terça-feira, 29 de setembro de 2020

Pensamentos da quarentena 2





I

Aprender

A ser melhor

Para o outro.

Desenvolver o caráter

Da alma

E sê-lo.


II

A vida tem uma cronologia.

Podemos contar histórias sucessivas.

Mas quando a gente entra no caminho,

O tempo deixa de ser linear,

Fica tudo simultâneo,

Circular.


III

Sou adepta da filosofia do bocó, que tem como axioma:

O conhecimento é complexo, mas o trato deve ser simples.

Como se diz: - Diante de um ser humano, ser apenas outro ser humano.

Até nossas ilusões precisam ser muito bem respeitadas,

Pois algumas sustentam um edifício inteiro.

Por isso, saber a hora de retirar o véu, com esmerado cuidado.


IV

O tempo é meu bem mais precioso.

Como o viverei a cada momento é uma incógnita.

Com que temperatura? Mais viva ou menos viva?

Escolho ouvir meu pulso cardíaco profundo.

Dedicar meu tempo aos afetos e ao conhecimento.

Naturalizar-me.

Com-templo o instante.


V

O que considero básico:

Peito leve feito pluma.

Eixo firme e flexível.

Hara.

Respiração.


VI

No deserto as mãos escrevem no vento e os passos são marcados na areia.

Calma e reflexão são atividades típicas do deserto.

Não-pensar e pensar com o hara também.

Lá é sabido que ninguém busca reconhecimento.

Vive-se apenas, com a humildade natural de um animal ou de uma planta.

Lá só há direção, estrela-guia e caminhante.

...No deserto é onde se encontram as fontes da vida...


VII

Que se preze e não se confunda:

A unidade é não-idêntica.


VIII

Existe a palavra útil, muito direta e estrita.

Comunica sem ruídos.

É palavra assentada,

Com raiz.

Mas tem também a palavra inutensílio, mais larga e profunda.

Aquela que adentra regiões abissais,

E nas alturas toca a matéria dos sonhos.

É a palavra soprada,

Alada. 


IX

Do verso paralelo à integração universal


Atravessando os fantasmas na noite escura da alma,

Em mundos paralelos, versos e fragmentos.

Em dogmas, catacreses e cisões.

Até a reviravolta heroica,

O novo nascimento,

O retorno.


O amor por tudo o que existe.

A alegria sem causa ou condição.

A dignidade na dor.

O verso e o uno

- O universo.

 Num abraço,

Num amálgama,

Reunida e compartilhada.


Ser mineral, vegetal, animal, homem, mulher e anjo.

Por montanhas, labirintos, rios e desertos.

Em muitos movimentos possíveis,

Um sem número de caminhos escarpados,

E todos levando à integração.


Mariana Montenegro

setembro/2020


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