vida, ela agora sente intensamente a doçura,
e se deleita das carícias que penetram fundo no seu ser.
26-02-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifico

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