"Desfazer o normal há de ser uma norma"
Manoel de Barros
Na
poesia de Manoel de Barros todas as coisas são verdadeiros indivíduos, tudo, as menores coisas, consideradas mais insignificantes, até os
dejetos do mundo, recebem nome e dialogam com todas as outras. Sua poesia me
leva a capturar o ser da coisa falada, e isso com toda singeleza, prezando o
delicado essencial, mesmo no que há de mais bruto, repugnante ou corriqueiro.
Apreendendo, e, com
aquela chave mágica, que me transfigura o olhar para ver o dentro
das coisas, aproximo-me do universo da poesia de Manoel. Vou
tateando, devagarzinho, olhando pelo buraco da maçaneta da porta, entrevendo um
pouco de árvores, um pouco de horizonte, algumas lagartixas e borboletas azuis
que dançam no céu entre rãs entardecidas.
"Eu via a
natureza como quem a veste", diz. Esse poeta pantaneiro expressa um desejo
meu, e de muitos, já que é um poeta popular, de criar mundos, e não apenas
linguagem. Cada qual, ao lê-lo, terá sua própria experiência de viver outros universos inventados.
Mundos em que o pequeno e o grande figuram no mesmo plano. Mesmo o mais desprezível e escatológico é
valorizado. Vejo Manoel a reanimar a alma do mundo, fazendo com que todas as coisas que toque com suas palavras, ganhem importância e individualidade. Para ele, as palavras que remetem às coisas insignificantes,
ganham sentido e tom de verdadeira oração:
“O mundo meu é pequeno, Senhor. Tem um rio e um pouco de árvores. Nossa
casa foi feita de costas para o rio. Formigas recortam roseiras da avó. Nos
fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas. Todas as coisas deste
lugar já estão comprometidas com aves. Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,
os besouros pensam que estão no incêndio. Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa. Ele me rã. Ele me árvore. De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos”.
Existe
um afeto explícito pela natureza na sua poesia. Afeto esse que
tanto carecemos no mundo atual, onde falta essa delicadeza e respeito às menores formas de vida, seja animal, vegetal,
mineral. A poesia de Manoel
nos ensina como é a experiência de ser-em-comum, dando ao humano as qualidades
de animal, ao animal a qualidade de humano, e assim com tudo que é animado e até inanimado.
Reconheço em um filósofo da natureza uma ideia que se aproxima da
poesia de Manoel de Barros. Ele viveu por volta
de 500 anos a.c, e se chamava Heráclito de Éfeso, também conhecido como o
“obscuro”. É lembrado até os dias de hoje por dizer que depois de entrar no rio
uma vez, nem homem nem rio são os mesmos, que tudo é mudança na natureza, e
essa seria a própria essência, o movimento. Assim, o modo de ser da natureza é criado pelas
dinâmicas de ser e não ser. Fazendo com que tudo tenda sempre a mudar, a se reinventar.
A ideia que, a meu
ver, aproxima esse antigo filósofo da natureza do poeta do Pantanal, é a visão de mundo não dicotomizada, onde os opostos são reconciliáveis
e coincidem entre si. Dizia Heráclito: “o contrário em tensão é convergente; da
divergência dos contrários, a mais bela harmonia”. Essa frase me
remete à poesia de Manoel e penso no modo simples como ele faz as diferenças e os opostos coincidirem. Para o poeta, ocupado com o mundo sensível, toda palavra é substância e
substantivo, na reinvenção do seu olhar.
Mariana Montenegro
Reedição de trabalho da pós-graduação em Educação Ambiental pela PUC-Rio
2010














