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| LILITH |
Ela queria amar, queria direitos iguais e tinha desejo de liberdade. Desejava ser reconhecida por suas particularidades, respeitada em sua natureza feminina alada. Não o sendo se revoltou, verteu-se em rastejante, tornou-se Lilith, a serpente. Por se sentir diminuída, rebelou-se, e passou então a se sobrepor a tudo o mais. Ocultou a Luz do mundo, passou a ter por hábito seduzir todos os homens, exercendo seu poder de enfeitiçar, conseguia fazer prevalecer suas ambições sombrias.
Fingia estar por baixo, quando, na verdade, manipulava toda a situação da
maneira que melhor a colocasse por cima. Escondia seus verdadeiros sentimentos,
o que realmente a movia. Habituando-se a dissimulação, manipulava o outro facilmente,
de maneira sutil, sem que ele percebesse. Sua sombra não aceita e reprimida
criou toda a perversão em torno de sua natureza. O homem ficou fascinado por
ela, cheio de medo e desejo.
Seus poderes o envolviam de uma maneira que ele não poderia entender, nem
se defender. Pois como se defender do que não se vê? Não há arma igual
às armas femininas, que são de natureza desconhecida, trazidas dos mundos
ocultos. Essa mulher vive na pura subjetividade, cria universos paralelos com
facilidade. Conta para isso com sua habilidade natural para viver no mundo
sutil, alimentada por suas próprias fantasias.
A submissão em que vivia muitas mulheres acabou por produzir este lado obscuro.
Ao observar a supremacia do homem, tão celebrado e pleno de todos os direitos, fingiu-se de submissa, guardando no fundo o ódio. Um dia ela explodiu, matou o
homem, os filhos, a sociedade, tudo o que viu pela frente. Porque sentia que a
vida que viviam era uma mentira, uma morte já há tempos anunciada. Ela apenas a
consuma, a revela, traz à tona as sombras do mundo.
Revela o lado negro da lua, a face terrível da mulher, o poder destrutivo
da energia feminina. Ela é Kali, que carrega numa mão uma flor, e noutra, uma cabeça
decepada. As mulheres que ainda não reconhecem seu próprio poder usam-no
inconscientemente, ou quando consciente, exclusivamente para magnetizar aquilo
que desejam possuir. O poder feminino é sutil, é espiritual, o poder masculino
é concreto, é material. O lado feminino tem o dom de mover as energias, de
perceber os outros mundos.
A essência feminina urge ser lembrada. Precisa-se escavar para
reencontrar a mulher selvagem que é puro amor, que é o dom de trazer o céu a
terra, que é cuidadora e curadora. É pela ressurreição da essência feminina, da retomada do verdadeiro poder da mulher, bem orientado, que a terra pode ser revalorizada, e o mundo pode vir a se
transformar.
13-05-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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