Quando olhou no espelho viu apenas escombros, viu um edifício em ruínas.
Restava apenas terminar a demolição, desconstruir tudo e começar do zero. Era
assim que via seu reflexo no espelho: uma imagem difícil de encarar. A
transformação seria um processo longo, um trabalho árduo, e de não garantido
sucesso. Mas não podia mais se perguntar se havia jeito ou não, o sofrimento
era insuportável, era se transformar ou sucumbir. Optou por se transformar.
O edifício era uma casa mal assombrada, um longo corredor escuro. À sua
espera haviam bruxas, ladrões, assassinos, animais venenosos, fantasmas. Tinha
muito medo de andar sozinha à noite. Escondia-se em recantos secretos da sua
imaginação. A luz do dia estava distante, as janelas permaneciam fechadas. Sua
inocência foi violada, e sua alma abandonada. Mas percebia que havia uma
pequena luz dentro de si, luz essa que a mantinha viva e dava a esperança
de que era possível o impossível: a reconstrução do seu edifício interior.
Continuou olhando para o espelho. Colocou holofotes sobre seu edifício.
As camadas mais brutas e obscuras da sua alma foram se descortinando, uma a
uma. Eram tantos demônios, dores, tristezas, que não parecia ter fim. O
edifício parecia feito de matéria indestrutível, teve medo de não conseguir.
Mas o trabalho gradual, a coragem, as ajudas, e sobretudo, a determinação de se
transformar, foi derrubando o velho edifício. Ele já não se sustentava mais.
Nas bases se abriram buracos, as paredes e os pilares desabaram, a casa
caiu. Ela olhava aquilo tudo aliviada, mas ao mesmo tempo desafiada, pois dali
em diante teria de construir um novo edifício, por si mesma. Os escombros não
serviriam à empreitada, precisaria buscar novos recursos para sua obra. Olhou
para dentro de si, com compaixão e fé, buscando esse novo material. Foi
construindo aos poucos o novo edifício. Um tijolo seguido do outro, degrau após
degrau, etapa por etapa.
A base era feita de amor e compaixão. Ergueu os pilares com determinação
e fé. Usando de bastante calma e paciência, materiais dos mais preciosos e
trabalhosos. Com um pouco de ordem e disciplina, construiu o novo edifício. Toda
a elaboração era feita com sua própria inteligência, que partia de uma sensação
sutil, do fogo da sua intuição. O ar era puro e exalava aromas de flores
suaves.
Fazia suas escolhas, vivia de acordo com seus valores, aprendia sempre. Ouvia
os desejos da sua alma e os abençoava. Agora ela poderia receber a todos em sua
casa, com aquela hospitalidade de generosa anfitriã. Tinha finalmente o que
ofertar de bom. Em seu lar interior a alegria reinou. Agora ela podia sentir o
céu do amor com os pés firmes no chão.
07-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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