sexta-feira, 2 de agosto de 2019

A louca do vale




Muitos caminhavam pelo vale, passando rapidamente, sem lhe prestar muita atenção. É um hábito corriqueiro para a maioria, mas não para ela, que caminha alegre e exultante. Ninguém entende o que lhe passa. Uns a chamam de boba, outros a chamam de louca. O que se pensa dela é que não passa de uma andarilha sem destino, vagando pelo mundo, a rir de tudo, principalmente de si mesma. Mesmo assim, a contragosto de muitos, segue seu caminho pelos vales das montanhas, dançando e cantando.
Toda a vida que existe no vale é muito importante; a ínfima pedra, o insignificante inseto, o corriqueiro musgo, é tudo pedra preciosa para ela. Sempre tem olhos novos para a natureza, sempre vê novas cores, novas luzes, novos ângulos nas paisagens. A natureza lhe é motivo de enternecimento. Adora a terra, os insetos, as plantas. Descansa das andanças cavando buracos e entrando na terra feito tatu. Não há nada mais limpo para ela do que a terra. Mas tem predileção é pelas árvores.
Quem a encontra pelo caminho não entende o motivo de seu contentamento por tão pouco. Mas ela responde às expressões de incompreensão sempre com um sorriso. Aceita o absurdo que os outros não podem aceitar: a descida, a obscuridade, a perplexidade. Pode contemplar as miudezas, como fazem os raros, e ver o apogeu do chão e do pequeno, como só os poetas podem. Ela entende que as montanhas não são feitas só de picos, mas de picos e vales. Caminha feliz porque depois da descida virá uma nova subida, só que ainda maior, para um cume ainda mais elevado.
Ela segue em direção ao próximo pico, embora não saiba o que a espera lá. Tem a confiança de que o novo cimo se seguirá ao vale, como o dia segue a noite. Aproveita para contemplar as estrelas. Brinca de gangorra como criança, em paz com o movimento natural e pendular da existência. Na sua filosofia de vida, não há o que passe, nem alguém que passe, tudo é passagem. Aprendeu a ver a beleza dos vales, a serenar na paisagem de cada descida, a não se precipitar, apreciando o caminho a cada novo passo.  
Tanto andou e tão levemente, que sem que percebesse, encontrou um novo pico. De repente chegou a uma nova montanha, diferente de tudo o que havia conhecido antes. Lá a natureza podia ser sutil e etérea, ou sólida e concreta, de acordo com a sua vontade. Tudo era criado instantaneamente pelo seu pensamento, que fluía através dela feito onda. O ar era de uma pureza indescritível.
Intrépida, ela podia pular no abismo e depois voar livremente. Quando olhou para baixo viu que tinha chegado ao céu. Ao mundo do milagre e do impossível. Um anjo a saudou e disse: a plenitude não é chegar ao pico. É viver o vale como se fosse o pico, e o pico como se fosse o vale. E todo o céu e toda a terra estremeceram em um largo sorriso.  

11-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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