segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Artigo - Meu poeta




"Desfazer o normal há de ser uma norma"
Manoel de Barros

Na poesia de Manoel de Barros todas as coisas são verdadeiros indivíduos, tudo, as menores coisas, consideradas mais insignificantes, até os dejetos do mundo, recebem nome e dialogam com todas as outras. Sua poesia me leva a capturar o ser da coisa falada, e isso com toda singeleza, prezando o delicado essencial, mesmo no que há de mais bruto, repugnante ou corriqueiro.

Apreendendo, e, com aquela chave mágica, que me transfigura o olhar para ver o dentro das coisas, aproximo-me do universo da poesia de Manoel. Vou tateando, devagarzinho, olhando pelo buraco da maçaneta da porta, entrevendo um pouco de árvores, um pouco de horizonte, algumas lagartixas e borboletas azuis que dançam no céu entre rãs entardecidas.

"Eu via a natureza como quem a veste", diz. Esse poeta pantaneiro expressa um desejo meu, e de muitos, já que é um poeta popular, de criar mundos, e não apenas linguagem. Cada qual, ao lê-lo, terá sua própria experiência de viver outros universos inventados. 

Mundos em que o pequeno e o grande figuram no mesmo plano. Mesmo o mais desprezível e escatológico é valorizado. Vejo Manoel a reanimar a alma do mundo, fazendo com que todas as coisas que toque com suas palavras, ganhem importância e individualidade. Para ele, as palavras que remetem às coisas insignificantes, ganham sentido e tom de verdadeira oração:

“O mundo meu é pequeno, Senhor. Tem um rio e um pouco de árvores. Nossa casa foi feita de costas para o rio. Formigas recortam roseiras da avó. Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas. Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves. Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os besouros pensam que estão no incêndio. Quando o rio está começando um peixe, Ele me coisa. Ele me rã. Ele me árvore. De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos”.

Existe um afeto explícito pela natureza na sua poesia. Afeto esse que tanto carecemos no mundo atual, onde falta essa delicadeza e respeito às menores formas de vida, seja animal, vegetal, mineral. A poesia de Manoel nos ensina como é a experiência de ser-em-comum, dando ao humano as qualidades de animal, ao animal a qualidade de humano, e assim com tudo que é animado e até inanimado. 

 Reconheço em um filósofo da natureza uma ideia que se aproxima da poesia de Manoel de Barros. Ele viveu por volta de 500 anos a.c, e se chamava Heráclito de Éfeso, também conhecido como o “obscuro”. É lembrado até os dias de hoje por dizer que depois de entrar no rio uma vez, nem homem nem rio são os mesmos, que tudo é mudança na natureza, e essa seria a própria essência, o movimento. Assim, o modo de ser da natureza é criado pelas dinâmicas de ser e não ser. Fazendo com que tudo tenda sempre a mudar, a se reinventar.

A ideia que, a meu ver, aproxima esse antigo filósofo da natureza do poeta do Pantanal, é a visão de mundo não dicotomizada, onde os opostos são reconciliáveis e coincidem entre si. Dizia Heráclito: “o contrário em tensão é convergente; da divergência dos contrários, a mais bela harmonia”. Essa frase me remete à poesia de Manoel e penso no modo simples como ele faz as diferenças e os opostos coincidirem. Para o poeta, ocupado com o mundo sensível, toda palavra é substância e substantivo, na reinvenção do seu olhar.

Mariana Montenegro

Reedição de trabalho da pós-graduação em Educação Ambiental pela PUC-Rio
2010

domingo, 11 de agosto de 2019

O Complexo de Jonas



 Por Mariana Montenegro

        Jonas é um personagem bíblico que recebe a missão de ir até a cidade de Nínive pregar a palavra de Deus aos homens, mas, ao invés disso, ele foge. Na fuga, sua embarcação quase afunda e ele é atirado ao mar. Um grande peixe o engole e ele passa três dias e três noites na barriga do peixe. Até que é regurgitado, chegando a uma praia. 

     Na psicologia humanista, a história de Jonas é considerada a história do ser humano que tenta fugir do seu potencial de plenitude. É a pessoa que tem medo de ser diferente e prefere renunciar à própria autenticidade. O psicólogo humanista, Abraham Maslow, que desenvolveu a conhecida Pirâmide das Necessidades, fala que no topo da pirâmide está a necessidade de autorrealização. 

     Interessante notar que, diferente do ser humano, o animal não tenta ser aquilo que não é. Um gato não tenta ser um elefante. Ele nasce gato e não precisa de uma escola para aprender a ser gato. Já o ser humano, não nasce humano, precisa de educação para se tornar um. Precisa de um processo de aprendizagem que o leve a reconhecer suas potencialidades e colocá-las a serviço. 

      Jonas quer evitar o desajustamento social. Ele foge das possíveis punições e hostilidades a que estaria exposto. O que o Complexo de Jonas mostra é que reprimimos não apenas os impulsos neuróticos, mas também os impulsos humanos mais nobres. Isso por receio do que podemos causar. Nas palavras de Hermann Hesse:"A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo".

      Ser, assim, é ousar ser. A neurose de Jonas é uma contenção do fluir das suas virtualidades. Sob a égide do medo, ele obstrui e acorrenta a si próprio. Para assumir suas qualidades, é preciso lidar com a incompreensão alheia, com a baixa auto-estima de outros indivíduos também atingidos por esse complexo, e ainda, ter que lidar com a própria arrogância e orgulho. Assim, muitas vezes, o caminho mais fácil é subtrair-se, não crescer até sua altura máxima. 

     Um exemplo de repressão do potencial de plenitude é o corriqueiro senso comum que sustenta que o homem não pode ter características como a delicadeza e a vulnerabilidade. Jonas possui uma sabedoria e uma escuta interna que o faz diferente da maioria. E ouvir o chamado do coração requer coragem de sair das trilhas do conhecido. "Ninguém poderá fazer escolhas sábias se não aprender a ouvir a si mesmo, o seu próprio eu, em cada momento da sua vida", diz Maslow. 

     Ver um rio é vê-lo da nascente ao logradouro. - Quem viu um rio? - Quem viu um ser humano? Indaga o psicólogo e antropólogo Roberto Crema. Um ser humano que ouve o chamado da sua alma, trilhará por caminhos nada convencionais. Será um desconhecido até para si mesmo. Buda dizia que o melhor serviço que pode ser feito aos outros, é a libertação de si mesmo. Para se permitir fluir, ser, florescer. 

     Quando chega à praia, depois de fracassada sua fuga de si mesmo, Jonas aceita a vocação da sua alma, seu ser-viço - o viço do seu ser. Decide romper com o script da primeira infância e o senso comum da sociedade normótica, deixa de perder-se na existência rasteira e aproxima-se da sua sombra. Desiste de mascarar suas capacidades. Aceita sua limitação e seu alcance. Busca a força para expressar o melhor de si.



Referência:

sábado, 10 de agosto de 2019

Verdadeiro semblante

            
  
         Era uma mulher cheia de defesas, que levava demasiado a sério a vida, e, principalmente, a si mesma. Queria ser perfeita, por isso, o que não aceitava sobre si, rejeitava. Preocupava-se com agradar aos outros, porque queria ser amada. Mas, ainda assim, no fundo, não era amada como gostaria. Vivia numa gangorra, identificada com cada estado emocional que lhe passava. Não sentia mais prazer, não via mais novidade em nada. 

           O dia, que se renovava nos céus e na terra, não se renovava da mesma maneira dentro dela. Não acompanhava a mudança das estações, o pôr do sol, o frescor da manhã. Nada a nutria mais, o mundo aparentava sem viço, tudo já era conhecido e repetitivo. A vida parecia-lhe mais com a imagem de um velho barbudo, rabugento e ruminante. Não sabia o caminho para renovar-se. Mas negava com todas as forças a possibilidade de um novo destino. 

         E assim, na entropia dos dias, ia perdendo suas forças. Era doloroso demais para ela viver. No entanto, resistia a mudar sua frequência, pois havia se habituado ao sofrimento, aos seus labirintos mentais, e até se divertia com eles. Estava apegada demais ao sofrimento, não saberia como viver sem ele, que lhe conferia uma identidade de vítima sofredora, da qual até se orgulhava. Alimentava assim a sua arte, o seu gênio inconsciente e devastador. Abandonar o conhecido pelo desconhecido seria uma crise ainda maior e sem precedentes. 

           Do que falaria às pessoas se não existisse mais a sua história clássica de vítima? Como se sustentaria sem tantas teorias e crenças? Era fato consumado que o mundo era cruel e sem misericórdia para ela. Como poderia então a felicidade ser algo verdadeiro, e não uma invenção burguesa? Como haveria um paraíso dentro dela? Debochava com ironia de algo assim. Suas defesas mentais não permitiam que abrisse o coração. 

        O mundo da alma e da consciência, que alguns loucos anunciavam, parecia-lhe demasiado inocente, e não podia mais aceitar a inocência. Pois a condição requerida para sobreviver nesse mundo foi abandonar sua inocência e aprender a esperteza. Vivia uma luta interna, e não via saída. Mas algo dentro dela queria o seu renascimento. Queria ter a chance de viver uma vida plena de energia e de sentido, uma vida que valesse a pena. Precisava para isso aceitar tudo que havia feito até então, e se perdoar. Precisava demolir o velho edifício construído com as habituais espertezas e crenças. 

            Precisava de uma boa morte, de uma real transformação. Ela precisaria começar do zero. Voltar a terra. Aos ciclos naturais. Ao corpo. Reconciliar-se com os mistérios. Entender que tudo o que ela aprendeu até então foram mentiras convencionadas. Aceitar de volta a sua inocência e a sua simplicidade. Perder a coerência, mas conhecer a congruência. Sentir novamente a terra sob seus pés, o alimento que dá saúde ao corpo, o pensamento que dá saúde a mente, reaprender a viver. 

          Era muito difícil aceitar a tudo isso, ou melhor, aceitar a nada. Porque o simples da vida, de início, parece com o nada. Parece triste no primeiro encontro. É tão desprovido e tão nu. O silêncio parece ausência na primeira abertura, o que requer coragem e uma desistência, pois o que insiste em negar a impede de ser inteira. Há que perdoar a si mesma, para poder perdoar aos outros, ver a oportunidade no problema, o bem no mal, ir além das aparências. Há que celebrar o paradoxo!

        No fundo, seu maior medo é ser quem ela é por inteiro. Seu medo inconsciente é descobrir o próprio potencial de plenitude, é dilatar-se do tamanho do universo, do mundo, do outro. É revelar seu verdadeiro semblante, assumir suas capacidades, que só fará quando acolher o que é negado, descuidado em si, trazendo a sombra escondida à luz da consciência. Só assim pode integrar os dois lados, e todos os lados, mudando a sua frequência, de uma frequência de polaridade e luta, para uma frequência de unidade e paz. 

          Às vezes, é preciso um pouco de ordem, como às vezes pode ser preciso um pouco de caos, para equilibrar. Ora um pouco de luz, ora um pouco de sombra. Temperar o caldo, fazer a magia certa para a hora certa. Tudo depende da intenção de quem conduz a energia. Mas só quem sabe jogar esse jogo paradoxal com sabedoria é o amor. Ela então percebe que fazia tantas defesas porque, no fundo, tentava proteger sua vulnerabilidade - o coração da sua alma. Aquilo que nela não tem defesas, não tem seguranças, não tem crenças, não tem opostos, que acolhe a luz e a sombra de igual maneira, como faz uma boa mãe com seus filhos. 

       Não queria aceitar a própria sombra por medo de se expandir além dos limites do conhecido. Quando virou essa chave, revelou o próprio semblante. Passou a dançar com a sombra e a correr com os lobos. A cantar com os anjos e a voar na imensidão. Assim ela aprendeu a se amar como era do lado do avesso, e viveu feliz para sempre, sempre que se converteu no eterno agora. 

Mariana Montenegro
23/03/2014
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco     

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Artigo: O Mito da Inteireza


'Contradigo a mim mesmo porque sou vasto"
Walt Whitman

Por Mariana Montenegro
   

     Na Unipaz, comunga-se da emergência do novo, de novas abordagens educacionais e terapêuticas que compreendam o ser humano numa perspectiva de inteireza. Evoca-se um novo mito, uma 5ª força em terapia - transdiciplinar holística -, que fala da via da integração do pessoal e do transpessoal, da percepção da coincidência dos opostos e da individuação. 

    A ideia de um novo mito, como o mito da inteireza, surge das ruínas de outros mitos humanos que nos tempos atuais se exauriram, depois de levar o mundo à situação de estupidez e violência em que se encontra. Mas surge também, de um processo de evolução, de uma maturação humana. 

    O universo é evolutivo e convergente, segundo o geopaleontólogo Teilhard de Chardin, que também diz que a crise na Terra atual " liga-se com uma tomada em massa da humanidade: povos e civilizações chegados a tal grau, quer de contato periférico, quer de interdependência econômica, quer de comunhão psíquica, que já não podem crescer senão interpenetrando-se". 

     Levando em conta essa convergência inevitável, urge resgatar da sabedoria perene a ideia de um ser integral, de um indivíduo - aquele que não se divide. Unir o feminino e o masculino, o cisgênero e o transgênero, o pessoal e o transpessoal, a análise e a síntese...Pois o ser humano, como se diz, é pelo menos dois. É, em verdade, muitos mais. Uma infinidade de eus e possibilidades de vir a ser. 

    À inteireza importa reunir os fragmentos e recompor a totalidade, e importa vir a ser a partir de dentro, transparecendo o semblante que reluz o ser interior. Ser inteiro é ser o que se é em essência. É trazer à tona o potencial e os dons, assumir a autoria e a autenticidade próprias. Seguindo assim, uma trilha que conduz do ego ao Self, que leva à realização do potencial de plenitude. 

    Uma pessoa em estado doente busca a saúde. Assim como uma pessoa saudável deveria buscar a plenitude. Para isso, empreender uma metanóia, uma transformação, através de um caminho de iniciação ao Ser, que ela escolherá. Segundo os antigos terapeutas, conta Jean Yves Leloup: "troca-se de roupa em cinco minutos, mas leva-se uma vida inteira para trocar de coração". 

    O processo de individuação, de tornar-se o que se é, de assumir sua singularidade, é também um processo de acolher o que não se é, ou seja, o que se nega, a sombra, o excluído. Para ser grande, sê inteiro, já dizia o poeta Fernando Pessoa. Assim, o mito da inteireza alude à lógica da complementaridade, em que os opostos não se misturam, mas também não se excluem. Do axioma "ser ou não ser, eis a questão", ergue-se o mito da inteireza, do "ser e não ser, eis a solução". Eis o sagrado "e"!

Artigo: Abraçando a sombra




O outro só existe como tal quando deixo de me projetar nele. Só assim eu posso ver o outro como outro, autêntico e legítimo na sua alteridade. Do contrário, só existe o mesmo; o eu misturado com o outro. Projetando-nos de maneira inconsciente para fora, atribuímos ao outro o que na verdade existe dentro de nós. A outra pessoa se torna uma tela de cinema, para a projeção do nosso drama, da nossa ficção, às vezes até, da nossa tragédia. Porque vemos, frequentemente nos outros, o que não aceitamos dentro de nós.
O que é negado, reprimido em nós, chamamos de sombra, de mal. Mas só haverá um verdadeiro sujeito, um ser integral, quando aceitarmos e abraçarmos as nossas sombras sem julgamento. Senão, só há contradição, desacordo, cisão interna. Só há luta que drena a energia da pessoa. Esta separação interna impede o encontro do ser consigo mesmo, e o afasta do seu direito humano à plenitude. Abraçar a sombra é aceitar o lado obscuro em nós, é aceitar todos os lados, sem fragmentação, trazendo-os à tona, à luz da consciência.
No início da caminhada do autoconhecimento, o que encontramos é um mundo de ruínas e de sombras dentro de nós. Mas se não fugirmos, se não nos negarmos a encarar os fatos e os fantasmas, através de um olhar de atenção e amor, podemos transformar a sombra, domar o leão que vive em nós, e fazer dele um aliado. A sombra é em si um potencial de maior consciência, de força, de vida. Quando a aceitamos, trabalhamos, integramos e transcendemos, conhecemos a Luz maior que existe além das dualidades. Mas devemos começar aceitando a matéria prima que temos inicialmente para trabalhar: sombras, monstros, escombros. É na queda que o rio mostra a força que tem.
Criticamos tanto o mundo porque não suportamos nosso próprio mundo interior; a guerra dentro de nossas próprias mentes, a confusão de nossos sentimentos, o caos em nossas vidas. Mas preferimos negar as sombras dentro de nós, e construir uma identidade com base nesta negação. É assim que construímos o mundo em que vivemos. Se existe uma guerra travada dentro de mim, e se ela é mantida inconsciente, será fatalmente projetada para fora com violência. Assim as guerras são necessárias no mundo.
Por isso o ser humano sobrevive de defesas; criando couraças e bloqueios. Porque faz continuamente o esforço para sufocar seu próprio mundo subterrâneo e interior. Para manter sua casca rígida e bem protegida. Só que o que ele não percebe, é que o inimigo vive dentro dele, não fora. E que é ele mesmo que cria e cultiva o inimigo através da sua própria inconsciência. Faltará assim congruência; um acordo harmonioso entre o que ele é, a imagem que faz de si para os outros, o que fala, o que pensa, e suas ações. Por isso, o passo a frente é não temer a própria sombra. Não fugir dela, aprender a amá-la. Amar este trabalho, que é o de abraçar a própria sombra, encarar os fantasmas, e de repente, entre escombros, esbarrar com os ossos.
O encontro com aquilo que é indestrutível, com os vestígios da essência, do numinoso. Mesmo a Hidra tem uma cabeça imortal. Mesmo o mais hediondo dos monstros mitológicos, tem uma essência que não pode ser destruída. Não podemos sufocar nem destruir nossas sombras interiores. Podemos aceitá-las, trabalhá-las, erguê-las à luz. Abraçar a sombra entendendo que ela é uma parte de nós, só que ainda não trabalhada. Para que então seja possível transcender as dualidades, a luta, para que as defesas se tornem desnecessárias. Reconciliando-se consigo, respeitando o outro. Na nossa raiz absoluta de unidade, e na existência da nossa gloriosa alteridade.
Rumi dizia que nossa tarefa não é procurar o amor, é procurar e encontrar as barreiras dentro de nós que nós construímos contra o amor. 

Mariana Montenegro
Publicado no site Somos Todos Um 
28-04-2014

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Conto da Alma Peregrina

     

Por Mariana Montenegro

     A peregrina caminhava pelos labirintos do eu, a se perder e a se encontrar. Ela possuía um olhar sensível à perda da alma nas sociedades atuais. Girava sua roda em torno do Self. Numa peregrinação sem fim pelos caminhos e descaminhos da alma no mundo. 

     A rotação das esferas, as estações, todo o cosmos está num movimento perpétuo, como a peregrina está numa viagem em direção ao mistério que a habita. Assim, a cada novo ciclo, ela põe-se em marcha, buscando entrar em harmonia com o ritmo da natureza e das estrelas. 

     Buscadora incansável da verdade interior e amante dos mistérios do ser, ela passa por uma experiência numinosa - que une a luz e a sombra - e que muda os rumos da sua jornada. No ano de 2012, numa canoa, num rio na América do Norte, ela vive o renascimento de sua alma. 

     Na travessia, na companhia de seres de luz, passa por uma boa morte. Vive o encontro com o mundo da Luz e do Amor da sua essência. As águas dividiram-se. Ela abriu-se à presença e reconstruiu seu edifício interior. A alma peregrina é aquela que responde à emergência espiritual dos tempos atuais com fôlego e brada a utopia de transparecer a essência nas trilhas da existência.



Suas ideias-força: 



 Conectar-me com meu coração de criança e com a alma do mundo

Cuidar da minha criança interior.

 Viver relacionamentos de alma para alma.


  Atenção às sincronicidades e às mensagens dos guias.


 Rir de mim mesma (o ego se leva muito a sério).


 Fé na ordem das coisas, no poder de organização do universo.

 Não adianta entender com a cabeça; sentir, experimentar, receber o conhecimento de dentro, da fonte interna. Invenção – vir a ser a partir de dentro.


Ouvir o outro sem entrar na emoção; entrar em contato com a sua alma, entender o que a alma dele precisa.


Deus é Um, mas não é só. É o Todo. 


Cultivar o silêncio e ancorar a presença.


Artigo: Os Compromissos Toltecas




Por Mariana Montenegro

      Vivemos uma época de renascimento da sabedoria dos povos originários. Há milhares de anos atrás, na antiga América, ao Sul do México, viveram os toltecas, cientistas e artistas que conservavam a sabedoria antiga dos seus ancestrais. Don Miguel Ruiz, descendente dessa tradição, em seu livro “Os Quatro Compromissos”, nos traz os antigos conhecimentos dos nagual, os mestres toltecas. De forma simples e prática, através de quatro compromissos de caráter e de fé, o livro nos guia na direção da verdadeira liberdade.
Antes de tudo, ele vai falar da “domesticação e do sonho do planeta”, da situação em que se encontra a humanidade. Significa que vivemos um sonho que não é nosso, mas que é um sonho coletivo, que nos leva a agir de uma forma que não é condizente com o nosso ser, falseando nossa própria existência. Não vemos a realidade, mas somente o sonho da mente coletiva, porque nossas mentes estão enevoadas, presas a uma ilusão que não nos permite ver com clareza.  
Essa domesticação e ilusão são mantidas por compromissos baseados no medo e na negação, e precisam ser quebrados se queremos viver uma vida de alegria e realização. Dom Miguel diz que precisamos tomar de volta nosso poder pessoal e fazer novos compromissos, mas estes baseados no amor. Apresentarei aqui novos compromissos, que podem ajudar a nos livrarmos do nevoeiro e a nos abrirmos à criação de um Novo Sonho. Vejamos então, “Os Quatro Compromissos” da filosofia tolteca:

“Seja Impecável com a sua palavra”. A palavra tem poder. Ela é criadora. Nós criamos através da palavra, do som, da intenção. Se queremos criar um novo mundo para nós, antes de tudo, precisamos aprender a fazer o uso correto da palavra. Usá-la com a consciência, para criarmos o mundo de harmonia e de felicidade que desejamos. Não utilizar a palavra contra si mesmo, e nem contra os outros; falar abençoando, falar apaziguando; falar impulsionando. Ser impecável com a palavra significa usá-la sem contrariar a própria natureza, para espalhar amor e criar o Paraíso na Terra.

“Não leve nada para o lado pessoal”. Quando uma pessoa fala ela está expondo a si mesma. Temos a presunção de achar que tudo é sobre nós, mas não é. Precisamos deixar de nos dar tanta importância pessoal, pois cada um vive em seu próprio sonho, em sua própria mente, e é isso que se revela quando a pessoa se expressa, ou mesmo quando acha que está falando dos outros. O que o outro faz não é motivado por mim, mas por ele mesmo, e o que pensa sobre mim não é problema meu, é dele. É simplesmente a forma como vê o mundo, a partir de suas próprias crenças.

“Não tire conclusões”. O drama da vida surge ao levarmos as coisas para o lado pessoal e em seguida tirarmos conclusões precipitadas, sem nem ao menos verificar. Criamos logo um monstro na cabeça, nos transformamos em vítima das circunstâncias, que temos a ilusão de que acontecem exclusivamente em função de nós. Gostamos de tirar conclusões sobre todas as coisas, e depois juramos que elas são reais. Interpretamos mal as situações e por isso sofremos. Isso vem da necessidade de querer controlar tudo e justificar para nos sentir seguros. E quando então não conseguimos fazer isso, presumimos, inventamos na nossa cabeça, e é assim que criamos o sonho do inferno. Por isso, se algo não está claro, não tire conclusões, pergunte!

“Dê sempre o melhor de si”. Esse compromisso é determinante para os outros três. É fundamental no caminho da libertação pessoal fazer sempre o melhor, nem mais nem menos. Isso significa também produzir com alta qualidade num momento, e em outro talvez não tanta. Mas o que importa é fazer o melhor a cada momento. Nem exagerar, não gastar mais energia do que se tem, nem fazer de menos, para não ter arrependimentos ou frustrações depois. Também não basta fazer o suficiente, só para ter uma recompensa, mas fazer o melhor, para ter realização. O compromisso aqui é ser verdadeiro e empenhado, pois como bem diz a poesia de Fernando Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro, põe quanto és no mínimo que fazes”.

É possível assim criar um Novo Sonho, como nos falam os toltecas, e viver intensamente a vida. Mas para isso, diz Dom Miguel, devemos deixar para trás o velho compromisso que fizemos com o sofrimento. Deixar para trás tudo o que aprendemos, que foi errado, para fazer novos acordos conosco e com vida. Um acordo de amor e realização, de verdade e plenitude. E escolher finalmente viver em estado de graça, enxergando a vida com os olhos do amor, em contato com a fonte de sabedoria dentro de nós, e quem sabe até sonhar com um mundo bonito e maravilhoso, com o Céu na Terra.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Uma metanoia


             
                                                                                                                                     
 Beatriz adorava caminhar, mesmo sem saber aonde ir, mesmo sem rumo certo. Algo a impelia a buscar uma trilha, que poderia levá-la a um encontro, do que ela não sabia exatamente o quê. Apesar de perder-se muitas vezes em rotas labirínticas, não desistia de procurar. Certa vez, sonhou com um rio, e acordou sentindo um forte desejo de atravessar as águas. Mas em seu caminho, só lhe cruzavam estradas, que ela também não sabia aonde exatamente a levariam. Pela terra e pelo ar, ela deu a volta ao mundo, e aprendeu diversas línguas.  
Por se adaptar facilmente às novas culturas, e pelo seu jeito cativante de ser, sempre conseguia a ajuda necessária, fazia boas amizades por onde passava e as portas se abriam para ela. A andarilha tinha o dom de se permear pelo estrangeiro, de se metamorfosear em uma nova mulher em cada singular cultura. Era capaz de assumir novos hábitos e de se sentir inteiramente pertencente a outras tradições. Em seu caminho, desfrutava de cada sabor típico, encantava-se com as belezas das paisagens, e em cada lugar vivia uma nova paixão.
Mas passado um tempo, tudo perdia o gosto, os olhos se acostumavam com a mesma paisagem, o encanto das paixões se quebrava. Quando então decidia partir. Não conseguia parar muito tempo num lugar, pois a angústia lhe abatia e ela era tomada por uma sensação de vazio. Depois de passada a euforia da novidade, tudo perdia o sentido para ela. O brilho em seus olhos, que cativava a todos, apagava-se, num triste desencanto. Então, arrumava sua trouxa e seguia viagem. Assim fez durante anos, mas no fundo tinha a esperança que algum dia chegaria a terra que faria perdurar a sua felicidade.
Em cada novo lugar encontrava também um novo mestre, do qual logo se tornava discípula. Queria aprender sobre os mistérios da vida e do universo. Buscava o sentido da sua existência, entender o que movia sua caminhada interminável. Queria uma orientação segura que a levasse a felicidade sonhada, à terra que fosse o seu lar derradeiro. Até que um dia, depois de passar por planícies e montanhas, alcançou a jusante de um rio. Era como o rio do seu sonho, que desejava atravessar após percorrer todas as estradas.
Sentou em frente à corrente de água. Tudo estava silencioso. Beatriz plenamente atenta, sentia os sinais vitais, a circulação, a respiração fluindo. De repente, viu seu coração estremecer. Por um momento sentiu algo apenas traduzível como onipresença. Sentiu que todos os lugares por onde havia passado se encontravam ali, naquele exato lugar, naquele exato instante. Ela chorou, por entender algo de muito profundo. Percebeu que tudo era passagem, curso d’água, e que o lugar que procurava estava ali todo o tempo. Dentro dela e em todo o lugar. As lágrimas que caiam limpavam seu cansaço, e lavavam sua alma das angústias vividas.
Quando olhou para seu reflexo na água, viu a imagem de um índio. A imagem era forte e cativante, seus olhos brilhavam, seu semblante transmitia sabedoria e serenidade. Em seguida, viu passar a imagem de todas as pessoas que encontrou no caminho. Viu a todos dentro dela, e entendeu que todos eram ela. Sentiu se encontrar no todo, e o todo a se encontrar nela. Beatriz viveu sua metanóia, transformou-se, e viu todos os caminhos percorridos coincidirem fora das trilhas do conhecido. 


 18-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco


Artigo: O Princípio da Vibração

Imagem do livro O Caibalion

Por Mariana Montenegro

O universo é vibração em diferentes graus ou escalas. A vibração do espírito é tão rápida e intensa, que pode parecer estar parada, como uma roda girando muito rápido. É dito no Caibalion -estudo da filosofia hermética do Antigo Egito e da Grécia -, que “quanto mais denso é um material, mais estável ele é, e menor a sua vibração”. E que “nada está parado; tudo se move; tudo vibra”. A vida criada é essencialmente movimento, tudo é mudança na natureza, pensava o filósofo Heráclito.

A física quântica trabalha hoje com a ideia de um campo universal unificado que abarcaria tudo o que existe. Esse campo é o Todo, é a frequência fundamental. Segundo o físico Laércio da Fonseca, a criação se dá através de uma oscilação no campo, que gera uma onda portadora de energia e informação. O Princípio Hermético da Vibração mostra que as diferenças entre as formas de manifestação são o resultado das variações de vibração.

A intenção e a vibração criam as formas. Com a intenção que temos ao emitir um som, produzimos um padrão vibratório. Por isso que, às vezes, o tom, a maneira como falamos, é mais revelador do que as palavras. Quando a intenção e as palavras entram num acordo, quando criam um acorde, e tocam diferentes notas simultaneamente, temos uma harmonia. A palavra ‘per-sona’ tem uma origem que significa “através do qual o som passa”.

As palavras são formas, que podem ser vazias, a depender da intenção e da consciência de quem as pronuncia. A energia segue o pensamento. Por isso que uma oração, uma escritura sagrada ou um canto religioso, terá o poder que lhe é dado pela intenção e pela consciência daquele que canta ou recita. O poder é dado à coisa pela intenção, é atribuído pelo olhar de seu observador. Quem canta seus males espanta, diz o sábio ditado popular, e quem usa o som com a consciência e a intenção, pode criar e modificar as formas.

Artigo: Polarização: A doença como caminho


A brincadeira óptica aqui é notar que os dois elementos - vaso e rostos - estão contidos simultaneamente na imagem, mas o observador toma uma decisão no sentido de "ou um", "ou outro". Na melhor das hipóteses, o observador verá em sequência, mas dificilmente, as duas imagens ao mesmo tempo, muito embora as duas estejam ali.

Por Mariana Montenegro

       Um grande problema para a saúde mental e emocional atualmente no mundo está ligado a questão da polarização. Estamos todos possuídos por uma noção excludente da realidade, das ideias, das relações. Desde os tempos das antigas escolas sapienciais, até as mais novas tecnologias da consciência, aponta-se a polarização na raiz do sofrimento humano e na causa de doenças. 

    No livro "A Doença como Caminho", os autores (um médico e um psicólogo), procuram mostrar os aspectos mais profundos das doenças, através da mensagem contida nos sintomas, e chegar às suas causas. Eles ressaltam que existe um aspecto comum entre os diferentes tipos de doenças. Todas, de alguma forma, resultam da exclusão de um polo ou de outro. 

    O sintoma é aquilo que vêm da sombra, ou seja, do aspecto que foi negado ou descuidado. Segundo os autores, "a doença é a polaridade; a cura é a vitória sobre a polaridade". E complementam dizendo que: "a cada não, a cada ex-clusão reforçamos nossa não-totalidade pois, para obtermos a totalidade, nada poderia faltar". Em termos de relações inter-pessoais, o desafio é ser capaz de tomar uma posição, sem ser excludente com o outro, que toma uma posição contrária. 

     Outra conjectura para aclarar os motivos imbricados na polarização do mundo atual, é a realidade da fragmentação e a dissolução das antigas ideias de homem. A onda conservadora atual, mirando os costumes e saudosa de um passado remoto, soa uma reação a uma contemporaneidade aterradora, em que não existem mais certezas ou imagens pré-fabricadas que se sustentem. Em que o modelo de homem caiu por terra; é humano agora, é mulher, é trans... 

     Provável que não se tenha um ponto final aí. Como diz o antropólogo Roberto Crema, o que caracteriza o ser humano é o seu inacabamento. Ser em eterna busca e construção, um vir a ser, que não nasce humano, torna-se humano. Essa polarização do mundo, tão ostensiva e expressionista, é um sintoma que grita as contradições desse homem, que não pode mais se dizer simples homem, sem com isso estar excluindo o outro, e também se reduzindo. 
    
     O sintoma é o alerta da alma, que aponta o caminho para a reintegração, a re-in-venção do humano e de seu mundo, para criar-se de novo e de forma atual, a partir de dentro. Se o caminho ora adotado é o da cronificação dessa polarização, da doença, que ela sirva de lição, até o momento de estarmos prontos para novamente unir.

Afirmação da Inteireza

O Unicórnio, "metáfora da Aliança entre os hemisférios do masculino e do feminino, o chifre da não dualidade que brota do corpo caloso, ponte simbólica entre o Ocidente e o Oriente de nossos hemisférios cerebrais". (Roberto Crema)


Por Mariana Montenegro

Eu sou um todo único
não fragmentado
inteiro.

Em mim não há divisões
os opostos coincidem
vivo em harmonia.

Eu sou uma única vida
um único ser.

Meu olho é único 
olho integrando.

Reúno meus corpos
Reúno minhas energias
Reúno as partes perdidas da minha alma.

Eu sou uma unidade de Luz e de Amor.
Eu Sou. 

Artigo: O Grande Remédio




O amor e a cura têm muito em comum, possuem o mesmo princípio básico: a atenção. Para que haja amor e para que aconteça a cura é preciso antes de tudo atenção. Por isso, o arquétipo do curador diz que é o amor que promove a cura. Não há amor sem atenção e cuidado, assim como não há cura sem atenção e cuidado. Ambos dependem da escuta inclusiva, da aceitação e do cuidado essencial. Nas palavras de Roberto Crema, “toda patologia é desatenção”, complementando a ideia de Yves-Leloup, quando afirma que para ter atenção, é preciso morrer em cada ação. 
Quando estamos totalmente atentos ao instante, na presença, podemos resgatar as partes perdidas de nós mesmos, interpretar os sonhos e os sintomas, como quem lê um texto sagrado. A cura passa pela transparência, pela essência que se expressa na existência, pelo aflorar dos potenciais e dos dons de cada um. Curar-se é tornar-se o que se é. Quando perdemos nossa alma, o contato com o núcleo de confluência do nosso ser, é que abrimos espaço para o sofrimento e as doenças. Cada um recebeu do mistério dons únicos, para com eles fazer uma obra- prima, e oferecer ao mundo o remédio, aquilo que em nós pode contribuir para a evolução e o bem maior.
Os povos originários falam que cada pessoa traz consigo o “Grande Remédio”; o potencial para ofertar ao mundo um bálsamo de cura. Mas para que esse bálsamo seja derramado, precisamos reaprender a contar histórias, a dançar, cantar e silenciar, segundo Angeles Arrien, em seu livro O Caminho Quádruplo. A cura tem a ver com um processo de “individuação”, no termo Junguiano, que descreve o processo humano de integração na trilha de retorno a plenitude do ser. A saúde plena é a via elegida do vir a ser, do tornar-se humano com autenticidade.
Em Saber Cuidar, Leonardo Boff, fala que existia um templo antigo na Grécia, em que se praticavam artes, ciências, filosofias e místicas, para a cura. Tinha o teatro para desdramatizar questões existenciais, tinha a poesia para tornar a alma sensível, a música para elevar às esferas superiores da consciência, a dança, o sono, a alimentação balanceada, o silêncio, passeios diários ao ar livre, esportes. Essas e outras atividades combinadas serviam para que este “Grande Remédio” fosse trazido à tona, curando o individuo e o mundo a sua volta.
No mundo atual, temos uma cultura médica voltada para a parte, para o microscópico, o germe, mas esquecida do todo que é o indivíduo. Temos profissionais que focam, de um modo geral, na doença, na disfunção, ao invés de focar na saúde e na cura. Que se ocupam em imediatamente desaparecer ou mascarar o sintoma, ao invés de ouví-lo e interpretá-lo, à luz daquele que está doente. Uma medicina regida pela economia, pela técnica e pelo uso indiscriminado da tecnologia. O corpo é tratado como uma máquina, composto de peças desvinculadas umas das outras, e desprovido de consciência e alma.
Na cultura chinesa antiga, quando uma pessoa ficava doente, ela parava de pagar o médico, pois a doença era sinal de que o médico fracassou. Ele era visto como um cuidador da saúde, responsável pela manutenção do bem estar total da pessoa, trabalhando para isso com a prevenção, o cultivo da energia e o equilíbrio. Na modernidade tardia, existe a crença de que a doença surge exclusivamente de uma alteração química do corpo, por ataques de germes nocivos. Os problemas reais apontados pelo sintoma são transferidos para os remédios da indústria farmacêutica, que cria um arsenal de guerra farmacológico para combater os “males” e as “pragas”, que vitimizam a humanidade.
A Organização Mundial de Saúde já aceita que ‘saúde é dinâmica de bem estar pessoal, social, ambiental e espiritual’. Se assim é, para pensarmos em saúde e cura, antes de tudo precisamos considerar os pensamentos, os sentimentos, o comportamento e o propósito de vida do paciente em questão. Entender o que pode ter causado uma disfunção no seu padrão natural de energia, que pode ter afetado seu campo vibracional. Uma parte específica do corpo quando adoece, tem uma mensagem a dar à consciência, assinala uma disfunção em algum ponto da sua rede energética-vibracional. Carece da atenção de alguém que não é mero paciente, mas um agente da própria saúde, e um cuidador em potencial.

Mariana Montenegro
Publicado no site Somos Todos Um
            26-06-2014

Artigo: Equilíbrio interior e qualidade de energia




Por que mudamos tanto de humor? Por que não conseguimos sair do turbilhão mental e dos altos e baixos das nossas emoções? Podemos entender isso, se percebermos que vivemos com as marés das mudanças naturais, e que esquecemos que existe dentro de nós um centro de paz imperturbável. É possível viver num estado de equilíbrio interior, surfando nas ondas das mudanças, sem nos deixar perturbar com o que acontece fora de nós. Por mais agitada que seja a superfície do mar, no abismal encontramos outro estado de vida. Uma pedra cai agitando as espumas, mas o fundo permanece tranquilo.  
Para encontrar esse lugar de serenidade dentro de nós, precisamos fazer o exercício de observação da mente, e promover um momento diário de reencontro. Parar, respirar com a consciência, voltar-se para dentro, observar tudo o que passa, sem nos apegar, sem rejeitar, apenas observando. Podem ser apenas alguns minutos, mas serão minutos valiosos, que levarão qualidade a todas as nossas atividades. Aquela qualidade do intervalo, da pausa, do silencio, onde melhor se pode contatar o mistério. Para mantermos nossa qualidade de energia precisamos trabalhar para o equilíbrio diário das energias que atuam nos corpos.
As correntes de vida fluem através de nós. Tudo é movimento e mudança na natureza. As energias circulam, assim como as informações, as sensações. A mudança é inevitável, as oscilações são próprias da vida. O problema é resistir a ela, é se apegar. Pois o apego, por sua vez, gera o medo da perda. Assim se origina o sofrimento humano: da negação da mudança e da fantasia da separatividade. Mas naufragar, dizem os bons navegantes, é não partir. O único lugar seguro, o verdadeiro lar, é dentro de nós. Fora encontramos lugares de pouso, onde o peregrino se refaz para a trilha, só para dar mais um passo.  
Encontramos portos para abastecer nossas embarcações, para então tornarem a seguir o caminho do mar. Não é a mesmice que nos trará equilíbrio, mas é a capacidade de sermos criativos, e usarmos a mudança para nos reinventarmos. Caminhando com a qualidade da consciência, do silêncio, do encontro interior. Já disse o sábio: - Não tenha pressa, aonde tem que ir, é a ti. – É possível viver nessa vida de constante mudança com qualidade de energia, equilíbrio interior e bom humor. Esta qualidade de consciência e equilíbrio depende apenas do autoconhecimento e da autogestão.
É do nosso interior que vem a fortaleza e a sabedoria para lidarmos com as mudanças e os desafios que enfrentamos no dia a dia. Podemos nos imaginar numa carroça puxada por três cavalos. Os cavalos são os corpos físico, emocional e mental, e o nosso trabalho é segurar firme as rédeas destes cavalos, orientando-os na direção certa. Assim é que acontece com nossos veículos físicos e psíquicos, que precisam do nosso controle e orientação para não se perderem. O ego é o melhor empregado, mas o pior patrão. Deixá-lo no comando é viver na montanha russa, no turbilhão, é se perder. Mas quando colocamos o ego a serviço da Alma e da Consciência, ele apresenta suas melhores qualidades.
Temos assim nossa energia concentrada e direcionada para o destino do Ser. Mas além do autocontrole dos nossos cavalos, dos nossos veículos, precisamos estar atentos ao que se passa ao nosso redor, que também nos afeta. É comum nos deixamos influenciar pelas energias das outras pessoas e dos lugares por onde passamos. Nossa qualidade de energia depende de uma constante atenção, para diferenciar o que é a minha energia, e o que é a energia do outro. O que é o meu pensamento, o que é o pensamento do outro. É por isso que mudamos tanto de humor e nos sentimos tão desvitalizados no cotidiano.
Não estando conscientes da nossa própria energia, acabamos por captar o que não nos pertence. Assim perdemos totalmente o autocontrole; perdemos a cabeça. A qualidade de energia diária e o equilíbrio que tanto almejamos, depende de uma dedicação a cultivar o Ser, nosso núcleo de paz interior. E também é preciso perceber as energias e informações que circulam em nós, e ter criatividade para pô-las em marcha ou transformá-las. Abarcando aí todos os desequilíbrios, sobressaltos, crises, sintomas, que apontam a Vida Maior, que nos atravessa enquanto caminhamos.

Mariana Montenegro
Artigo publicado no site Somos Todos Um
22-05-2014


sábado, 3 de agosto de 2019

A ressurreição da alma feminina


                                                                                                                   

Um dia os mundos se separaram, o mundo sutil e o mundo denso, o mundo feminino e o mundo masculino. Nesse tempo, a mulher foi domesticada, relegada à prisão, à fogueira, ao esquecimento. Brumas esconderam a realidade interior, as múltiplas dimensões da consciência e da sensibilidade. O mundo ficou frio e sombrio. Mas depois de séculos, ela despertou do terrível pesadelo, e acordou de volta à sua origem, a natureza selvagem. Quando, enfim, reviveu o sagrado feminino, e resgatou a sabedoria antiga das sacerdotisas. Com a consciência feminina renascida, os mundos foram novamente reunidos.
Ao invés de dissociação, monocultura, estagnação, descobriu-se a vinculação, a diversidade, a mudança constante. Ao invés do poder de um sobre o outro, descobriu-se a potência em cada um. A medicina voltou a ser a arte do cuidado integral, curando-se através da consciência, do amor, e do correto relacionamento com a natureza. Esse novo mundo redescoberto é originado pela Deusa, o Grande Útero, a substância primeva. Nele vivem livres as fadas, seres puros e alados da natureza sutil. Nesse mundo os mistérios da natureza são inspirados pelas Ninfas, e a harmonia existe perfeita no espírito de esplendor das Graças.
As Musas nesse mundo são as portadoras das chaves da individuação humana. Juntas são as energias de ressurreição da mulher, a alegria do desabrochar das maiores virtudes femininas. O tempo em que ficou esquecida serviu para que se tornasse ainda mais forte e ainda mais sábia. Hoje dança seu bailado gracioso, veste seus trajes de encanto, fazendo brotar flores e florestas, em canções jubilosas. Vive a felicidade da satisfação reconquistada, emanando sensações de prazer e contentamento. Amante da fruição da vida, ela agora sente intensamente a doçura, e se deleita das carícias que penetram fundo no seu ser.

   26-02-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifico


Vir a ser pássaro


                                                                                                             

Um passarinho observa enquanto outro come os frutos da árvore. Um guia a construção da casa e o outro a empreende. Enquanto um busca uma sólida massa de construção, o concreto, o outro quer algo como a matéria escura, sutil. Eles têm habilidades diferentes, e até opostas, no entanto ambos gostam de dar asas a sua imaginação. Em comum, cantam, entoando diferentes sonoridades. O canto do pássaro que contempla vem das alturas das esferas, sua inspiração surge feito raio de instantânea intuição. Seus ouvidos ouvem o som que jaz dentro do som, o canto dos anjos ressoa através dele.
Já o outro pássaro é um artesão da música, que lhe surge num processo labiríntico de criação. Utiliza-se de rimas e métricas perfeitas para compor obras monumentais. Juntos, alcançam às grandes sínteses, produzem fabulosas obras-primas. Um não vive sem o outro, se vivessem, seria uma vida pela metade, no cativeiro de si mesmo. O pássaro artesão segue pelas trilhas da invenção, cria os mundos através do seu desejo. O outro abençoa e mostra o caminho, sempre atento para corrigir a rota em caso de desvio, sempre pronto para harmonizar as notas dissonantes.
É um especialista em harmonia, um auscultador, dos sons que ressoam dentro dos sons. Um percebe o que ouve com escuta atenta e primorosa, enquanto o outro cria numa laboriosa experimentação das infinitas possibilidades do universo vibracional. Apesar da diferença de seus estilos, vivem lado a lado. Suas inclinações contrárias convergem na própria tensão do universo que compartilham. Eles juntos formam uma parceria tão perfeita como só a alma humana e seu Espírito podem se equiparar.
Ambos apreciam os jogos da floresta, brincam de ser e não ser, compor e decompor novas obras. Ao construí-las, se reconhecem, e se reconhecendo nas obras, constroem-se. Eles não se misturam, nem se separam, mas são parceiros, vivem lado a lado. Um dia, sobrevoando a floresta, sedentos por espaços longínquos, avistaram outro pássaro. Só que este não vivia livre na floresta, vivia numa gaiola. Aproximando-se dele, perguntaram o que lhe havia acontecido:

- O que houve com você, pobre pássaro, para viver engaiolado?

- Ora, não houve nada de mal. Estou aqui porque me sinto mais seguro dentro da gaiola.

- Desculpe amigo, mas como você pode abrir suas asas dentro da gaiola?

- Sabe o que é, prefiro viver aqui empoleirado, voar por aí na floresta é perigoso, poderia ser devorado por outro animal.

- Mas é lá fora que está a vida para um pássaro. Você tem certeza que não quer a nossa ajuda para sair daí?

-Ai de mim, minhas asas são fracas e inertes! E meu dono é muito bom para mim, me alimenta e me protege.

- Tudo bem, amigo. Mas lembre-se que você é um pássaro como nós, nascido para voar e cantar as árias da floresta.

Os pássaros seguiram então seu voo, e pensando no amigo engaiolado, lembraram-se dos seres humanos, que como ele, preferem viver empoleirados. Como o amigo, preferem viver presos a seguranças e certezas, no cativeiro de si mesmos, no lugar de assumirem a liberdade de serem verdadeiramente o que são. Mas diferente do pobre pássaro engaiolado, o ser humano tem a chave da própria prisão.

    17-03-2014
Mariana Montenegro
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco