Eis uma mulher e seu saber. Sobre ela não sei, sobre seu saber diz um tanto. Aquém do tudo, pois tudo não pode dizer. Pela lei dos contrastes argumenta que, enquanto algo está à luz, algo deve estar à sombra. Saber ocultar é tão importante quanto saber revelar. Mas abrindo o jogo, vem evidenciar: - Não sou idêntica a mim mesma.
Tenta se coincidir numa fotografia, no entanto, à revelia, é sempre outra. Pressente no instante antes do clique da máquina a almejada coincidência consigo. Então consegue tomar uma feição aparentada - assim, pressentindo sob telas. Ela conta que tem por Deus o instante, ou no instante, o seu Deus. Por isso, louva a presença, com tudo o que nela está contido.
Labora confabulando intensidades, num jogo, por vezes, perigoso para ela. Mas vai ganhando um tônus para lidar com as asperezas e os excessos todos da vida. Ainda antes de encontrar no instante seu Deus, ela tinha um passado e, nele, o Deus das escrituras lhe era caro, com seus tecidos mortos e entranhas fossilizadas.
Mas soube aprender com tudo, e, com o tempo, muitas histórias foram recontadas. Já até compuseram seu mito pessoal. Histórias que viveram seu ciclo completo: primeiro, aceitas, depois, elaboradas, em seguida, integradas, e, por fim, transcendidas. Desenganada das fotografias, só se vê na feição do instante. Pensando que o próprio instante que não se pode captar seja ela mesma.
Mariana Montenegro
dezembro de 2020

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