sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Catarse de Clarice



Clarice tinha uma sensibilidade que a fazia sentir as coisas intensamente. Por isso sofria muito, e se perdia num mundo de emoções que extrapolava a sua própria existência pessoal. Sentia o peso do mundo sobre os ombros. Às vezes, chorava, sem saber o motivo. Bastava andar na rua e ver uma criança pobre mendigando, um velho ou um deficiente em dificuldade, para se sentir mal. O que fazia dela uma mulher sensível à dor do outro, mas que, ao mesmo tempo, a tornava uma irremediável sofredora.
Sua sensibilidade era um dom e uma maldição. Até que, uma noite, teve um sonho. Estava na Grécia Antiga, assistindo a um ritual dionisíaco. Nesse ritual havia vários personagens, e o principal deles era o sátiro, personagem meio bode, meio homem, que cantava e tocava o tambor. Era uma tragédia, e Clarice se perguntava, dentro do sonho, quem a havia convidado para tão funesto espetáculo.
Quando vai ao teatro, ela gosta de assistir comédias e qualquer peça que seja bonita, que lhe proporcione uma experiência agradável. Nunca poderia se imaginar, em sã vigília, assistindo a um ritual trágico como aquele. Mas no sonho Clarice assistia à encenação de um sacrifício animal. Era a maneira de elevar o personagem da sua condição animal a uma condição superior e próxima dos deuses, explicava o guia misterioso. Transcorria o ditirambo com o coro cantando em uníssono, o corifeu falava ao público, até a derradeira cena.  
Vendo o sangue derramado, as entranhas da dor, ouvindo o canto de desespero do animal, Clarice pula da cadeira e solta um grito. A audiência grita junto com ela, não se sabe se de susto ou de júbilo. A audiência pôs-se a vociferar algo que soava como o próprio canto do bode, o canto trágico. Ela ria e chorava ao mesmo tempo, a dor da revolta se transformava no prazer da catarse. Quando acordou, num sobressalto, sentia uma força renovada a habitá-la, e uma sensação de liberdade nunca antes experimentada.
De repente, ela seria capaz de olhar o sangue, a morte, a agonia do outro. Ela podia sentir o mundo dentro de si, suas dores e aleluias, mas sem sofrer. Sentia-se alargada por dentro, o mundo podia mesmo caber dentro dela, - e até dentro de uma casca de noz! -, exaltava com a alma dilatada. Desdramatizou sua sensibilidade, aprendeu a soltar o grito, a cantar mais alto que a dor. A saúde de Clarice passava pela catarse e pelo exorcismo do mundo. 

                                                                                                                                   07-02-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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