I
Aprender
A ser melhor
Para o outro.
Desenvolver o caráter
Da alma
E sê-lo.
II
A vida tem uma cronologia.
Podemos contar histórias sucessivas.
Mas quando a gente entra no caminho,
O tempo deixa de ser linear,
Fica tudo simultâneo,
Circular.
III
Sou adepta da filosofia do bocó, que tem como axioma:
O conhecimento é complexo, mas o trato
deve ser simples.
Como se diz: - Diante de um ser humano, ser
apenas outro ser humano.
Até nossas ilusões precisam ser muito bem
respeitadas,
Pois algumas sustentam um edifício
inteiro.
Por isso, saber a hora de retirar o véu, com esmerado cuidado.
IV
O tempo é meu bem mais precioso.
Como o viverei a cada momento é uma
incógnita.
Com que temperatura? Mais viva ou menos
viva?
Escolho ouvir meu pulso cardíaco
profundo.
Dedicar meu tempo aos afetos e ao
conhecimento.
Naturalizar-me.
Com-templo o instante.
V
O que considero básico:
Peito leve feito pluma.
Eixo firme e flexível.
Hara.
Respiração.
VI
No deserto as mãos escrevem no vento e os passos são marcados na areia.
Calma e reflexão são atividades típicas
do deserto.
Não-pensar e pensar com o hara também.
Lá é sabido que ninguém busca
reconhecimento.
Vive-se apenas, com a humildade natural
de um animal ou de uma planta.
Lá só há direção, estrela-guia e
caminhante.
...No deserto é onde se encontram as
fontes da vida...
VII
Que se preze e não se confunda:
A unidade é não-idêntica.
VIII
Existe a palavra útil, muito direta e estrita.
Comunica sem ruídos.
É palavra assentada,
Com raiz.
Mas tem também a palavra inutensílio,
mais larga e profunda.
Aquela que adentra regiões abissais,
E nas alturas toca a matéria dos sonhos.
É a palavra soprada,
Alada.
IX
Do verso paralelo à integração universal
Atravessando os fantasmas na noite escura da alma,
Em mundos paralelos, versos e fragmentos.
Em dogmas, catacreses e cisões.
Até a reviravolta heroica,
O novo nascimento,
O retorno.
O amor por tudo o que existe.
A alegria sem causa ou condição.
A dignidade na dor.
O verso e o uno
- O universo.
Num abraço,
Num amálgama,
Reunida e compartilhada.
Ser mineral, vegetal, animal, homem, mulher e anjo.
Por montanhas, labirintos, rios e desertos.
Em muitos movimentos possíveis,
Um sem número de caminhos escarpados,
E todos levando à integração.
Mariana Montenegro
setembro/2020

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