sábado, 19 de setembro de 2020

O mal é amanhecer normal

 

Outono no Quebec/Canada

Seduz-me um perfume trazido pelo vento, que também carrega sementes que brotam nas floreiras. A rua me chega sem os barulhos do tráfego. Sou invadida pelo silêncio mágico da montanha. Os raios de sol acordam minhas células. Contemplo uma luminescência suave. Respiro profundamente. Percebo que cada dia é um dia a menos e há ameaças. 

Em 2020, o cerco da morte me lembra de que estar viva é uma dádiva. Agradeço e vivo – Carpe diem! - como se não houvesse amanhã! Nessa situação (e mesmo em outras), dia algum me é colorido de antemão. O estado interior pode mudar qualquer configuração natural. Das cores do céu até a direção dos ventos. Posso sufocar sozinha, e até facilmente me afogar.

Mas quando a pandemia chega e impõe a reclusão, forçosamente sou colocada diante do espelho e reflito sobre os rumos tomados até então. Freia a correria. Os automatismos são detidos. O foco se reajusta. E fica claro que o tempo é meu bem mais precioso. E que muitas horas são gastas com o que não importa de fato. Rejuvenescem as percepções.

Transvaloram-se os valores; a alegria simples, a presença no espaço, o discernimento entre o essencial e o supérfluo. Nesses dias que se seguem, de rotinas circunscritas, navego nas artes e nas ciências do espírito. Atravesso as tempestades circadianas e presencio um arco-íris no horizonte.  Sempre invertendo forças: transformando o vento forte que vem derrubar num empurrão para frente.

Encontro-me entre as árvores: o rizoma. Em conexão com tudo o que existe a minha volta; do micro-organismo do solo aos insetos. Nesse distanciamento existencial, o mal é a lonjura das nascentes que fluem pujantes ainda que pelos ermos. Fui ouvindo o chamado: - "Renova-te/Renasce em ti mesmo". Com olhar sensível, embevecido do novo dia, que tem o seu mal, no amanhecer normal. 

 Mariana Montenegro

agosto/2020

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