segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Auto-crítica geracional

No mesmo mundo de Dostoievski, um antípoda tergiversa entre idiotas engazopados e niilistas. De face rubra e expressão sorumbática, pensa nestes últimos nobilíssimos, que reduziram tudo a tão nada e qualquer coisa. Do fel das obras niilistas, por uma réstia de luz, o antípoda persiste dizendo que tudo serve à alma disposta a aprender. Seja com o subsolo de Fiódor ou das janelas de 2020. 

Para este antípoda secular, aprender é criar formas. Numa dinâmica que se atualiza perenemente. No entanto, sem reproduzir a fórmula niilista de dissolver as formas estruturantes e lapidares. Mas, ao contrário, sempre as rejuvenescendo. Tal é sua própria maneira de viver a paisagem na falta da beleza.

Mas o assunto em questão que vem falar é a certeza. Súbito o antípoda mira a certeza como posta sobre as águas. Ei-la feita a imagem de uma tábua de salvação. Tendo ainda a visão clara, apesar do caos trevoso dos tempos, põe-se a questão: - O que é a vida? E levantando-se num salto dirá: - É torrente! É fluxo! Não é certeza! 

Mas diga-se: é certeza logo que se agarra a algo, porque sem esperança no fluxo. Ao inverso do viver impreciso, feito ato criativo. Como quem sabe que não pode repisar ou entrar duas vezes no mesmo rio. Como alguém outro, o idiota atualizado, pós-niilista, a fazer seu paraquedas colorido, sonhando ainda voar com alguma graça.  


Mariana Montenegro

novembro de 2020




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