segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Uma metanoia


             
                                                                                                                                     
 Beatriz adorava caminhar, mesmo sem saber aonde ir, mesmo sem rumo certo. Algo a impelia a buscar uma trilha, que poderia levá-la a um encontro, do que ela não sabia exatamente o quê. Apesar de perder-se muitas vezes em rotas labirínticas, não desistia de procurar. Certa vez, sonhou com um rio, e acordou sentindo um forte desejo de atravessar as águas. Mas em seu caminho, só lhe cruzavam estradas, que ela também não sabia aonde exatamente a levariam. Pela terra e pelo ar, ela deu a volta ao mundo, e aprendeu diversas línguas.  
Por se adaptar facilmente às novas culturas, e pelo seu jeito cativante de ser, sempre conseguia a ajuda necessária, fazia boas amizades por onde passava e as portas se abriam para ela. A andarilha tinha o dom de se permear pelo estrangeiro, de se metamorfosear em uma nova mulher em cada singular cultura. Era capaz de assumir novos hábitos e de se sentir inteiramente pertencente a outras tradições. Em seu caminho, desfrutava de cada sabor típico, encantava-se com as belezas das paisagens, e em cada lugar vivia uma nova paixão.
Mas passado um tempo, tudo perdia o gosto, os olhos se acostumavam com a mesma paisagem, o encanto das paixões se quebrava. Quando então decidia partir. Não conseguia parar muito tempo num lugar, pois a angústia lhe abatia e ela era tomada por uma sensação de vazio. Depois de passada a euforia da novidade, tudo perdia o sentido para ela. O brilho em seus olhos, que cativava a todos, apagava-se, num triste desencanto. Então, arrumava sua trouxa e seguia viagem. Assim fez durante anos, mas no fundo tinha a esperança que algum dia chegaria a terra que faria perdurar a sua felicidade.
Em cada novo lugar encontrava também um novo mestre, do qual logo se tornava discípula. Queria aprender sobre os mistérios da vida e do universo. Buscava o sentido da sua existência, entender o que movia sua caminhada interminável. Queria uma orientação segura que a levasse a felicidade sonhada, à terra que fosse o seu lar derradeiro. Até que um dia, depois de passar por planícies e montanhas, alcançou a jusante de um rio. Era como o rio do seu sonho, que desejava atravessar após percorrer todas as estradas.
Sentou em frente à corrente de água. Tudo estava silencioso. Beatriz plenamente atenta, sentia os sinais vitais, a circulação, a respiração fluindo. De repente, viu seu coração estremecer. Por um momento sentiu algo apenas traduzível como onipresença. Sentiu que todos os lugares por onde havia passado se encontravam ali, naquele exato lugar, naquele exato instante. Ela chorou, por entender algo de muito profundo. Percebeu que tudo era passagem, curso d’água, e que o lugar que procurava estava ali todo o tempo. Dentro dela e em todo o lugar. As lágrimas que caiam limpavam seu cansaço, e lavavam sua alma das angústias vividas.
Quando olhou para seu reflexo na água, viu a imagem de um índio. A imagem era forte e cativante, seus olhos brilhavam, seu semblante transmitia sabedoria e serenidade. Em seguida, viu passar a imagem de todas as pessoas que encontrou no caminho. Viu a todos dentro dela, e entendeu que todos eram ela. Sentiu se encontrar no todo, e o todo a se encontrar nela. Beatriz viveu sua metanóia, transformou-se, e viu todos os caminhos percorridos coincidirem fora das trilhas do conhecido. 


 18-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco


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