Isabel há tempos convivia com a crença de que a vida é dura e difícil, de
que só com muito esforço conseguiria realizar os seus desejos. Tornou-se uma
mulher obstinada e extremamente competitiva. Vivia tensa, pois relaxar seria
para ela perder o controle. Era reconhecida em seu trabalho pelo empenho
incansável, e foi assim que conquistou um lugar de destaque. Mas já não tinha
vida pessoal, nem havia recesso que fosse suficiente para recarregar suas
energias, que estavam sendo sugadas a cada dia.
Até se olhar no espelho e não se reconhecer mais. Algo de essencial tinha
desaparecido, sua luz já não brilhava e sua alma já não a habitava. Havia
chegado a um ponto crítico, a uma exaustão máxima e debilitante. O que não era,
nem de longe, a sombra do cansaço de um bom dia de deveres cumpridos. Não havia
satisfação, não encontrava sentido para o que estava fazendo de sua vida.
Sentiu-se morta, vazia e murcha por dentro. Não sabia por que aquilo estava
acontecendo, mas sabia que algo precisava mudar.
Foi quando um amigo falou a ela de um jardim que existia numa casa de
campo distante dali. E com as últimas forças que lhe restavam, Isabel viajou ao
encontro do amigo. Ele a acolheu com muita cuidado, mostrou-lhe os campos e os
animais selvagens, e a ensinou a jardinagem. Todos os dias acordavam bem cedo. Primeiro
observavam atentamente as plantas, com a intenção de que elas crescessem e prosperassem,
e depois então faziam o trabalho de limpeza.
Diferente de tudo que havia feito até então, agora seu trabalho era
facilitar que algo crescesse naturalmente. Dessa vez, não teria que controlar
nem interferir para alcançar os resultados. O amigo mostrou a ela como as
plantas crescem apenas seguindo sua destinação natural. Ele dizia que na
essência a planta traz a informação do que será no seu desabrochar, bastando a
eles conhecer a semente e facilitá-la em seu processo de crescimento.
Isabel preparava cuidadosamente a terra, para que a semente tivesse a
base que precisava; o solo fértil, vivo de micro-organismos, com os nutrientes
necessários para a planta crescer sadia. Assim, com o sol e os elementos em
equilíbrio, o jardim se desenvolvia por si mesmo. Isabel foi entendendo o caminho
da planta, a sua vocação, deixando a inteligência da semente ser seu guia. E
percebeu que essa mesma inteligência natural existe dentro dela também.
Isabel reconheceu-se na planta, e a sua vida nos processos da terra. Entendeu
como vivia antes numa terra morta, o quanto ignorava sua essência e traía sua
destinação natural. Por isso fazia tanta força para amadurecer no mundo, e ainda
sim, não tinha o êxito que almejava. Vislumbrou que para ser é preciso desabrochar
a essência no jardim da existência. Vendo a terra e todo o jardim apoiar a
planta, sentiu confiança na vida, e um desejo também natural de florescer e
amadurecer.
22-02-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco

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