Para Fabiola C. Folly
Letícia
dizia: - Não tenha culpa ou vergonha da Alegria. Ela me falava com um sorriso
amável no rosto, mas também com a gravidade na voz de quem aprendeu nas
sarjetas. Entre uma latitude e outra, um dia notou que a Alegria se situava num lugar bem longe da sua aldeia
austral. Pois esta, professa, fazia Letícia se constranger de seu excesso de Alegria.
Segundo os espíritos tremelicantes, a vida é um inferno, ou quando menos, o purgatório.
Sempre atento aos seus pecados de menina, o Deus a vigiava de algum lugar no
invisível. Assistindo a tantas injustiças e violências reais, ela
se convencia até o constrangimento, da sua loucura de Alegria. Quando sonhava um
regalo, a pobrezinha, convencida com o rumor do coro, achava que não fazia por
merecer.
Das sarjetas ao mundo, conheceu a diferença entre a Alegria e a felicidade. Esta, episódica, é dependente das circunstâncias externas. Pendular com a tristeza. Já a Alegria que Letícia descobre é ação afirmativa, fé luzente, uma resposta ao embrutecimento, ao desânimo, à covardia. O melhor dos alimentos para a alma.
Como se alegra, também se comove em alto grau. De um lado desata lágrimas doces e sorrisos largos, de outro desacata as crenças atávicas que alimentam o sofrimento humano. É alegre por nada. Ou será por tudo? No coração de Letícia a velha flor da esperança vive seu auge, e ela, intrepidamente alegre, assim, rejuvenesce.
Mariana Montenegro
julho/2020

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