sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Menina Deusa - Um mito da criação





Ela era plena em si mesma. Bastava-se. Brincava sozinha, era sua melhor amiga e companheira. Até que um dia, numa manhã ainda incriada, sonhou com um universo de outros. Sua plenitude absoluta, de repente, tornou-se monótona e sem graça. Afinal, tudo era ela mesma. Foi quando então, desejou ser outro. 

Resolveu fazer um grande teatro. Criou o Céu e a Terra, onde descia em Espírito. Tornou-se criatura, multiplicou-se em almas. Desdobrou-se em universos e dimensões, para chegar à culminância da dualidade e realizar a tão sonhada experiência da alteridade. Desenvolveu mundos e culturas, raças e propósitos. Fez as águas, as florestas, os animais, anjos de variadas ordens, o ser humano. 

Conheceu a beleza da diversidade, o encanto das revelações. Entretanto, quando se separou, também conheceu a dor, surgiram as guerras nas estrelas e na Terra. Quando a dor da separação tornou-se avassaladora, e o desejo de se unir tornou-se imperioso, a guerra culminou num vale de lágrimas, com as almas clamando por redenção. Das chamas surge o espírito da paz, que cura as feridas e finalmente une o que se separou.

O amor reconcilia as partes, que reconhecem a sua totalidade. A Menina se regozija: - Sou uma, mas não sou só! O encontro é o grande momento da criação. Quando os átomos saem transformados. Rompe a festa e a celebração. O que foi separado é reunido, quem se perdeu volta a se encontrar. Quem não conhecia a si mesmo, pode se reconhecer. É a glória, a plenitude no avesso, o verso do uno, a criação do universo! A Menina Deusa descobre, enfim, seus talentos, para a arquitetura e para a travessura.

27-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco



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