Conheci uma mulher que se apaixonou por um político à imagem grosseira de suas fantasias infantis, de seus sintomas pessoais, por efeito de transferência. Logo se via. A mulher recrudescida a qualquer contrariedade de juízo. Enunciava, sem decoro ou pudor, discursos de autoridade. Enquanto assistia, pensava se ela, para além dos ímpetos espasmódicos, já teria largueado sua verdadeira luta.
É certo que vivia a praguejar o mundo, mas não sabia realmente se ela já teria descoberto seu próprio campo de batalha na vida. Notei que achava que suas atitudes eram realmente suas, totalmente conscientes, e diziam respeito a ela. No entanto, olhando mais detidamente, vi que havia nela uma sombra de dúvida, quando então tive alguma esperança. Segredou se sentir desnorteadamente marionete dos algoritmos.
Sua bolha,
bastante hermética, ruminava sempre as mesmas narrativas, e sempre expressando
a mesma devoção por uns e danação por outros. Sem matizes, só fazendo reforço. Não trazendo nada de novo. E ela foi aos poucos se cansando. O que iria fazer?
Reincidir eternamente nas mesmas manias e obsessões? Decidiu por não quando percebeu algo
importante: sua ocupação de torcedora política tirava-lhe tempo precioso.
Viu o jardim de sua aldeia abandonado, e pensou que ali poderia fazer algo de bom. As plantas estavam murchas carentes do seu olhar. Viu um mutirão de formigas, e lembrou que, para os aborígenes, as formigas sonham. Começou a limpar a terra e a podar as plantas. Ouviu o cantar dos pássaros e o latir dos cachorros da rua. Ficando enriquecida das coisas comezinhas da realidade experimental.
E teve com ela a
ideia de elaborar melhor suas estratégias. Pensando numa luta ao alcance de
suas mãos, de sua vizinhança, de suas bases. Confesso que fiquei bastante
surpreendida com suas novas percepções. Ali mesmo, no jardim. Sonhando com as
formigas. Portentosa desperta do turvamento. Percebendo que, entre o fanatismo - o sim absoluto, e
o niilismo - o não absoluto, há outra via.
Não deixou de
se sentir um animal-político, pois mulher sabe bem que direito algum caiu do céu azul. Pensa fortalecer suas bases, organizada com sua comunidade, para formar uma massa crítica capaz de contagiar o mundo
até o topo da pirâmide. Sabendo minha heroína dos tempos distópicos em que vive. Do reinado da ignorância e da desavença. Ainda assim, e à guisa de não perder a viagem, pleiteia no vento uma nova-velha utopia - das bases.
Mariana Montenegro
outubro de 2020

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