quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Entre o povo da mercadoria e o povo da terra: o conto da índia Branca

     


         Apagada a luz da casa, ergue os olhos ao céu à procura de uma estrela. A casa acesa causava tristeza, deixando a tudo ver. Sentia saudade de um cenário outro. Eram os olhos de uma mulher indígena, que não estava mais bem consciente de si, desde que foi viver entre o povo da mercadoria. Ela era uma das últimas remanescentes de uma nação da Amazônia Real, que fora exterminada pela ganância, pela violência e pelas epidemias.

Mas se deixando permear, apaixonou-se pelas mercadorias e recebeu o nome de Branca. Trabalhando incansavelmente pelas mercadorias e morrendo por elas, como todos desse povo. Também é hipnotizada pelas telas e adquire todas que pode com seus recursos. Só contempla as imagens das telas. Perde a capacidade de imaginar e de ter visões próprias. Esquece as histórias do povo originário de onde vem, tentando aprender essas novas histórias feitas de pensamentos curtos. 

Mas a cada dia se sentia mais falsa e mais triste consigo. De todas as maneiras tentou se resignar ao destino que lhe foi imposto. Até o dia em que uma névoa pestilenta a toma por inteiro, levando embora seus últimos alentos de esperança. Inundada numa má-água, Branca pensa em abreviar sua vida cometendo suicídio. Chegando ao ponto de não suportar mais a dor, com a perda da sua alma e de tamanha falta de sentido no mundo.  

Quando então ela decide ir ao encontro do último pajé da sua tribo, que vivia nos restos da floresta, à beira de um rio lamacento. Viaja até lá e, chegando, confessa ao pajé os pensamentos da sua mente adoecida. Depois de ouvir atentamente, ele oferece a ela a medicina da floresta. Prepara um chá do cipó e da folha de uma árvore sagrada. Ainda criança ela via os maiores tomando e sentia medo, mas nesse momento já não sentia nada, e então, simplesmente tomou.  

 Seu pensamento se expande em todas as direções e a índia começa a ver a terra como seu povo a via: uma terra viva que tem coração e que respira. Seu sentimento se aprofunda e ela percebe a presença de uma criança habitante da floresta, que a chama e conduz até o pé de uma grande montanha. Chegando lá, começam a aparecer inúmeros espíritos da floresta, que rodopiam em torno dela numa dança, rindo sem parar.

Os espíritos da floresta roubam sua imagem falsa, e mostram a queda do céu dessa civilização. Primeiro tiram a máscara do semblante de mentira, deixando seu rosto vazio como o rosto de um fantasma. Depois da algazarra, os espíritos mostram a ela uma cena, em que o povo da mercadoria aparece desabando do alto de uma enorme edificação. Na queda ela ouve gritos, tudo fica coberto de fumaça, formam-se pilhas de cadáveres de onde saem almas despedaçadas sem rosto.

Essas almas em desespero ainda tentam comer a terra. Até o último momento querem devorar tudo o que podem. Quando então o chão começa a se abrir, muitos são sugados e desaparecem. A cena apavora e ela pede ajuda aos espíritos da floresta. Depois que aquelas imagens somem, a índia se vê em outro lugar, bastante diferente, onde pode sentir o ar despoluído até o pensamento.  

Surgem seres vindos do Sol, de corpo translúcido e uma beleza sem igual. Os pés desses seres não pisam nesta terra, apenas pairam, com elegância e leveza. Sentindo o perfume que vinha deles a índia é inebriada de pureza. Finalmente, quando lançam um olhar sobre ela, o olhar é um olhar sem suspeitas. São espelhos de luz, em que um simples mirar é capaz de devolver a inteireza. Os seres revelam que vêm repovoar a terra, trazendo de volta os povos originários, com toda a justiça e a glória.  

Branca vê todas essas imagens e, ao fim, diante do pajé, diz que não irá mais causar nenhum mal a si mesma. Nunca mais. E voltando ao mundo do povo da mercadoria, já é outra. Não sente prazer com as imagens que vê lá, mas tampouco sofre delas mais. Recuperou sua imagem verdadeira e tem agora suas próprias visões. A criança continuou com ela, e também os espíritos das águas e dos peixes, que diziam: É contra a correnteza mesmo que, um dia, nós e a terra se alumiará!  

Mariana Montenegro

outubro/2020

 

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