Clarice tinha uma sensibilidade que a fazia sentir as coisas
intensamente. Por isso sofria muito, e se perdia num mundo de emoções que
extrapolava a sua própria existência pessoal. Sentia o peso do mundo sobre os
ombros. Às vezes, chorava, sem saber o motivo. Bastava andar na rua e ver uma
criança pobre mendigando, um velho ou um deficiente em dificuldade, para se
sentir mal. O que fazia dela uma mulher sensível à dor do outro, mas que, ao
mesmo tempo, a tornava uma irremediável sofredora.
Sua sensibilidade era um dom e uma maldição. Até que, uma noite, teve
um sonho. Estava na Grécia Antiga, assistindo a um ritual dionisíaco.
Nesse ritual havia vários personagens, e o principal deles era o sátiro, personagem
meio bode, meio homem, que cantava e tocava o tambor. Era uma tragédia, e
Clarice se perguntava, dentro do sonho, quem a havia convidado para tão funesto
espetáculo.
Quando vai ao teatro, ela gosta de assistir comédias e qualquer peça que seja
bonita, que lhe proporcione uma experiência agradável. Nunca poderia se
imaginar, em sã vigília, assistindo a um ritual trágico como aquele. Mas no
sonho Clarice assistia à encenação de um sacrifício animal. Era a maneira de
elevar o personagem da sua condição animal a uma condição superior e próxima
dos deuses, explicava o guia misterioso. Transcorria o ditirambo com o coro
cantando em uníssono, o corifeu falava ao público, até a derradeira cena.
Vendo o sangue derramado, as entranhas da dor, ouvindo o canto de
desespero do animal, Clarice pula da cadeira e solta um grito. A audiência
grita junto com ela, não se sabe se de susto ou de júbilo. A audiência pôs-se a
vociferar algo que soava como o próprio canto do bode, o canto trágico. Ela ria
e chorava ao mesmo tempo, a dor da revolta se transformava no prazer da
catarse. Quando acordou, num sobressalto, sentia uma força renovada a
habitá-la, e uma sensação de liberdade nunca antes experimentada.
De repente, ela seria capaz de olhar o sangue, a morte, a agonia do outro.
Ela podia sentir o mundo dentro de si, suas dores e aleluias, mas sem sofrer. Sentia-se
alargada por dentro, o mundo podia mesmo caber dentro dela, - e até dentro de
uma casca de noz! -, exaltava com a alma dilatada. Desdramatizou sua
sensibilidade, aprendeu a soltar o grito, a cantar mais alto que a dor. A saúde
de Clarice passava pela catarse e pelo exorcismo do mundo.
07-02-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

Nenhum comentário:
Postar um comentário