O Alquimista Surfista sai de bermuda e pé no chão pisando no asfalto quente até a praia acompanhado do seu amigo cão Fred. Sai aos tropeços, tonto, e em jet lag, depois do voo pelo mundo do fluxo de consciência de "As ondas", de Virginia Woolf. Mas é sujeito experimentado das fossas, que gosta da sensação do fluxo intenso.
Como filósofo da natureza que é, conhece as alturas e as profundidades, e, como surfista, sabe navegar nas perturbações sabendo-as condutoras de energia. Mas é Fred, a voz da razão da dupla, que sabe a hora de voltar à superfície. Sempre invoca com seus latidos o momento certo. Logo que chegam à praia, montam o ponto, de onde observam as vagas e os ventos.
Num ritmado, as ondas quebram nas pedras do Arpoador, que amanhece esmaltado de um azul-lilás. Quando na maloca, faz as diluições arquetípicas da matéria primordial. Inscreve secretas lâminas com formas simbólicas. Em meio aos mistérios pouco traduzíveis, usa a palavra como matéria de alquimia. Como revela:
- Existe a palavra útil, muito direta e estrita, que comunica sem ruídos - a palavra assentada, com raiz. E existe a palavra inutensílio, mais larga e profunda, que adentra regiões abissais e nas alturas toca a matéria dos sonhos - a palavra soprada, alada. Dando uma amostra de alguns de seus contraditórios concomitantes.
No crepúsculo vermelho, os amigos fazem o ritual do tambor para desatar a noite que desce e o novo dia que se seguirá. O Alquimista Surfista transfigura-se no rito do toque do tambor à beira mar. Sente a maresia acariciar sua face bronzeada num gesto de delicadeza feminina. Na contemplação serena das ondas revoltas do mar, experimenta o elixir da obra do dia.
Mariana Montenegro
dezembro de 2020

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