Mas se deixando permear, apaixonou-se pelas mercadorias e recebeu o nome de Branca. Trabalhando incansavelmente
pelas mercadorias e morrendo por elas, como todos desse povo. Também é hipnotizada
pelas telas e adquire todas que pode com seus recursos. Só contempla as imagens das telas. Perde a capacidade de imaginar e de ter visões próprias.
Esquece as histórias do povo originário de onde vem, tentando aprender essas novas histórias feitas de pensamentos curtos.
Mas a cada dia
se sentia mais falsa e mais triste consigo. De todas as maneiras tentou se
resignar ao destino que lhe foi imposto. Até o dia em que uma névoa pestilenta a
toma por inteiro, levando embora seus últimos alentos de esperança. Inundada numa
má-água, Branca pensa em abreviar sua vida cometendo suicídio. Chegando ao
ponto de não suportar mais a dor, com a perda da sua alma e de tamanha falta de
sentido no mundo.
Quando então ela
decide ir ao encontro do último pajé da sua tribo, que vivia nos restos da floresta,
à beira de um rio lamacento. Viaja até lá e, chegando, confessa ao pajé os
pensamentos da sua mente adoecida. Depois de ouvir atentamente, ele oferece a
ela a medicina da floresta. Prepara um chá do cipó e da folha de uma árvore
sagrada. Ainda criança ela via os maiores tomando e sentia medo, mas nesse
momento já não sentia nada, e então, simplesmente tomou.
Seu pensamento se expande em todas as
direções e a índia começa a ver a terra como seu povo a via: uma terra viva que
tem coração e que respira. Seu sentimento se aprofunda e ela percebe a presença
de uma criança habitante da floresta, que a chama e conduz até o pé de uma
grande montanha. Chegando lá, começam a aparecer inúmeros espíritos da floresta, que rodopiam em torno dela numa dança, rindo sem parar.
Os espíritos
da floresta roubam sua imagem falsa, e mostram a queda do céu dessa
civilização. Primeiro tiram a máscara do semblante de mentira, deixando seu
rosto vazio como o rosto de um fantasma. Depois da algazarra, os espíritos
mostram a ela uma cena, em que o povo da mercadoria aparece desabando do alto de
uma enorme edificação. Na queda ela ouve gritos, tudo fica coberto de fumaça, formam-se pilhas de
cadáveres de onde saem almas despedaçadas sem rosto.
Essas almas em desespero ainda tentam comer a terra. Até o último momento querem devorar tudo o que
podem. Quando então o chão começa a se abrir, muitos são sugados e
desaparecem. A cena apavora e ela pede ajuda aos espíritos da floresta. Depois que
aquelas imagens somem, a índia se vê em outro lugar, bastante diferente, onde pode sentir o ar despoluído
até o pensamento.
Surgem seres vindos
do Sol, de corpo translúcido e uma beleza sem igual. Os pés desses seres não
pisam nesta terra, apenas pairam, com elegância e leveza. Sentindo o perfume que
vinha deles a índia é inebriada de pureza. Finalmente, quando lançam um olhar
sobre ela, o olhar é um olhar sem suspeitas. São espelhos de luz, em que um
simples mirar é capaz de devolver a inteireza. Os seres revelam que vêm repovoar a terra,
trazendo de volta os povos originários, com toda a justiça e a glória.
Branca vê
todas essas imagens e, ao fim, diante do pajé, diz que não irá mais causar
nenhum mal a si mesma. Nunca mais. E voltando ao mundo do povo da mercadoria, já
é outra. Não sente prazer com as imagens que vê lá, mas tampouco sofre delas mais.
Recuperou sua imagem verdadeira e tem agora suas próprias visões. A criança
continuou com ela, e também os espíritos das águas e dos peixes, que diziam: É contra a correnteza mesmo que, um dia, nós e a terra se alumiará!
Mariana Montenegro
outubro/2020

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