Joana tinha uma
bomba relógio dentro de si, pronta para estourar a qualquer momento, ao menor
incidente. A bomba dentro dela era feita de emoções fortes, pensamentos caóticos e energias represadas, que vinham dela, de outras pessoas e dos ambientes por
onde circulava. Ela achava que pertencia a ela, tudo aquilo que captava dos
ambientes e das pessoas ao seu redor. Adorava uma briga, era daquelas pessoas
com a língua sempre afiada, pronta para dar uma resposta e a reagir para se
defender.
Mas agia
assim porque conhecia os seus direitos, e tinha muito medo de ser abusada, de ser
passada para trás. Cresceu numa grande cidade, onde um quer passar a perna no
outro, onde as pessoas se atropelam e não se veem. Aprendeu a se precaver, a
sobreviver na selva de pedra, e depois no mundo robótico e corporativo. Ela
gostava de brincar dizendo que a corporação onde trabalhava era uma criatura
fantasmagórica desprovida de corpo, que não havia pessoas por trás da máquina,
mas um amálgama robótico sem coração sustentado por uma hipnose coletiva.
Joana podia parecer ter ideias
bem loucas, mas que sem dúvida demonstravam sua sensibilidade e estranheza com
relação ao mundo que a cercava. Um dia ela tem um sonho, que lhe revela a
existência de outro mundo. No sonho, aparece um campo de energia ao seu redor,
que ela pode ver como o prolongamento de um campo maior que preenche todo o
espaço. Vê ainda centros sutis em seu corpo, que emanam diferentes cores e
qualidades. De repente se dá conta de que seus centros de energia estão todos
desequilibrados, que existem verdadeiros buracos em seu corpo energético.
Entende, nesse momento, que
existem outras camadas de seu ser, além do corpo físico, que precisam de
cuidados. Que seu corpo emocional e seu corpo mental precisam também receber
banhos diários. Percebe que necessita limpar a mente, esclarecê-la, nutrí-la de
bons pensamentos. Limpar o emocional, apaziguá-lo, cultivando bons sentimentos
e afetividade. Para então, poder ir mais além nessa limpeza, até a alma.
Elevando os corpos densos, ela descobre que pode ancorar os corpos sutis, e dar
a qualidade da alma ao corpo.
Ela passa a sentir a energia da alma, quando então
conhece um amor gratuito e cheio de alegria. Descobre um acesso ao plano das
causas, da inspiração, das belas obras. Descobre que pode construir um mundo
melhor, de harmonia, quando seus corpos estão em equilíbrio; limpos,
revigorados, animados. A bomba relógio, ou a bola de neve, que ela tinha dentro
de si, era o resultado do processo de viver inconsciente, de passar dias, anos,
e até vidas inteiras, sem se olhar no espelho.
Não no espelho físico, que esse ninguém esquece de olhar nem por um só dia, mas no espelho da integridade do seu ser, na sua totalidade. Ela passa, a partir de então, a marcar encontros diários
consigo mesma, e passa a ver cada problema na sua origem e no seu tamanho real.
Desenvolve em seu trabalho um novo departamento, que ela chama de “Departamento
da ética do respeito à pura delicadeza do ser”. A bomba é desarmada pela consciência,
e na fluidez das suas energias.
13-04-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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