Por Mariana Montenegro
Um grande problema para a saúde mental e emocional atualmente no mundo está ligado a questão da polarização. Estamos todos possuídos por uma noção excludente da realidade, das ideias, das relações. Desde os tempos das antigas escolas sapienciais, até as mais novas tecnologias da consciência, aponta-se a polarização na raiz do sofrimento humano e na causa de doenças.
No livro "A Doença como Caminho", os autores (um médico e um psicólogo), procuram mostrar os aspectos mais profundos das doenças, através da mensagem contida nos sintomas, e chegar às suas causas. Eles ressaltam que existe um aspecto comum entre os diferentes tipos de doenças. Todas, de alguma forma, resultam da exclusão de um polo ou de outro.
O sintoma é aquilo que vêm da sombra, ou seja, do aspecto que foi negado ou descuidado. Segundo os autores, "a doença é a polaridade; a cura é a vitória sobre a polaridade". E complementam dizendo que: "a cada não, a cada ex-clusão reforçamos nossa não-totalidade pois, para obtermos a totalidade, nada poderia faltar". Em termos de relações inter-pessoais, o desafio é ser capaz de tomar uma posição, sem ser excludente com o outro, que toma uma posição contrária.
Outra conjectura para aclarar os motivos imbricados na polarização do mundo atual, é a realidade da fragmentação e a dissolução das antigas ideias de homem. A onda conservadora atual, mirando os costumes e saudosa de um passado remoto, soa uma reação a uma contemporaneidade aterradora, em que não existem mais certezas ou imagens pré-fabricadas que se sustentem. Em que o modelo de homem caiu por terra; é humano agora, é mulher, é trans...
Provável que não se tenha um ponto final aí. Como diz o antropólogo Roberto Crema, o que caracteriza o ser humano é o seu inacabamento. Ser em eterna busca e construção, um vir a ser, que não nasce humano, torna-se humano. Essa polarização do mundo, tão ostensiva e expressionista, é um sintoma que grita as contradições desse homem, que não pode mais se dizer simples homem, sem com isso estar excluindo o outro, e também se reduzindo.
O sintoma é o alerta da alma, que aponta o caminho para a reintegração, a re-in-venção do humano e de seu mundo, para criar-se de novo e de forma atual, a partir de dentro. Se o caminho ora adotado é o da cronificação dessa polarização, da doença, que ela sirva de lição, até o momento de estarmos prontos para novamente unir.

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