Era noite de lua cheia numa gruta no meio da floresta, onde treze mulheres
se reuniam numa cerimônia para celebrar os mitos da criação do mundo. Na gruta
havia uma fogueira consagrada ao Mundo Telúrico de Baixo, e outra que ardia na
câmara secreta, consagrada ao Mundo Celeste do Alto. As treze mulheres
celebravam o antigo culto à Deusa, e suas manifestações como Mãe-Terra e
Vó-Lua. As treze ali reunidas honravam o papel da mulher, como representante da
Deusa na Terra, como o Cálice da Vida.
As treze mulheres cuidavam das chamas dos mundos, e se preparavam para o
dia do despertar da chama do Mundo do Meio, localizada no coração da
humanidade. Na cerimônia recontavam antigas histórias das origens do Mundo do
Meio e seus povos. Relembrando os tempos da Deusa, em que se cultuava o sagrado
feminino, quando a mulher era respeitada por ser o ventre gerador da
humanidade, por ser a mestra iniciadora nas artes sutis do amor.
Mas este tempo passou, e os cultos à Deusa foram substituídos pelo
panteão dos Deuses e do Deus antropomórfico dos varões. As mulheres choravam a
dor provocada pelas guerras fratricidas do patriarcado, e choravam a devastação
da Terra, por obra da cultura antropocêntrica. Compadecidas da queima do sangue
negro da Terra, que traz à tona a memória do sofrimento das antigas
civilizações, amplificando ainda mais o sofrimento da atual.
Tudo isso aconteceu desde que a Deusa foi abandonada da consciência dos
homens. O choro das treze mulheres servia para lavar um pouco da alma desta tão
perdida humanidade. No mundo do Deus da ambição e do poder, os opostos deixaram
de ser complementares, e passaram a ser antagônicos. O natural equilíbrio da
vida e a cooperação entre os reinos foram massacrados pelos exércitos de
dominação masculina. As mulheres passaram a ser associadas ao pecado original, culpabilizadas
por todo o mal que existe no mundo.
Exigiu-se dela a obediência, a subordinação, para que prevalecesse o
domínio de um polo sobre o outro. As mulheres reunidas na gruta relembravam
toda esta era de treva, mas somente para conscientizarem-se da importância de
trazerem de volta a consciência matríztica, das origens da vida, para celebrarem
a Grande Obra manifestada pela Deusa. As mulheres revelam que a chama do
coração quando reacendida, faz renascer a consciência do sagrado feminino. E
que é honrando a Deusa, o princípio gerador da vida, que é possível reencontrar
a verdadeira humanidade em cada um.
O amado Pai Celeste é o princípio transcendente, e a adorada Mãe Divina é
o princípio imanente. Ela é o dom da vida, onde todos nascemos e vivemos, é o
seio da criação, a energia que anima. As treze mulheres cantam um novo tempo,
não mais da supremacia da força, nem da supremacia das leis, mas o tempo do
amor compassivo, da Mãe que acolhe e cuida. O tempo de cuidar de si, cuidar do
outro, cuidar de todas as nossas relações, com todos os reinos, mundos, cuidar
do lar comum, a Terra.
A Deusa é a mãe de todos os seres, nela vivemos todos os ciclos, de
vida-morte-vida. Ela é o ouroboros da
regeneração, do devir. As mulheres se rendem a Ela, e ensinam através do amor como
acender a chama do coração. Amando as Suas fases, faces, ciclos, pois que é Ela
a vida e a morte, é Nela que vivemos e morremos continuamente. O tambor das
mulheres marca o pulso da vida, no coração de cada ser vivente, e cantam: - Celebrai
as águas! Celebrai as árvores! Celebrai as danças! Que reviva o Sagrado
Feminino!
30-05-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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