Ela era plena em si mesma. Bastava-se. Brincava sozinha, era sua melhor
amiga e companheira. Até que um dia, numa manhã ainda incriada, sonhou com um
universo de outros. Sua plenitude
absoluta, de repente, tornou-se monótona e sem graça. Afinal, tudo era ela mesma. Foi quando então, desejou ser outro.
Resolveu fazer um grande teatro. Criou o Céu e
a Terra, onde descia em Espírito. Tornou-se criatura, multiplicou-se em almas. Desdobrou-se
em universos e dimensões, para chegar à culminância da dualidade e realizar a
tão sonhada experiência da alteridade. Desenvolveu mundos e culturas, raças e propósitos. Fez as águas, as
florestas, os animais, anjos de variadas ordens, o ser humano.
Conheceu a beleza
da diversidade, o encanto das revelações. Entretanto, quando se separou, também
conheceu a dor, surgiram as guerras nas estrelas e na Terra. Quando a dor da
separação tornou-se avassaladora, e o desejo de se unir tornou-se imperioso, a guerra culminou num vale de lágrimas, com as almas clamando por redenção. Das chamas surge o espírito
da paz, que cura as feridas e finalmente une o que se separou.
O amor reconcilia as partes, que reconhecem a sua totalidade. A Menina se
regozija: - Sou uma, mas não sou só! O encontro é o grande momento da criação. Quando
os átomos saem transformados. Rompe a festa e a celebração. O que foi separado
é reunido, quem se perdeu volta a se encontrar. Quem não conhecia a si
mesmo, pode se reconhecer. É a glória, a plenitude no avesso, o verso do uno, a
criação do universo! A Menina Deusa descobre, enfim, seus talentos, para a arquitetura
e para a travessura.
27-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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