I
Ensimesmada em uma inquietação aérea,
Num estado alheio de sonolência,
Fito com o olhar volatilizado
Um inseto batendo na lâmpada.
Sinto o cheiro de madeira fumegante.
Vagueio desatinada a perguntar:
-Por onde andas, minha alma?
II
Perdida e ferida sentia todo o peso,
O cansaço, a dor da existência fadada.
Mergulhada em inconformidades,
Em um momento fraturado de crise aguda.
Com as vísceras da existência expostas,
Sofrendo de perplexidade me perguntava:
- O que me salvará do afogamento e me
ensinará a navegar?
III
Na ausência de botes,
Vivia numa montanha-russa
Fazendo curvas demasiadamente
acentuadas.
Afogava-me facilmente em mim mesma.
Sem fio de prumo,
Norte
Ou estrela-guia.
IV
Identificada com a vestimenta e sem contato
com a própria pele
Encontrava-me sem saída nos trilhos do
conhecido.
Enfrentei a noite escura da alma, catando
os cacos dos dilaceramentos,
Nas divisas da desintegração humana.
Rompendo com o script fui mudando aos
poucos meu próprio contorno.
V
Era noite de lua cheia.
As pupilas em chamas contemplavam os
raios assombrados,
Nos cumes de uma emoção devastadora.
Vitimada por minha própria sensibilidade,
Com a alma ressequida,
Sorvi o breu
E o beco sem saída.
VI
O orvalho encharca minha pele até o frio
dos ossos.
De súbito, percebo-me em baixa, entristecida.
Quando tudo é tão somente memória-ranço,
Imperfeição do tempo.
VII
De tão dura e impenetrável
Luz não me permeava.
Procurei a porta,
Saí porosa.
VIII
Não se comandam as forças dos ventos.
E como conspirar - respirar com o Sopro - não é lá muito normal,
Vive-se é muito à deriva, à mercê dos furacões.
IX
É um risco atravessar o rio.
Pode se perder o fôlego no meio do caminho.
Há ainda o risco de parar,
O risco de olhar para trás.
Mas, dos riscos, o maior, é não partir.
E aí sim, naufragar.
Mariana Montenegro
setembro/2020

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