sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Uma outra sociedade



Havia uma sociedade em que a mulher era a figura central, e a vida era o que existia de mais valioso e digno de adoração. A natureza e os seres humanos eram um só corpo, conectado e interdependente. As decisões sociais eram determinadas em conjunto pelos sujeitos, levando em conta a vida das passadas e futuras gerações. A Terra e a mulher eram consideradas a expressão mais perfeita da Deusa. Era motivo de perplexidade a existência de um ser capaz de gerar a vida.
Não associavam o ato sexual com a procriação, por isso o homem não tinha relação com a geração da vida. Achavam que a mulher engravidava pelas forças do mistério e da natureza, por uma sincronia ou sinergia especial. A dimensão do sagrado fazia com que considerassem o ato de amor como a mais sublime forma de conexão com a Deusa. A propriedade privada não existia, a organização social era comunal, assim as crianças eram educadas por todos e a terra era de todos.
A sociedade se sustentava num sistema de trocas, os excedentes circulavam, não havia falta de recursos. O amor era livre e fazia a energia circular, e nutria a todos de acordo com seus desejos e necessidades. Todos eram honrados e podiam seguir sua vocação. Cada indivíduo era apoiado pela sociedade a encontrar o próprio caminho, a ouvir a voz da intuição. Nenhum ser vivo era excluído, nem conhecia complexos de inferioridade ou superioridade de um gênero ou de outro. Pelo contrário, o homem era parte do mistério, e ele defendia a mulher e a vida.
Não havia lugar para a competição, todos eram respeitados na sua singularidade, com seus desejos e aspiração pessoal. A terra não espera que uma semente de mostarda se torne um fruto de jabuticaba, assim como a mulher sabe que um filho não é igual ao outro, mas ama cada um com sua particularidade. Era assim que todos respeitavam a vida em todas as suas expressões. E assim que a Deusa prevalecia, pois ela era a terra, que dava a todos os seres vivos o seu alimento, ela era a mulher, que dava a luz à humanidade.
Todos trabalhavam para que a terra desse os melhores frutos, os melhores grãos, para produzirem dela os mais saborosos vinhos. Todos desejavam que a mulher fosse feliz, para criar com amor os filhos, para que os ensinasse a honrar a terra, e a honrando pudessem construir uma sociedade feliz. A mulher ensinava que a vida que ela gerava vinha do encontro do mistério do Céu com a Terra. Encontro que acontecia dentro dela, que ela acolhia em seu ventre e em seu coração.
Nessa sociedade todos respeitavam a mulher, todos respeitavam o Céu e todos respeitavam a Terra. Assim eram nutridos, felizes e livres. A mulher guiava os rumos sociais em consonância com a natureza e seus ciclos. A escuta foi o principal sentido desenvolvido nessa cultura. Todos serviam à vida e reverenciavam o mistério. Todos eram filhos da Deusa, e não havia um só homem que não fosse nutrido, amado e feliz.
                                                                                                                                               23-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco


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