O outro só existe como tal quando deixo de me projetar nele. Só assim eu
posso ver o outro como outro, autêntico e legítimo na sua alteridade. Do
contrário, só existe o mesmo; o eu misturado com o outro. Projetando-nos de maneira inconsciente para fora, atribuímos
ao outro o que na verdade existe dentro de nós. A outra pessoa se torna uma
tela de cinema, para a projeção do nosso drama, da nossa ficção, às vezes até,
da nossa tragédia. Porque vemos, frequentemente nos outros, o que não aceitamos
dentro de nós.
O que é negado, reprimido em nós, chamamos de sombra, de mal. Mas só
haverá um verdadeiro sujeito, um ser integral, quando aceitarmos e abraçarmos as
nossas sombras sem julgamento. Senão, só há contradição, desacordo, cisão
interna. Só há luta que drena a energia da pessoa. Esta separação interna impede
o encontro do ser consigo mesmo, e o afasta do seu direito humano à plenitude. Abraçar
a sombra é aceitar o lado obscuro em nós, é aceitar todos os lados, sem
fragmentação, trazendo-os à tona, à luz da consciência.
No início da caminhada do autoconhecimento, o que encontramos é um mundo de
ruínas e de sombras dentro de nós. Mas se não fugirmos, se não nos negarmos a
encarar os fatos e os fantasmas, através de um olhar de atenção e amor, podemos
transformar a sombra, domar o leão que vive em nós, e fazer dele um aliado. A
sombra é em si um potencial de maior consciência, de força, de vida. Quando a aceitamos,
trabalhamos, integramos e transcendemos, conhecemos a Luz maior que existe além
das dualidades. Mas devemos começar aceitando a matéria prima que temos
inicialmente para trabalhar: sombras, monstros, escombros. É na queda que o rio
mostra a força que tem.
Criticamos tanto o mundo porque não suportamos nosso próprio mundo
interior; a guerra dentro de nossas próprias mentes, a confusão de nossos
sentimentos, o caos em nossas vidas. Mas preferimos negar as sombras dentro de
nós, e construir uma identidade com base nesta negação. É assim que construímos
o mundo em que vivemos. Se existe uma guerra travada dentro de mim, e se ela é
mantida inconsciente, será fatalmente projetada para fora com violência. Assim
as guerras são necessárias no mundo.
Por isso o ser humano sobrevive de defesas; criando couraças e bloqueios.
Porque faz continuamente o esforço para sufocar seu próprio mundo subterrâneo e
interior. Para manter sua casca rígida e bem protegida. Só que o que ele não
percebe, é que o inimigo vive dentro dele, não fora. E que é ele mesmo que cria
e cultiva o inimigo através da sua própria inconsciência. Faltará assim
congruência; um acordo harmonioso entre o que ele é, a imagem que faz de si para
os outros, o que fala, o que pensa, e suas ações. Por isso, o passo a frente é
não temer a própria sombra. Não fugir dela, aprender a amá-la. Amar este trabalho,
que é o de abraçar a própria sombra, encarar os fantasmas, e de repente, entre
escombros, esbarrar com os ossos.
O encontro com aquilo que é indestrutível, com os vestígios da essência,
do numinoso. Mesmo a Hidra tem uma cabeça imortal. Mesmo o mais hediondo dos
monstros mitológicos, tem uma essência que não pode ser destruída. Não podemos
sufocar nem destruir nossas sombras interiores. Podemos aceitá-las, trabalhá-las,
erguê-las à luz. Abraçar a sombra entendendo que ela é uma parte de nós, só que
ainda não trabalhada. Para que então seja possível transcender as dualidades, a
luta, para que as defesas se tornem desnecessárias. Reconciliando-se consigo, respeitando
o outro. Na nossa raiz absoluta de unidade, e na existência da nossa gloriosa
alteridade.
Rumi dizia que nossa tarefa não é
procurar o amor, é procurar e encontrar as barreiras dentro de nós que nós
construímos contra o amor.
Mariana Montenegro
Publicado no site Somos Todos Um
28-04-2014

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