Estava um
homem que meu pai se orgulharia. Rico, incensado, temido. Só que mais
ambicioso. A mim não bastava ser um simples senhor de um pedaço de terra. Tornei-me
dono de jazidas subterrâneas, esgotei consecutivas minas com a atividade
extrativista da mais rentável. Só que nem sempre foi assim. Já tive a voz de
vogal doçura dos poetas. Criança, tinham-me por “bom garoto”.
Diziam que meus
olhos eram de pássaro e eu estava sempre a brincar entre as margaridinhas. O
que causava preocupação em meus pais. A ausência de traço de bruteza era como
um desalinho de conduta. – “Além do que, como vai viver?” Rumorejavam
ressabiados. Quando brincava com as outras crianças, não tentava me sobressair,
queria apenas me integrar. Muito ostentava de sorrir.
- “Precisa virar homem”, diziam. E assim foi. Virei homem. Comecei negociando meu coro, e depois, já empresário, o coro dos demais. Consideravam-me um sujeito de visão. Sentia-me generoso para com os meus, e grande produtor para o mundo. Mas sofria do peito angustiado, da mente enevoada. Tomando remédio pra dormir, remédio pra acordar...
Nos domínios
do demasiado, sentia-me o próprio arquiteto das ruínas. Nessas horas, pensava
em largar esse trabalho, parar imediatamente a extração, deixando de fazer
crescer o mundo das ruínas. Mas muitos me achariam um louco. Ou idiota. Tinha
medo do que iriam pensar. Medo de perder tudo. Medo de ficar sozinho. Assim era
por medo guiado. Porque no fundo da minha consciência, sem que ninguém o
soubesse, eu me consumia.
Mas acontece é
que eu não posso ser bom. Admitir o quanto me compadeço da dor desta terra e de
seus povos seria motivo de zombaria. Não seria nem mais reconhecido. De insigne
à insignificante. Viraria outro. Quando tomado por essa força moral, sinto-me
profundamente envergonhado, um verme. Essa força se move com a compaixão dentro
de mim. Mas isso acontece na antecâmara, em segredo.
Tornando-me
outro viveria a graça inestimável de ser nada. Como aquelas pedras preciosas
que apenas deixam a luz passar. Sempre sonho com uma mulher e um xamã, no
interior de uma câmara. Eles celebrando algo, e eu, do lado de fora. Quando
acordo, imagino um ser humano melhor; que eu poderia ser melhor. Ser parte também da terra. Confesso: é o tormento da minha consciência que escapa à falsificação. ME REVELA.
Mariana Montenegro
outubro de 2020

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