Havia
uma sociedade em que a mulher era a figura central, e a vida era o que existia
de mais valioso e digno de adoração. A natureza e os seres humanos eram um só
corpo, conectado e interdependente. As decisões sociais eram determinadas em
conjunto pelos sujeitos, levando em conta a vida das passadas e futuras
gerações. A Terra e a mulher eram consideradas a expressão mais perfeita da
Deusa. Era motivo de perplexidade a existência de um ser capaz de gerar a vida.
Não
associavam o ato sexual com a procriação, por isso o homem não tinha relação
com a geração da vida. Achavam que a mulher engravidava pelas forças do
mistério e da natureza, por uma sincronia ou sinergia especial. A dimensão do
sagrado fazia com que considerassem o ato de amor como a mais sublime forma de
conexão com a Deusa. A propriedade privada não existia, a organização social
era comunal, assim as crianças eram educadas por todos e a terra era de todos.
A
sociedade se sustentava num sistema de trocas, os excedentes circulavam, não
havia falta de recursos. O amor era livre e fazia a energia circular, e nutria
a todos de acordo com seus desejos e necessidades. Todos eram honrados e podiam
seguir sua vocação. Cada indivíduo era apoiado pela sociedade a encontrar o
próprio caminho, a ouvir a voz da intuição. Nenhum ser vivo era excluído, nem conhecia
complexos de inferioridade ou superioridade de um gênero ou de outro. Pelo
contrário, o homem era parte do mistério, e ele defendia a mulher e a vida.
Não
havia lugar para a competição, todos eram respeitados na sua singularidade, com
seus desejos e aspiração pessoal. A terra não espera que uma semente de
mostarda se torne um fruto de jabuticaba, assim como a mulher sabe que um filho
não é igual ao outro, mas ama cada um com sua particularidade. Era assim que todos
respeitavam a vida em todas as suas expressões. E assim que a Deusa prevalecia,
pois ela era a terra, que dava a todos os seres vivos o seu alimento, ela era a
mulher, que dava a luz à humanidade.
Todos
trabalhavam para que a terra desse os melhores frutos, os melhores grãos, para
produzirem dela os mais saborosos vinhos. Todos desejavam que a mulher fosse
feliz, para criar com amor os filhos, para que os ensinasse a honrar a terra, e a
honrando pudessem construir uma sociedade feliz. A mulher ensinava que a vida que
ela gerava vinha do encontro do mistério do Céu com a Terra. Encontro que
acontecia dentro dela, que ela acolhia em seu ventre e em seu coração.
Nessa
sociedade todos respeitavam a mulher, todos respeitavam o Céu e todos
respeitavam a Terra. Assim eram nutridos, felizes e livres. A mulher guiava os
rumos sociais em consonância com a natureza e seus ciclos. A escuta foi o
principal sentido desenvolvido nessa cultura. Todos serviam à vida e reverenciavam
o mistério. Todos eram filhos da Deusa, e não havia um só homem que não fosse nutrido,
amado e feliz.
23-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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