sábado, 3 de agosto de 2019

Totem feminino


       
                             
                                                                                             
Voando fora da asa, com a imaginação poética, esbarrei em Mnemosine, a Deusa da Memória. Soprei com ela as nove Musas, que nos inspiraram até os mitos da criação. Antes ainda, chegamos ao caos, ao pleno vazio, e nadamos no oceano primordial. Tudo era Um, num tempo fora do tempo, de unidade indiferenciada. E vimos no instante do Grande Sopro, o surgimento dos universos, até a criação das almas. Vimos a origem da vida, os primeiros mundos manifestos, os Deuses Criadores celebrando a aurora dos tempos.
Já nas eras das sociedades matrízticas, a Terra e a mulher representavam a Deusa Imanente, ventre e seio da criação, por onde a vida se perpetua e evolui. A mulher era Diana, a natureza telúrica e selvagem. Ela vivia em constante transfusão de energia com a Grande Vida. Seus chifres captavam as energias que vinham do Sol, e circulavam por suas raízes até os ramos e frutos. Seguindo viagem mais adiante pelas memórias, chegamos ao tempo do mito do pecado original.  
Vi Eva no Paraíso, desejando comer o fruto do conhecimento. Ela e Adão antes de comerem o fruto, estavam ainda em estado selvagem, indiferenciado. Depois que comeram o fruto, passaram ao campo da experiência, do conhecimento das polaridades. Eva era a natureza humana que desejou sair da dimensão de Symbolos, do sagrado, da inteireza, para a dimensão do Dyabolos, da divisão analítica que desvincula. A atitude de Eva possibilitou a experiência empírica no mundo, e a diferenciação da humanidade.
Até que chegamos à Maria, a natureza divinal, a pureza. Aquela que é obediente, que segue o que a Vida Maior lhe designa, que supera sua natureza inferior em prol de sua natureza superior, só para que se faça a Vontade. É, assim, a Mãe de Deus, aquela que recebe em seu ventre o Espírito, que é a compaixão viva. Ela é o amor da atmosfera etérea em que vivem os anjos. Voando na imaginação poética, eu e Mnemosine vimos uma grande árvore. Na sua raiz estava Diana, no tronco, Eva, na copa Maria abria suas asas, erguendo o totem feminino da inteireza.  


   7-06-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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