sábado, 3 de agosto de 2019

As 13 mulheres e o sagrado feminino


                                                                                                                                       
Era noite de lua cheia numa gruta no meio da floresta, onde treze mulheres se reuniam numa cerimônia para celebrar os mitos da criação do mundo. Na gruta havia uma fogueira consagrada ao Mundo Telúrico de Baixo, e outra que ardia na câmara secreta, consagrada ao Mundo Celeste do Alto. As treze mulheres celebravam o antigo culto à Deusa, e suas manifestações como Mãe-Terra e Vó-Lua. As treze ali reunidas honravam o papel da mulher, como representante da Deusa na Terra, como o Cálice da Vida.
As treze mulheres cuidavam das chamas dos mundos, e se preparavam para o dia do despertar da chama do Mundo do Meio, localizada no coração da humanidade. Na cerimônia recontavam antigas histórias das origens do Mundo do Meio e seus povos. Relembrando os tempos da Deusa, em que se cultuava o sagrado feminino, quando a mulher era respeitada por ser o ventre gerador da humanidade, por ser a mestra iniciadora nas artes sutis do amor.
Mas este tempo passou, e os cultos à Deusa foram substituídos pelo panteão dos Deuses e do Deus antropomórfico dos varões. As mulheres choravam a dor provocada pelas guerras fratricidas do patriarcado, e choravam a devastação da Terra, por obra da cultura antropocêntrica. Compadecidas da queima do sangue negro da Terra, que traz à tona a memória do sofrimento das antigas civilizações, amplificando ainda mais o sofrimento da atual.
Tudo isso aconteceu desde que a Deusa foi abandonada da consciência dos homens. O choro das treze mulheres servia para lavar um pouco da alma desta tão perdida humanidade. No mundo do Deus da ambição e do poder, os opostos deixaram de ser complementares, e passaram a ser antagônicos. O natural equilíbrio da vida e a cooperação entre os reinos foram massacrados pelos exércitos de dominação masculina. As mulheres passaram a ser associadas ao pecado original, culpabilizadas por todo o mal que existe no mundo.
Exigiu-se dela a obediência, a subordinação, para que prevalecesse o domínio de um polo sobre o outro. As mulheres reunidas na gruta relembravam toda esta era de treva, mas somente para conscientizarem-se da importância de trazerem de volta a consciência matríztica, das origens da vida, para celebrarem a Grande Obra manifestada pela Deusa. As mulheres revelam que a chama do coração quando reacendida, faz renascer a consciência do sagrado feminino. E que é honrando a Deusa, o princípio gerador da vida, que é possível reencontrar a verdadeira humanidade em cada um.
O amado Pai Celeste é o princípio transcendente, e a adorada Mãe Divina é o princípio imanente. Ela é o dom da vida, onde todos nascemos e vivemos, é o seio da criação, a energia que anima. As treze mulheres cantam um novo tempo, não mais da supremacia da força, nem da supremacia das leis, mas o tempo do amor compassivo, da Mãe que acolhe e cuida. O tempo de cuidar de si, cuidar do outro, cuidar de todas as nossas relações, com todos os reinos, mundos, cuidar do lar comum, a Terra.  
A Deusa é a mãe de todos os seres, nela vivemos todos os ciclos, de vida-morte-vida. Ela é o ouroboros da regeneração, do devir. As mulheres se rendem a Ela, e ensinam através do amor como acender a chama do coração. Amando as Suas fases, faces, ciclos, pois que é Ela a vida e a morte, é Nela que vivemos e morremos continuamente. O tambor das mulheres marca o pulso da vida, no coração de cada ser vivente, e cantam: - Celebrai as águas! Celebrai as árvores! Celebrai as danças! Que reviva o Sagrado Feminino!

 30-05-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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