'Contradigo a mim mesmo porque sou vasto"
Walt Whitman
Por Mariana Montenegro
Na Unipaz, comunga-se da emergência do novo, de novas abordagens educacionais e terapêuticas que compreendam o ser humano numa perspectiva de inteireza. Evoca-se um novo mito, uma 5ª força em terapia - transdiciplinar holística -, que fala da via da integração do pessoal e do transpessoal, da percepção da coincidência dos opostos e da individuação.
A ideia de um novo mito, como o mito da inteireza, surge das ruínas de outros mitos humanos que nos tempos atuais se exauriram, depois de levar o mundo à situação de estupidez e violência em que se encontra. Mas surge também, de um processo de evolução, de uma maturação humana.
O universo é evolutivo e convergente, segundo o geopaleontólogo Teilhard de Chardin, que também diz que a crise na Terra atual " liga-se com uma tomada em massa da humanidade: povos e civilizações chegados a tal grau, quer de contato periférico, quer de interdependência econômica, quer de comunhão psíquica, que já não podem crescer senão interpenetrando-se".
Levando em conta essa convergência inevitável, urge resgatar da sabedoria perene a ideia de um ser integral, de um indivíduo - aquele que não se divide. Unir o feminino e o masculino, o cisgênero e o transgênero, o pessoal e o transpessoal, a análise e a síntese...Pois o ser humano, como se diz, é pelo menos dois. É, em verdade, muitos mais. Uma infinidade de eus e possibilidades de vir a ser.
À inteireza importa reunir os fragmentos e recompor a totalidade, e importa vir a ser a partir de dentro, transparecendo o semblante que reluz o ser interior. Ser inteiro é ser o que se é em essência. É trazer à tona o potencial e os dons, assumir a autoria e a autenticidade próprias. Seguindo assim, uma trilha que conduz do ego ao Self, que leva à realização do potencial de plenitude.
Uma pessoa em estado doente busca a saúde. Assim como uma pessoa saudável deveria buscar a plenitude. Para isso, empreender uma metanóia, uma transformação, através de um caminho de iniciação ao Ser, que ela escolherá. Segundo os antigos terapeutas, conta Jean Yves Leloup: "troca-se de roupa em cinco minutos, mas leva-se uma vida inteira para trocar de coração".
O processo de individuação, de tornar-se o que se é, de assumir sua singularidade, é também um processo de acolher o que não se é, ou seja, o que se nega, a sombra, o excluído. Para ser grande, sê inteiro, já dizia o poeta Fernando Pessoa. Assim, o mito da inteireza alude à lógica da complementaridade, em que os opostos não se misturam, mas também não se excluem. Do axioma "ser ou não ser, eis a questão", ergue-se o mito da inteireza, do "ser e não ser, eis a solução". Eis o sagrado "e"!

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