terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Origens

 

Como se chega ao fundo? Por mergulho ou por naufrágio? 

Como, em geral, não se mergulha por livre e espontânea vontade, chega-se, mais comum, por naufrágio. 

Assim que um olhar de farol viu, ao longe, uma embarcação se abater num agitado mar. Sendo sorvida nas ondulações e afundar. Para a capitã do barco cair no mais profundo e abissal oceano. Passando dos limites da enseada às remotas origens.

Lá se encontrou no ventre da baleia. Adentrou uma caverna submersa com memórias em hieróglifos ancestrais. Reconheceu (de sonhos) animais marinhos atlantes. Viu rebrilhar o sol interior do subterrâneo da terra. 

Tudo isso decorreu num átimo. E adiante foi esgueirando-se a cavar. Bebeu da sabedoria dos guias de Gaia. Sentiu palpitar o coração do oceano em seu peito, tornado leve e largo. 

Numa experiência brincante com uma pedrinha reluzente, passou a não mais se enunciar de lugar ou posição cerrada. De repente, podia estar em todos os lugares e assumir qualquer perspectiva. 

Quando, por graça da ancestralidade marinha, tornou a emergir, era sem identidade de superfície. Ungida nas águas mais profundas desaguou renascida na altitude mesma do infinito.

Mariana Montenegro

dezembro de 2020

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

VIDA

 


Vida, eis que abro meus olhos para ti. Antes, meu peito, descampado, reclinara-se assim, macerado. Sem ti, só sentia arrepios frios na pele e assombros n’alma. Tu que estavas aqui, mas eu não. Tu que estavas em mim, mas eu, deletéria. Outrora deixaste rastro, e por dentre uma relva rugosa, resvalando em espinhos, ouvi teus burburinhos: - Dou-me gratuitamente a ti, por que me negas?

Acontece quando minha sombra vaga desencontrada de mim (preciso mantê-la sempre por perto). Se perco a capacidade de ouvir o menor ramo estalar. Em todas as posições cerradas que entristecem. Ao menos, sei. Assumo o erro ao ponto da tragédia. Desmonto os disfarces. Ai de mim e das minhas quimeras. Mas há a hora fatal, em que me rendo, e essa é minha virtude. Não raro, termino demovida da torpeza até a metamorfose. 

Então me inclino diante de ti, Vida. Já esgotada das fugas em vão. Ferida das máculas condoídas. Tantos caminhos escarpados sobre a relva ou sob o firmamento cravavam. Mas à guisa da flor do querer peço que me convide a tua presença. Não fugirei em nenhuma hipótese. Mesmo no eclipse da razão do mundo ou em meio às peripécias dos ciclos minguantes.

Pois que tu és pacote completo: magma, ebulição, contágio. Quero sentir teu cheiro doce e acre, tua presença feérica e também a mais simples. Afirmo-te enfim e em mim. Fronteira alargada sou eu! Tu, embebida em amor, és o ar renovado das manhãs. Todo o brilho e o fulgor da aspiração. E o mais alentado de tudo, Vida, é que tu és meu dom de existir, e eu, teu regalo, teu oco, em que podes transbordar. 

Mariana Montenegro

junho de 2020

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Dracena e a Festa Elemental

Numa manhã tomava café ao lado da janela olhando as árvores como de costume. Quando escutei um sussurro: “Ela floriu”. Olho e vejo a Dracena florida, o que me encanta e me espanta, pois não houvera pensado conscientemente nessa possibilidade. Nutria apenas esperanças de que ela se recuperasse, pois a tirei de um ambiente nocivo, tratando dela e a colocando em boas condições.

Durante algum tempo, achei que estava estacionada, conseguindo pouco notar de seu crescimento. Até que ela foi se recuperando, e para minha surpresa, um dia, insinuara um florescimento, e, no outro, o pleno desabrochar com um perfume fortíssimo, como jamais senti, talvez apenas próximo da Dama da Noite do quintal de minha avó. O perfume tomava toda a sala e, para surpresa ainda maior, era o convite para a festa dos Devas da natureza.

Com o perfume da Dracena um clima de festa foi se chegando. O cenário era de tempo fresco, chuva fina, passarinho se aninhando sobre a persiana, pequenos insetos polinizadores, bons ventos, clima perfeito para celebrar o pleno desabrochar das flores. Os Devas vinham com roupinhas vermelho e verde, com sua fala ligeira, a dançar e a pedir músicas. Bebiam o néctar da flor, a pura cerveja deles, sentindo-nos todos inebriados com o aroma.

Dracena atraiu a todos. A festa rolou. A alegria tomou conta da casa. Esses construtores e celebrantes oficiais das grandes festas da natureza, por vezes até psicodélicas, gostam de pedir músicas para se alegrarem. Cantei para não os decepcionar: “So let the sunshine in face it with a grin/open up your heart and let the sunshine in”. Fazendo-os rir à beça e dançar. Era um momento especial para todos, de vitória da natureza, de comunhão.

Os Devas nos convidam a criar boas condições através de nossas emanações, para que eles possam captá-las e se aproximarem de nós. Eles contam que os humanos se afastaram deles. Não sentem a natureza como a um ser vivo e sensível. Mas dizem que se nós recuperamos essa consciência podemos desabrochar como as flores. E eles podem se juntar a nós nas nossas obras e nas celebrações de suas realizações. Convivendo juntos nessa atmosfera de alegria e riqueza, sem faltar cerveja e amor.

Mariana Montenegro

Dezembro de 2020

 

O Alquimista Surfista

O Alquimista Surfista sai de bermuda e pé no chão pisando no asfalto quente até a praia acompanhado do seu amigo cão Fred. Sai aos tropeços, tonto, e em jet lag, depois do voo pelo mundo do fluxo de consciência de "As ondas", de Virginia Woolf. Mas é sujeito experimentado das fossas, que gosta da sensação do fluxo intenso. 

Como filósofo da natureza que é, conhece as alturas e as profundidades, e, como surfista, sabe navegar nas perturbações sabendo-as condutoras de energia. Mas é Fred, a voz da razão da dupla, que sabe a hora de voltar à superfície. Sempre invoca com seus latidos o momento certo. Logo que chegam à praia, montam o ponto, de onde observam as vagas e os ventos. 

Num ritmado, as ondas quebram nas pedras do Arpoador, que amanhece esmaltado de um azul-lilás. Quando na maloca, faz as diluições arquetípicas da matéria primordial. Inscreve secretas lâminas com formas simbólicas. Em meio aos mistérios pouco traduzíveis, usa a palavra como matéria de alquimia. Como revela:  

- Existe a palavra útil, muito direta e estrita, que comunica sem ruídos - a palavra assentada, com raiz. E existe a palavra inutensílio, mais larga e profunda, que adentra regiões abissais e nas alturas toca a matéria dos sonhos - a palavra soprada, alada. Dando uma amostra de alguns de seus contraditórios concomitantes.

No crepúsculo vermelho, os amigos fazem o ritual do tambor para desatar a noite que desce e o novo dia que se seguirá. O Alquimista Surfista transfigura-se no rito do toque do tambor à beira mar. Sente a maresia acariciar sua face bronzeada num gesto de delicadeza feminina. Na contemplação serena das ondas revoltas do mar, experimenta o elixir da obra do dia.

Mariana Montenegro

dezembro de 2020

                                                                                                                    

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Afeição do instante (o jogo da presença)

        

          Eis uma mulher e seu saber. Sobre ela não sei, sobre seu saber diz um tanto. Aquém do tudo, pois tudo não pode dizer. Pela lei dos contrastes argumenta que, enquanto algo está à luz, algo deve estar à sombra. Saber ocultar é tão importante quanto saber revelar. Mas abrindo o jogo, vem evidenciar: - Não sou idêntica a mim mesma. 

        Tenta se coincidir numa fotografia, no entanto, à revelia, é sempre outra. Pressente no instante antes do clique da máquina a almejada coincidência consigo. Então consegue tomar uma feição aparentada - assim, pressentindo sob telas. Ela conta que tem por Deus o instante, ou no instante, o seu Deus. Por isso, louva a presença, com tudo o que nela está contido. 

Labora confabulando intensidades, num jogo, por vezes, perigoso para ela. Mas vai ganhando  um tônus para lidar com as asperezas e os excessos todos da vida. Ainda antes de encontrar no instante seu Deus, ela tinha um passado e, nele, o Deus das escrituras lhe era caro, com seus tecidos mortos e entranhas fossilizadas. 

Mas soube aprender com tudo, e, com o tempo, muitas histórias foram recontadas. Já até compuseram seu mito pessoal. Histórias que viveram seu ciclo completo: primeiro, aceitas, depois, elaboradas, em seguida, integradas, e, por fim, transcendidas. Desenganada das fotografias, só se vê na feição do instante. Pensando que o próprio instante que não se pode captar seja ela mesma. 


Mariana Montenegro

dezembro de 2020

sábado, 21 de novembro de 2020

Confissão alienígena

 


Estava um homem que meu pai se orgulharia. Rico, incensado, temido. Só que mais ambicioso. A mim não bastava ser um simples senhor de um pedaço de terra. Tornei-me dono de jazidas subterrâneas, esgotei consecutivas minas com a atividade extrativista da mais rentável. Só que nem sempre foi assim. Já tive a voz de vogal doçura dos poetas. Criança, tinham-me por “bom garoto”.

Diziam que meus olhos eram de pássaro e eu estava sempre a brincar entre as margaridinhas. O que causava preocupação em meus pais. A ausência de traço de bruteza era como um desalinho de conduta. – “Além do que, como vai viver?” Rumorejavam ressabiados. Quando brincava com as outras crianças, não tentava me sobressair, queria apenas me integrar. Muito ostentava de sorrir.

- “Precisa virar homem”, diziam. E assim foi. Virei homem. Comecei negociando meu coro, e depois, já empresário, o coro dos demais. Consideravam-me um sujeito de visão. Sentia-me generoso para com os meus, e grande produtor para o mundo. Mas sofria do peito angustiado, da mente enevoada. Tomando remédio pra dormir, remédio pra acordar...

Nos domínios do demasiado, sentia-me o próprio arquiteto das ruínas. Nessas horas, pensava em largar esse trabalho, parar imediatamente a extração, deixando de fazer crescer o mundo das ruínas. Mas muitos me achariam um louco. Ou idiota. Tinha medo do que iriam pensar. Medo de perder tudo. Medo de ficar sozinho. Assim era por medo guiado. Porque no fundo da minha consciência, sem que ninguém o soubesse, eu me consumia.  

Mas acontece é que eu não posso ser bom. Admitir o quanto me compadeço da dor desta terra e de seus povos seria motivo de zombaria. Não seria nem mais reconhecido. De insigne à insignificante. Viraria outro. Quando tomado por essa força moral, sinto-me profundamente envergonhado, um verme. Essa força se move com a compaixão dentro de mim. Mas isso acontece na antecâmara, em segredo.

Tornando-me outro viveria a graça inestimável de ser nada. Como aquelas pedras preciosas que apenas deixam a luz passar. Sempre sonho com uma mulher e um xamã, no interior de uma câmara. Eles celebrando algo, e eu, do lado de fora. Quando acordo, imagino um ser humano melhor; que eu poderia ser melhor. Ser parte também da terra. Confesso: é o tormento da minha consciência que escapa à falsificação. ME REVELA.  

Mariana Montenegro

outubro de 2020

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Auto-crítica geracional

No mesmo mundo de Dostoievski, um antípoda tergiversa entre idiotas engazopados e niilistas. De face rubra e expressão sorumbática, pensa nestes últimos nobilíssimos, que reduziram tudo a tão nada e qualquer coisa. Do fel das obras niilistas, por uma réstia de luz, o antípoda persiste dizendo que tudo serve à alma disposta a aprender. Seja com o subsolo de Fiódor ou das janelas de 2020. 

Para este antípoda secular, aprender é criar formas. Numa dinâmica que se atualiza perenemente. No entanto, sem reproduzir a fórmula niilista de dissolver as formas estruturantes e lapidares. Mas, ao contrário, sempre as rejuvenescendo. Tal é sua própria maneira de viver a paisagem na falta da beleza.

Mas o assunto em questão que vem falar é a certeza. Súbito o antípoda mira a certeza como posta sobre as águas. Ei-la feita a imagem de uma tábua de salvação. Tendo ainda a visão clara, apesar do caos trevoso dos tempos, põe-se a questão: - O que é a vida? E levantando-se num salto dirá: - É torrente! É fluxo! Não é certeza! 

Mas diga-se: é certeza logo que se agarra a algo, porque sem esperança no fluxo. Ao inverso do viver impreciso, feito ato criativo. Como quem sabe que não pode repisar ou entrar duas vezes no mesmo rio. Como alguém outro, o idiota atualizado, pós-niilista, a fazer seu paraquedas colorido, sonhando ainda voar com alguma graça.  


Mariana Montenegro

novembro de 2020




domingo, 1 de novembro de 2020

Política ao alcance das mãos

 


Conheci uma mulher que se apaixonou por um político à imagem grosseira de suas fantasias infantis, de seus sintomas pessoais, por efeito de transferência. Logo se via. A mulher recrudescida a qualquer contrariedade de juízo. Enunciava, sem decoro ou pudor, discursos de autoridade. Enquanto assistia, pensava se ela, para além dos ímpetos espasmódicos, já teria largueado sua verdadeira luta. 

É certo que vivia a praguejar o mundo, mas não sabia realmente se ela já teria descoberto seu próprio campo de batalha na vida. Notei que achava que suas atitudes eram realmente suas, totalmente conscientes, e diziam respeito a ela. No entanto, olhando mais detidamente, vi que havia nela uma sombra de dúvida, quando então tive alguma esperança. Segredou se sentir desnorteadamente marionete dos algoritmos. 

Sua bolha, bastante hermética, ruminava sempre as mesmas narrativas, e sempre expressando a mesma devoção por uns e danação por outros. Sem matizes, só fazendo reforço. Não trazendo nada de novo. E ela foi aos poucos se cansando. O que iria fazer? Reincidir eternamente nas mesmas manias e obsessões? Decidiu por não quando percebeu algo importante: sua ocupação de torcedora política tirava-lhe tempo precioso.

Viu o jardim de sua aldeia abandonado, e pensou que ali poderia fazer algo de bom. As plantas estavam murchas carentes do seu olhar. Viu um mutirão de formigas, e lembrou que, para os aborígenes, as formigas sonham. Começou a limpar a terra e a podar as plantas. Ouviu o cantar dos pássaros e o latir dos cachorros da rua. Ficando enriquecida das coisas comezinhas da realidade experimental. 

E teve com ela a ideia de elaborar melhor suas estratégias. Pensando numa luta ao alcance de suas mãos, de sua vizinhança, de suas bases. Confesso que fiquei bastante surpreendida com suas novas percepções. Ali mesmo, no jardim. Sonhando com as formigas. Portentosa desperta do turvamento. Percebendo que, entre o fanatismo - o sim absoluto, e o niilismo - o não absoluto, há outra via.

Não deixou de se sentir um animal-político, pois mulher sabe bem que direito algum caiu do céu azul. Pensa fortalecer suas bases, organizada com sua comunidade, para formar uma massa crítica capaz de contagiar o mundo até o topo da pirâmide. Sabendo minha heroína dos tempos distópicos em que vive. Do reinado da ignorância e da desavença. Ainda assim, e à guisa de não perder a viagem, pleiteia no vento uma nova-velha utopia - das bases. 

 Mariana Montenegro

outubro de 2020

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A Árvore dos Cantos e a Encantadora de Ossos

 

O vento soprando suave embala o cair da noite, de luar cheio e azulado. Monções e brisas soam aos ouvidos que auscultam canções, vindas de diferentes regiões e culturas longínquas. Voejam as canções que pousam na Árvore dos Cantos. Árvore sagrada do Povo em Pé, arquivo etérico dos peregrinos. Reunião de vozes, não de ecos. Assim é.

A Árvore dos Cantos conserva a sabedoria perene dos ancestrais. Portadora das chaves dos três mundos - Mundo de Baixo, Mundo do Meio e Mundo do Alto. Ela possui vários ramos, a se perderem de vista, que alcançam o peito do céu. Peregrinando pelos três mundos reuni umas tantas: francesas, californianas, celtas, alemãs, nordestinas, latinas, tupis, intergalácticas.

Canções servem à medicina, servem à festa. Cultivam a vibração alta e o pensamento elevado. Foi por isso que percorri mundos e fundos para criar uma Árvore que fosse bastante frondosa. Com uma canção, foi preciso perseverança. Eu fazia uma aula da Escola do Desvendar da Voz, e, um sopro, a Harmonie der Sterne, tocou forte meu coração.

Cantamos por uma hora, e eu, muito alegre. Quando a aula terminou, com a dispersão do coro, perdi a maestrina de vista. Passei dias atrás dela, até convencê-la a me entregar a canção alemã. Depois de mais uns dias, finalmente, ela me entregou a pauta dizendo: “Aqui está! Tome sua música”. Meu coração de criança deu pulos de alegria! A Harmonie der Sterne era a posse de um tesouro.

Certas canções não são apenas canções, mas veículo do mistagogo pelos espaços. Há cantos que brotam do mais profundo silêncio, fonte das canções da harmonia, do amor e da alegria. De onde também se forjam os veículos sutis que transportam os espíritos de mundo em mundo, de dimensão em dimensão.   

Mas essa historinha da escola só aconteceu depois da curva da estrada, quando encontrei a Encantadora de Ossos - catalisadora das transformações. A Encantadora é aquela que tem o ofício de trazer os mortos de volta à vida. No dia que a encontrei, ela soprou em meus ossos, e me ressuscitou do pó. Certa vez, fui visitá-la na terceira margem do rio onde morava.

Levei a ela um presente - a canção de poder que havia conquistado após semanas perturbando a professora de música. A Encantadora de Ossos ficou muito feliz com a inspiradora canção étnica e a colocou em sua própria Árvore dos Cantos. Penso que, através dela, poderá auscultar os mistérios e até reanimar outros fantasmas que perambulam pelo mundo.

Deveras agradecida, pegou antigos ossos para instrumento, e cantou em português: “Assim como as estrelas vibram todas cheias de harmonia/ Assim todos os humanos na terra possam viver harmoniosos/No pequeno e no grande, irradia o mundo de Deus”.

Mariana Montenegro

outubro/2020

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Entre o povo da mercadoria e o povo da terra: o conto da índia Branca

     


         Apagada a luz da casa, ergue os olhos ao céu à procura de uma estrela. A casa acesa causava tristeza, deixando a tudo ver. Sentia saudade de um cenário outro. Eram os olhos de uma mulher indígena, que não estava mais bem consciente de si, desde que foi viver entre o povo da mercadoria. Ela era uma das últimas remanescentes de uma nação da Amazônia Real, que fora exterminada pela ganância, pela violência e pelas epidemias.

Mas se deixando permear, apaixonou-se pelas mercadorias e recebeu o nome de Branca. Trabalhando incansavelmente pelas mercadorias e morrendo por elas, como todos desse povo. Também é hipnotizada pelas telas e adquire todas que pode com seus recursos. Só contempla as imagens das telas. Perde a capacidade de imaginar e de ter visões próprias. Esquece as histórias do povo originário de onde vem, tentando aprender essas novas histórias feitas de pensamentos curtos. 

Mas a cada dia se sentia mais falsa e mais triste consigo. De todas as maneiras tentou se resignar ao destino que lhe foi imposto. Até o dia em que uma névoa pestilenta a toma por inteiro, levando embora seus últimos alentos de esperança. Inundada numa má-água, Branca pensa em abreviar sua vida cometendo suicídio. Chegando ao ponto de não suportar mais a dor, com a perda da sua alma e de tamanha falta de sentido no mundo.  

Quando então ela decide ir ao encontro do último pajé da sua tribo, que vivia nos restos da floresta, à beira de um rio lamacento. Viaja até lá e, chegando, confessa ao pajé os pensamentos da sua mente adoecida. Depois de ouvir atentamente, ele oferece a ela a medicina da floresta. Prepara um chá do cipó e da folha de uma árvore sagrada. Ainda criança ela via os maiores tomando e sentia medo, mas nesse momento já não sentia nada, e então, simplesmente tomou.  

 Seu pensamento se expande em todas as direções e a índia começa a ver a terra como seu povo a via: uma terra viva que tem coração e que respira. Seu sentimento se aprofunda e ela percebe a presença de uma criança habitante da floresta, que a chama e conduz até o pé de uma grande montanha. Chegando lá, começam a aparecer inúmeros espíritos da floresta, que rodopiam em torno dela numa dança, rindo sem parar.

Os espíritos da floresta roubam sua imagem falsa, e mostram a queda do céu dessa civilização. Primeiro tiram a máscara do semblante de mentira, deixando seu rosto vazio como o rosto de um fantasma. Depois da algazarra, os espíritos mostram a ela uma cena, em que o povo da mercadoria aparece desabando do alto de uma enorme edificação. Na queda ela ouve gritos, tudo fica coberto de fumaça, formam-se pilhas de cadáveres de onde saem almas despedaçadas sem rosto.

Essas almas em desespero ainda tentam comer a terra. Até o último momento querem devorar tudo o que podem. Quando então o chão começa a se abrir, muitos são sugados e desaparecem. A cena apavora e ela pede ajuda aos espíritos da floresta. Depois que aquelas imagens somem, a índia se vê em outro lugar, bastante diferente, onde pode sentir o ar despoluído até o pensamento.  

Surgem seres vindos do Sol, de corpo translúcido e uma beleza sem igual. Os pés desses seres não pisam nesta terra, apenas pairam, com elegância e leveza. Sentindo o perfume que vinha deles a índia é inebriada de pureza. Finalmente, quando lançam um olhar sobre ela, o olhar é um olhar sem suspeitas. São espelhos de luz, em que um simples mirar é capaz de devolver a inteireza. Os seres revelam que vêm repovoar a terra, trazendo de volta os povos originários, com toda a justiça e a glória.  

Branca vê todas essas imagens e, ao fim, diante do pajé, diz que não irá mais causar nenhum mal a si mesma. Nunca mais. E voltando ao mundo do povo da mercadoria, já é outra. Não sente prazer com as imagens que vê lá, mas tampouco sofre delas mais. Recuperou sua imagem verdadeira e tem agora suas próprias visões. A criança continuou com ela, e também os espíritos das águas e dos peixes, que diziam: É contra a correnteza mesmo que, um dia, nós e a terra se alumiará!  

Mariana Montenegro

outubro/2020

 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Memórias da noite escura da alma

Ensimesmada em uma inquietação aérea,

Num estado alheio de sonolência,

Fito com o olhar volatilizado

Um inseto batendo na lâmpada.

Sinto o cheiro de madeira fumegante.

Vagueio desatinada a perguntar:

-Por onde andas, minha alma?


II

Perdida e ferida sentia todo o peso,

O cansaço, a dor da existência fadada.

Mergulhada em inconformidades,

Em um momento fraturado de crise aguda.

Com as vísceras da existência expostas,

Sofrendo de perplexidade me perguntava:

- O que me salvará do afogamento e me ensinará a navegar?


III

Na ausência de botes,

Vivia numa montanha-russa

Fazendo curvas demasiadamente acentuadas.

Afogava-me facilmente em mim mesma.

Sem fio de prumo,

Norte

Ou estrela-guia.


IV

Identificada com a vestimenta e sem contato com a própria pele

Encontrava-me sem saída nos trilhos do conhecido.

Enfrentei a noite escura da alma, catando os cacos dos dilaceramentos,

Nas divisas da desintegração humana.

Rompendo com o script fui mudando aos poucos meu próprio contorno.


V

Era noite de lua cheia.

As pupilas em chamas contemplavam os raios assombrados,

Nos cumes de uma emoção devastadora.

Vitimada por minha própria sensibilidade,

Com a alma ressequida,

Sorvi o breu

E o beco sem saída. 


VI

O orvalho encharca minha pele até o frio dos ossos.

De súbito, percebo-me em baixa, entristecida.

Quando tudo é tão somente memória-ranço,

Imperfeição do tempo. 


VII

 Já fui parede.

De tão dura e impenetrável

Luz não me permeava.

Procurei a porta,

Saí porosa. 


VIII

Não se comandam as forças dos ventos.

E como conspirar - respirar com o Sopro - não é lá muito normal,

Vive-se é muito à deriva, à mercê dos furacões.


IX

É um risco atravessar o rio.

Pode se perder o fôlego no meio do caminho.

Há ainda o risco de parar,

O risco de olhar para trás.

Mas, dos riscos, o maior, é não partir.

E aí sim, naufragar.


Mariana Montenegro

setembro/2020


 


Pensamentos da quarentena 2





I

Aprender

A ser melhor

Para o outro.

Desenvolver o caráter

Da alma

E sê-lo.


II

A vida tem uma cronologia.

Podemos contar histórias sucessivas.

Mas quando a gente entra no caminho,

O tempo deixa de ser linear,

Fica tudo simultâneo,

Circular.


III

Sou adepta da filosofia do bocó, que tem como axioma:

O conhecimento é complexo, mas o trato deve ser simples.

Como se diz: - Diante de um ser humano, ser apenas outro ser humano.

Até nossas ilusões precisam ser muito bem respeitadas,

Pois algumas sustentam um edifício inteiro.

Por isso, saber a hora de retirar o véu, com esmerado cuidado.


IV

O tempo é meu bem mais precioso.

Como o viverei a cada momento é uma incógnita.

Com que temperatura? Mais viva ou menos viva?

Escolho ouvir meu pulso cardíaco profundo.

Dedicar meu tempo aos afetos e ao conhecimento.

Naturalizar-me.

Com-templo o instante.


V

O que considero básico:

Peito leve feito pluma.

Eixo firme e flexível.

Hara.

Respiração.


VI

No deserto as mãos escrevem no vento e os passos são marcados na areia.

Calma e reflexão são atividades típicas do deserto.

Não-pensar e pensar com o hara também.

Lá é sabido que ninguém busca reconhecimento.

Vive-se apenas, com a humildade natural de um animal ou de uma planta.

Lá só há direção, estrela-guia e caminhante.

...No deserto é onde se encontram as fontes da vida...


VII

Que se preze e não se confunda:

A unidade é não-idêntica.


VIII

Existe a palavra útil, muito direta e estrita.

Comunica sem ruídos.

É palavra assentada,

Com raiz.

Mas tem também a palavra inutensílio, mais larga e profunda.

Aquela que adentra regiões abissais,

E nas alturas toca a matéria dos sonhos.

É a palavra soprada,

Alada. 


IX

Do verso paralelo à integração universal


Atravessando os fantasmas na noite escura da alma,

Em mundos paralelos, versos e fragmentos.

Em dogmas, catacreses e cisões.

Até a reviravolta heroica,

O novo nascimento,

O retorno.


O amor por tudo o que existe.

A alegria sem causa ou condição.

A dignidade na dor.

O verso e o uno

- O universo.

 Num abraço,

Num amálgama,

Reunida e compartilhada.


Ser mineral, vegetal, animal, homem, mulher e anjo.

Por montanhas, labirintos, rios e desertos.

Em muitos movimentos possíveis,

Um sem número de caminhos escarpados,

E todos levando à integração.


Mariana Montenegro

setembro/2020


sábado, 19 de setembro de 2020

O mal é amanhecer normal

 

Outono no Quebec/Canada

Seduz-me um perfume trazido pelo vento, que também carrega sementes que brotam nas floreiras. A rua me chega sem os barulhos do tráfego. Sou invadida pelo silêncio mágico da montanha. Os raios de sol acordam minhas células. Contemplo uma luminescência suave. Respiro profundamente. Percebo que cada dia é um dia a menos e há ameaças. 

Em 2020, o cerco da morte me lembra de que estar viva é uma dádiva. Agradeço e vivo – Carpe diem! - como se não houvesse amanhã! Nessa situação (e mesmo em outras), dia algum me é colorido de antemão. O estado interior pode mudar qualquer configuração natural. Das cores do céu até a direção dos ventos. Posso sufocar sozinha, e até facilmente me afogar.

Mas quando a pandemia chega e impõe a reclusão, forçosamente sou colocada diante do espelho e reflito sobre os rumos tomados até então. Freia a correria. Os automatismos são detidos. O foco se reajusta. E fica claro que o tempo é meu bem mais precioso. E que muitas horas são gastas com o que não importa de fato. Rejuvenescem as percepções.

Transvaloram-se os valores; a alegria simples, a presença no espaço, o discernimento entre o essencial e o supérfluo. Nesses dias que se seguem, de rotinas circunscritas, navego nas artes e nas ciências do espírito. Atravesso as tempestades circadianas e presencio um arco-íris no horizonte.  Sempre invertendo forças: transformando o vento forte que vem derrubar num empurrão para frente.

Encontro-me entre as árvores: o rizoma. Em conexão com tudo o que existe a minha volta; do micro-organismo do solo aos insetos. Nesse distanciamento existencial, o mal é a lonjura das nascentes que fluem pujantes ainda que pelos ermos. Fui ouvindo o chamado: - "Renova-te/Renasce em ti mesmo". Com olhar sensível, embevecido do novo dia, que tem o seu mal, no amanhecer normal. 

 Mariana Montenegro

agosto/2020

Alegria, alegria

 Para Fabiola C. Folly


Letícia dizia: - Não tenha culpa ou vergonha da Alegria. Ela me falava com um sorriso amável no rosto, mas também com a gravidade na voz de quem aprendeu nas sarjetas. Entre uma latitude e outra, um dia notou que a Alegria se situava num lugar bem longe da sua aldeia austral. Pois esta, professa, fazia Letícia se constranger de seu excesso de Alegria.

Segundo os espíritos tremelicantes, a vida é um inferno, ou quando menos, o purgatório. Sempre atento aos seus pecados de menina, o Deus a vigiava de algum lugar no invisível. Assistindo a tantas injustiças e violências reais, ela se convencia até o constrangimento, da sua loucura de Alegria. Quando sonhava um regalo, a pobrezinha, convencida com o rumor do coro, achava que não fazia por merecer.

Das sarjetas ao mundo, conheceu a diferença entre a Alegria e a felicidade. Esta, episódica,  é dependente das circunstâncias externas. Pendular com a tristeza. Já a Alegria que Letícia descobre é ação afirmativa, fé luzente, uma resposta ao embrutecimento, ao desânimo, à covardia. O melhor dos alimentos para a alma. 

Como se alegra, também se comove em alto grau. De um lado desata lágrimas doces e sorrisos largos, de outro desacata as crenças atávicas que alimentam o sofrimento humano. É alegre por nada. Ou será por tudo? No coração de Letícia a velha flor da esperança vive seu auge, e ela, intrepidamente alegre, assim, rejuvenesce. 

                                                                                                                        Mariana Montenegro

julho/2020

domingo, 23 de agosto de 2020

Trilhas do ser

    

    O autoconhecimento (autognose) é a aventura humana do reencontro com a essência nas trilhas da existência. Essa senda iniciática parte do momentum do reconhecimento da desconexão e da demolição. Quando um acontecimento marcante, um "guardião do limiar", vem mostrar que precisamos nos transformar, se queremos uma vida de bem-aventurança. 

    No início da longa jornada, a peregrina se vê desconectada da Fonte da Vida, da energia vital, da harmonia. Pactuada inconscientemente com a ignorância, o medo e o sofrimento. Quando ainda não aprendeu a lição da demolição; a lição do demo - da fragmentação e da divisão. 

   Mas desconfia que para conhecer a própria luz, precisa antes conhecer a própria sombra. Então mergulha fundo no mundo avernal, vai ter com seus fantasmas e suas sombras. Um arauto aparece dizendo que ela terá que reconstruir seu edifício interior, mas antes, precisa encarar os escombros. 

    Em seguida, tem uma ideia perigosa e maravilhosa: aventurar-se no desconhecido e na incerteza. Sem caminho fácil, numa vacuidade sem fim, tendo o deserto como lar e companhia. Quando então aprenderá a amar o silêncio e o vazio, e a repousar na impermanência de todas as coisas. 

    Finalmente, ao encontrar o verdadeiro Mestre dentro de si, passa a fluir pela vida, com espírito assemelhado aos pássaros e às crianças. Conquista o entendimento de que cada pessoa é um caminho, e que nela subjaz a essência que é seu destino. A única lei para ela é o amor, e o único pecado, o julgamento. De repente, tudo fica mais simples. 

    Revela-se então toda a beleza de um caminho de experiências ricas e variadas, de sabores e regalos, luzes e tons. E de uma existência que pode ser conectada e transparente à essência. Ela se percebe uma porta aberta, passagem e ponte. 

    Sonha com o paraíso na Terra, com a consciência se espraiando pela humanidade. Ama o TAO, o movimento natural, realiza a coincidência dos opostos. Trabalha para a desconstrução dos velhos edifícios humanos, para a tradução perpétua dos arquétipos, e o desvelar do estado de plenitude. 

    Uma vez retomada em si, segue obstinadamente no caminho da integração. Trilha sem cessar, aprendendo a levantar-se das quedas cada vez mais rapidamente. Ama a aprendizagem contínua e o caminho. Aprende a rir de si mesma. Consagra-se eterna aprendiz. 

Mariana Montenegro

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Inocência



A desilusão do amor é a maior ilusão, o amor é a única coisa verdadeira.
O amor é eterno, mas só pode ser vivido no agora.
Conectada ao Amor Divino há amor renovado a cada dia.

A natureza do amor é dar, dar sem se esgotar.
Assim há alimento para a alma
E se perdura o estado de bem-aventurança.

Mas se a crítica entra por uma porta, a bem-aventurança sai pela outra.
Se há julgamento, não há amor.
Se há emocionalismo, não há amor.

O amor depende da abertura de espaço ao outro.
É o imã do Cosmos e sua energia criativa.
Dá-se no entre dois, forma o três.

O amor que é chama e irradia luz
É o maior escudo que se pode contar.
O que dissolve o medo é não me sentir separada dos demais.

A maior distância que se tem a percorrer na vida é entre a cabeça e o coração.
No coração está a sabedoria e o guia misterioso
Que se move por harmonia e sincronicidade.

Para ser amor, é preciso abrir mão de tudo o que não é amor.
Ser a imagem e semelhança do Sol.
No plano da realização - o desabrochar da flor. 

Diante da dor, abrir ainda mais o coração para alargar a alma.
O amor é a cura e o elixir.
Doce fruto de uma árvore de raízes celestes. 

Mariana Montenegro
Agosto/2020

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Pensamentos da quarentena/Pensées de quarantaine


I
No caminho de menor resistência
Congruente
Caminho da alma
Em alinhamento
Retomar-me

II
Não quero soterrar minhas contradições
Quero vivê-las 
Do embate ao entendimento
Conformar um acorde
Encontrando direção 

III
Felicidade
Está numa estabilidade interna
Em não precisar tanto do exterior
Mas contar com recursos internos.
É um caminho
Uma forma de caminhar
Que valoriza pequenas coisas

IV
Cultivar energia
A vibração elevada
Ir contra a corrente 
Da inércia
Da gravidade
Do atrito

V
Ser presença
Só o essencial
Sem conteúdo
Vazio
Vaso

VI
La création
La plus subtile
Est l’effet
De l’intention avec le magnetism.
C’est une form de action 
sans le atrict et la force

VII
Nous sommes
Ce que nous pratiquons

VIII
Avec coeur 
Et consciense
Je trouve la bonne mesure

IX
Yoga 
Est intimité 
Avec l’essence 
De l’être 
Et de la vie

X
Notre corps 
Ne peux pas être un étrange.
Nous besoin de vivre
Dans notre corps
Avec la conscience
Et présence 

XI
La vraie grandeur
Est toujours revélee 
Par la réceptivité
Et la collaboration

XII
Qui ne savoir pas 
sur la vacuité
Ne peux pas être plen

XIII
Je veux être
La porte ouverte
Pour l’espace infinite
Et nous reconnâitre agrandis
Et déplies jusq’à l’essentiel,
Le plus simple,
Que repose doucement 
sur le jardin de l’existence

Mariana Montenegro
julho de 2020

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Vivendo a morte




“A morte não é o apagamento da luz, é o ato de dispensar a lâmpada porque o dia já raiou”.
Tagore


    Diante da morte havia uma fresta para o sagrado da vida. No horizonte vespertino, lá no ocaso da existência, estava o muro intransponível. Minha mãe o encontrou, e a certeza é que eu também o encontrarei um dia, quando chegada àquela curva decesso da estrada.

No crepúsculo, é chegado o momento do pássaro ser liberto do martírio da gaiola, da alma deixar seu endereço físico. Também com lamento deixar esse corpo - lavra de oportunidades tantas! Escola de metamorfoses, território das múltiplas integrações, campo para o alargamento da alma...

Na experiência vivida, a morte me convidou a ir além do visível, e eu, dada, aceitei seu convite. Vislumbrei a saída do Sopro. Escutei os passos dela na estrada. Toda uma existência foi passada num segundo. Dos relatos de uma vida em memórias ao retrato fiel da presença ora eternizada.

Ponto a ponto, costurei o assombro e a graça do instante final da saída da luz. Num autêntico rito da glória do amor, mergulhada em pranto e hasteada em alegria, vivi a morte da minha mãe. Todavia é preciso dar o devido crédito a meu arrebatamento: Amor Divino. Pois que um amuleto sagrado é guardado no coração humano, como um cristal que só faz reluzir.

- Amor alado, milagre para ti, é coisa corriqueira!

Nesse rito, é preparada a barca para a travessia da alma até a outra margem. Hostes angélicas, entes queridos, seres de luz, todos eles a esperam do outro lado. A vida continua na eternidade. Leitmotiv ad eternum. E tudo cabe num coração que se abre, da alma que vem ao mundo se alargar do mundo e mais além.

Pois que o amor é o maior poder, é o que é eterno, é o que cura. Amor que é aceitação plena. Amor-caminho-da-vida, amor-ponte-para-o-infinito. Só o amor não se declina. Diante do qual a morte é tabu superado, a vida eterna é reencontrada.

Essa liturgia é feita da chama que não se pode apagar. Na aparente estação terminal, o invisível se mostra claro como a água, e nos vemos uns aos outros como somos. Aquilo que reúne o instante fatal à eternidade é o único sagrado - o AMOR. Tudo o mais é só passageiro, é poeira, é nada.


Mariana Montenegro
junho de 2020