Por Mariana Montenegro
"O homem seria metafisicamente grande se a criança fosse seu mestre"
Soren Kierkegaard
Minha caminhada consciente no sentido da espiritualidade e do autoconhecimento tem início aos 20 anos. Digo consciente porque desde criança sou sensitiva e tenho histórias do outro mundo pra contar. Mas é na virada do século que me vi assim, como descrevo no conto "A Reconstrução do Edifício Interior":
- Quando olhou no espelho viu apenas escombros, viu um edifício em ruínas. Restava apenas terminar a demolição, desconstruir tudo e começar do zero. Era assim que via seu reflexo no espelho: uma imagem difícil de encarar. A transformação seria um processo longo, um trabalho árduo e de não garantido sucesso. Mas não podia mais se perguntar se havia jeito ou não, o sofrimento era insuportável, era transformar-se ou sucumbir. Optou por se transformar.
Assim comecei minha caminhada. Em outra imagem da época, eu me via andando na escuridão com uma pequena luz nas mãos. Era uma luz bem pequena, mas era toda a luz que eu possuía, e a ela me agarrei para seguir. Na trajetória que passei a empreender, fiz incursões pelas 4 funções psíquicas, na terminologia junguiana: mergulhei nas fontes da filosofia, das artes, das ciências e do sagrado.
Sobre essa última que quero falar aqui. Estudei as religiões e seus livros sagrados, bebi na fonte de mestres dos quatro cantos. Conheci falsos mestres, que não passavam de pessoas como eu ou qualquer um, mas que se colocavam num lugar superior, cheio de regras e julgamentos sobre certo e errado. Contei com a ajuda de várias pessoas, que seguiam diferentes linhas e tradições. Fui iniciada em algumas religiões e em instituições organizadas. Recebi outros nomes. Aprendi, desaprendi, reaprendi.
Até que um dia, conheci alguém que me fez ver que o mestre que eu procurava estava, na verdade, dentro de mim, e que a cura é a aceitação. Foi quando eu vivi meu renascimento, num rio no Québec. Quando vivi minha boa morte, voltei à terra, ao corpo, ao agora, e recuperei minha inocência, meu estado mais simples de ser. Esvaziei minha taça, minha mente apenas refletia, sem julgar, meu coração era leve e minha criança interior era totalmente amada e acolhida.
Para chegar nesse lugar, passei por caminhos tortuosos, desertos, labirintos. Passei pelo caminho da lei, até encontrar esse caminho do amor. O caminho da lei é aquele das religiões e das instituições organizadas, em geral. Feito de regras, prescrições, verdades construídas a partir de fora, em que basta reproduzir. Mas não falo apenas criticando, pois me ajudou muito, numa época primária da minha consciência, em que eu precisava das leis e das regras. Ainda não era capaz de dar minhas próprias respostas, ainda não tinha tomado posse de mim, não nomeava meu mundo.
Sentia que havia algo de errado, porque me faltava alegria, abertura, aceitação plena. Havia em mim muita tendência à exclusão, muito mais do que ainda há hoje. A começar por excluir partes de mim mesma, o que considerava de alguma forma "pecado" ou o que não cabia na "cama de procusto". Foi muito libertador quando entendi que não precisava mais corresponder a uma imagem. Precisava apenas ser e deixar ser.
- Por muito tempo o sábio me apontando para a luz e eu olhando para o dedo!
Mas honrando o caminho da lei, ele me ajudou muito a polir a pedra bruta que eu era. Por isso, sou grata. Mas segui. E seguindo encontrei o caminho que eu ansiava por trilhar. Um caminho com coração. Um caminho que se faz ao caminhar. Caminho esse que não oferece respostas prontas, pois não existem regras que deem conta do viver e do que acontece. Sobretudo, nesse caminho, ao estar diante de um ser humano, ser apenas outro ser humano. E embora o conhecimento seja complexo, o trato precisa ser simples. Cada um é o que é e dá o que pode dar. O resto é imaginação.
Voltando ao conto do meu livro que conta desse processo, uma outra passagem diz:
-Continuou olhando para o espelho. Colocou os holofotes sobre seu edifício. As camadas mais brutas e obscuras da sua alma foram se descortinando, uma a uma. Eram tantos demônios, dores, tristezas, que não parecia ter fim. O edifício parecia de matéria indestrutível, teve medo de não conseguir (...)
Nas bases abriram-se buracos, as paredes e os pilares desabaram, a casa caiu.
Ela olhava aquilo tudo aliviada, mas ao mesmo tempo desafiada, pois dali em diante teria de construir um novo edifício, por si mesma.
Entre idas e vindas, avanços e retrocessos, estou escolhendo esse caminho do enfrentamento, da reconstrução, da reinvenção. Estou escolhendo o caminho do amor ao caminho da lei. Entre as leis que só servem pra uns e a lei que a todos inclui, fico com esta última. Não me interessa o que me faz diferente para excluir, mas o que me faz semelhante para congraçar. Tal o desafio.

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