Vida, eis que
abro meus olhos para ti. Antes, meu peito, descampado, reclinara-se assim, macerado.
Sem ti, só sentia arrepios frios na pele e assombros n’alma. Tu que estavas
aqui, mas eu não. Tu que estavas em mim, mas eu, deletéria. Outrora deixaste
rastro, e por dentre uma relva rugosa, resvalando em espinhos, ouvi teus burburinhos: - Dou-me gratuitamente a ti, por que me negas?
Acontece quando minha sombra vaga desencontrada de mim (preciso mantê-la sempre por perto). Se perco a capacidade de ouvir o menor ramo estalar. Em todas as posições cerradas que entristecem. Ao menos, sei. Assumo o erro ao ponto da tragédia. Desmonto os disfarces. Ai de mim e das minhas quimeras. Mas há a hora fatal, em que me rendo, e essa é minha virtude. Não
raro, termino demovida da torpeza até a metamorfose.
Então me inclino
diante de ti, Vida. Já esgotada das fugas em vão. Ferida das máculas
condoídas. Tantos caminhos
escarpados sobre a relva ou sob o firmamento cravavam. Mas à guisa da flor do querer peço que me
convide a tua presença. Não fugirei em nenhuma hipótese. Mesmo no eclipse da
razão do mundo ou em meio às peripécias dos ciclos minguantes.
Pois que tu és
pacote completo: magma, ebulição, contágio. Quero sentir teu cheiro doce e acre, tua presença feérica e também a mais simples. Afirmo-te enfim e em mim. Fronteira
alargada sou eu! Tu, embebida em amor, és o ar renovado das manhãs. Todo o
brilho e o fulgor da aspiração. E o mais alentado de tudo, Vida, é que tu és meu dom de existir, e eu, teu regalo, teu oco, em que podes transbordar.
Mariana
Montenegro
junho de 2020

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