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| A "cama de Procusto", da mitologia grega |
Joaquim era pastor de uma igreja num pequeno vilarejo por onde passavam alguns viajantes. Ele era o homem mais poderoso do lugar, e dono da principal hospedaria. Era uma figura quase onipresente, exercia influência econômica, social e moral sobre o pequeno povoado. Ele não media esforços para fazer prevalecer suas razões, queria a todo custo um mundo igualitário, sem diferenças, sem possíveis conflitos. Para isso, criou uma cama de ferro, com a sua medida, que considerava ser a medida justa. O hóspede que passava por sua hospedaria era convidado a dormir nessa cama, que ele dizia ser a mais confortável de todas.
Se o hóspede fosse maior que a cama, Joaquim lhe cortava as pernas, se
fosse menor, ele as esticava. Apenas uns poucos que se adequavam ao tamanho da
cama saíam ilesos. Joaquim pensava que dessa maneira não haveria mais
desavenças no mundo. Assim, a normalidade e a ordem instaurada assegurariam um mundo
mais seguro e mais pacífico. A diversidade era algo insuportável para ele, e as
ideias das pessoas, que muitas vezes eram contrárias as suas, soavam aos seus
ouvidos como uma ameaça.
Os habitantes do vilarejo já haviam passado pela tal cama, e passando a
ter o seu tamanho, eram crentes das suas leis, se adaptavam às suas convenções.
Os que assim não o fizessem, os avessos à ordem, eram punidos, corrigidos dos
seus pecados. Era assim que todos os seus habitantes tinham o mesmo semblante.
Aos finais de semana o pastor conduzia a missa da igrejinha do vilarejo. Uma
estranha paz reinava naquele lugar, uma paz sem movimento, sem cor,
entristecida. No fundo daqueles semblantes todos iguais, faltava uma presença
viva, foi o que percebeu o viajante do leste.
Um viajante que vinha do leste certa vez conseguiu escapar da cama de
ferro, fingindo-se adequado à normalidade vigente. Ele viu que a cama de
Joaquim, o vilarejo, a igreja, tudo ali, era o sintoma brutal da intolerância,
e sinal de uma insegurança profunda. Não sentiu raiva do pastor, sentiu pena.
Porque se ele não podia aceitar o outro, como outro, ele não podia aceitar a si
mesmo na sua totalidade. Aceitar a diferença é o que faz a harmonia entre as
pessoas, pensava o viajante do leste. Naquele vilarejo vivia um povoado em
pânico, num medo profundo de ser outro, de ser.
13-02-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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