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| Outono no Quebec/Canada |
Seduz-me um perfume trazido pelo vento, que também carrega sementes que brotam nas floreiras. A rua me chega sem os barulhos do tráfego. Sou invadida pelo silêncio mágico da montanha. Os raios de sol acordam minhas células. Contemplo uma luminescência suave. Respiro profundamente. Percebo que cada dia é um dia a menos e há ameaças.
Em 2020, o cerco da morte me lembra de que estar viva é uma dádiva. Agradeço e vivo – Carpe diem! - como se não houvesse amanhã! Nessa situação (e mesmo em outras), dia algum me é colorido de antemão. O estado interior pode mudar qualquer configuração natural. Das cores do céu até a direção dos ventos. Posso sufocar sozinha, e até facilmente me afogar.
Mas
quando a pandemia chega e impõe a reclusão, forçosamente sou colocada diante do
espelho e reflito sobre os rumos tomados até então. Freia a correria. Os automatismos
são detidos. O foco se reajusta. E fica claro que o tempo é meu bem mais
precioso. E que muitas horas são gastas com o que não importa de fato.
Rejuvenescem as percepções.
Transvaloram-se os valores; a alegria simples, a presença no espaço, o discernimento entre o essencial e o supérfluo. Nesses dias que se seguem, de
rotinas circunscritas, navego nas artes e nas ciências do espírito. Atravesso as
tempestades circadianas e presencio um arco-íris no horizonte. Sempre invertendo forças: transformando o vento forte que vem derrubar num
empurrão para frente.
Encontro-me entre as árvores: o rizoma. Em conexão com tudo o que existe a minha volta; do
micro-organismo do solo aos insetos. Nesse distanciamento existencial, o mal é a
lonjura das nascentes que fluem pujantes ainda que pelos ermos. Fui ouvindo o chamado: - "Renova-te/Renasce em ti mesmo". Com olhar sensível, embevecido do
novo dia, que tem o seu mal, no amanhecer normal.

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