segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Nostalgia do tempo


"Com ordem e com tempo, tudo se faz, e se faz bem", dizia Pitágoras. 

Chico: "Não se afobe não, que nada é pra já". 

"Tempo, tempo, tempo, tempo", na amorosa melodia de Caetano. 

Para citar algumas considerações com respeito. 

Até que superado o tempo pelo instantâneo. 

Hoje, rouba-se dele tanto, até no amor se rouba do tempo; do encontro ao botão no app. 

Ou em narrativa de "story" - o efêmero em carrossel alucinante.

Muita informação e pouco conhecimento. 

Opção pelo "caminho curto e longo", ao "caminho longo e curto". 

Estações, marcas, construções, na contramão.

Que deslocados e definitivamente:

Não são desse tempo sem tempo.


Mariana Montenegro

dezembro de 2021



Ode à luz



Se a meta é cristalina,

todas as faces precisam ser iluminadas.

A direção mais exata da estrela. 


Iluminação com condição,

mas só de abertura.

E o necessário polimento diário.


Gratuita é a luz, 

mas nós que retiramos os obstáculos 

que criamos a ela. 


Como um cristal sem opacos,

de luz transpassada,

em transparescência. 


E aparecem aos olhos:

hostes xapiris e estelares distantes. 

Tudo o que não pode ser visto.



Mariana Montenegro

dezembro de 2021



quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Não olho story


Só passa.

Mal se vê.

Tão pouco.

Tão rápido. 

Quero reparar.

Olhar e ver.

A iluminação do tempo.


Mariana Montenegro

dezembro de 2021



quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Sensível


Dilacerações no peito.

Batidas de cabeça.

Reunindo cacos. 

Somando renascimentos.


Nisso, oito horas por dia, pelo menos, desaprendendo. 

Mil véus descortinando.

Até o oco.

A entrada da luz.


De embrutecimento não sofre. 

Autêntica pessoa.

Que aplaina pedreira.

E acha nela rosas. 


Mariana Montenegro

dezembro de 2021

domingo, 12 de dezembro de 2021

Da dificuldade da crítica


Causa-me espanto uma entrevista de Antônio Candido (considerado entre os maiores críticos literários brasileiros). Na entrevista, ele diz que corria perigo fazendo críticas diárias no jornal. E que deu sorte de avaliar bem Guimarães Rosa e Clarice Lispector na primeira leitura, ainda sem os conhecer. Antônio Cândido, com toda a sua erudição, discernimento e penetração. Antônio Cândido, um observador fidedigno, conhecedor daquele universo. Tinha noção do perigo da crítica, da precariedade, da chance de se equivocar. Fico pensando o que ele acharia da facilidade das críticas instantâneas disseminadas hoje. E imagino que ele não teria nada para achar.  

dezembro de 2021

sábado, 11 de dezembro de 2021

Superfície perfeita

 

Não desvio mais de você por não me ver.

Por ver em mim o seu avesso.

Fique à vontade.

Até me ofereço uma tela.

Projete suas sombras em mim.

Sou a superfície perfeita. 

Serei assim agora para você.

Mas não pense isto:

que fiquei promíscua.

Simplesmente, desencanei.

De posse de mim,

não tomo mais pessoal.

Quem sabe um dia até me verá em você.

Para além das suas próprias ilusões.


Mariana Montenegro

dezembro de 2021

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Seres

Camadas de ser.

Superficial. 

Profundo.

Que mergulha, sobrevoa, boia.

Reflete ou experiencia.

Vai variando.


Ego é ser.

Alma é ser.

Não-ser é um outro ser.

Tudo é ser.

Que sendo é.

Não rejeite partes e integre só pra ver.


Mariana Montenegro

dezembro de 2021


Pensamentos e aforismos da quarentena

Todo dia procuro meu coração e um novo ponto de equilíbrio.

Vivo sem pautas, atenta aos sinais.

Bem viva morro em cada ação.

Base na presença, não na identidade.

Quem não é também o outro é menos do que poderia ser.

Todo o inconsciente que eu puder abarcar na direção da minha constelação.

As pessoas ruminam o que deveria ser abstraído e abstraem o que deveria ser valorizado.

Na revelação a reminiscência se atualiza.

Melhor se lê verticalmente.

Depois de coincidirem os opostos se transcendem.

Não existe um estado permanente, mas um estado fluente.

O futuro vem antes, o passado é a substância do tempo, o presente a vida eterna.

A taça só derrama o conteúdo que contém.

Só o mundo transfigurado é possível.

O pensamento e a emoção têm prazo de validade, não devem se instalar, mas passar mantendo a circulação, a fluidez das ondas de vida.

Unida ao que acontece agora, e às pessoas como são agora, não há medo.

Se a pessoa não aprendeu a ser feliz no processo não será no resultado.

O senso comum ensina a olhar o mundo em termos de bem ou mal. O senso outro é olhar se ‘estou integrando’ ou se “estou dividindo/excluindo”.

A imagem translúcida da alma é de uma centelha sempre nascente e ardente.

Mariana Montenegro
2020-2021

Coerência x congruência

“Me contradigo porque sou vasto”, dizia Pessoa.

Que uma pessoa plena não é coerente,

apresenta diferentes facetas,

muda sempre,

para sempre ser ela mesma.
Outra coisa é a congruência.

O alinhamento entre o que se faz, o que se pensa e o que se sente.

Sem divisão interna.

Tocando as diferentes notas do momento presente.

Em conciliação.
Mariana Montenegro
dezembro de 2021

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Ser do processo, ser da trilha


- "Você já viu um rio?"

- "Sim"

-"Para ver um rio você tem que ver da nascente ao logradouro".

- "Então, de fato, não".

-"E você já viu um ser humano?"

(o diálogo eu escutei na Unipaz)

MM

sábado, 13 de novembro de 2021

Tolerância x Apreciação


Tolerância é um dever.
Da escola primária:
-"Tem que respeitar o coleguinha".
Depois de internalizado o dever,
sem que se precisasse obrigar mais,
a tolerância deveria cair em desuso.
Os adultos transformariam-na em apreciação.
Como bons perscrutadores de virtudes, ossos e almas.
Com olhos de outra-se.
Tolerar é uma posição de superioridade.
- Quem sou eu para tolerar alguém?
Tolerância é básico; é civilidade.
De Clarice Niskier em Clarice Lispector:
"E se me achar esquisita, respeite também.
Até eu fui obrigada a me respeitar".
Mas, quando ao invés de tolerar aprendo a apreciar,
além de desmoralizar o monstro,
aí eu começo a ser feliz.
MM

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Valorando...

 Valorando...

o tamanho do problema.

o peso da palavra.

o lugar certo.

o devido valor.

o sentido das coisas.


Transvalorando...

importa pouco.

suavidade.

agora.

frequências.

dentro da harmonia.


MM 11/11

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Elogio do jogo


A arena do bicho homem. 

O caos ao encontro dos canais. 

A arte organizadora da sociedade. 


Intensidades musculares.

Nervos à prova.

Oxigenação.


É brincadeira a sério.

Corpo animado. 

Flow.



Mariana Montenegro

outubro de 2021


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Unda tellus sidera

 A alma presa, por milênios isolada, no cativeiro da Terra. 

 Igrejas, grupos sectários e clãs. 

Fronteiras cercadas e armadas contra qualquer contato. 

Demonizado o outro, reduzido o eu. 

Violada a liberdade sagrada por amor ao poder. 

Acorrentados os inocentes. 

O brado às supremacias. 

A defesa das crenças limitantes. 

A manipulação.

Os sentidos roubados. 

Numa Terra isolada do universo. 

Desencantadas as almas. 

Crucificado. 

Queimadas nas fogueiras. 

Postos à margem. 

Até o limite. 

A retirada. 

A reviravolta. 

Desperta a consciência. 

Devolvida a liberdade. 

O verso ao uno. 

Pluriverso. 

Então partícipes. 

Reintegrados. 

À porta do cosmos.

O caminho sideral. 

A metamorfose, as asas. 

A nave terra, nave corpo. 

Voando no espaço ilimitado. 

Reingressa. 

O amor universal. 

A luz caminha na terra. 

A Terra reencontra o Céu. 


Mariana Montenegro

outubro de 2021

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

O bohème iluminado


Das alturas do arrebatamento

é tudo poesia

vibrando em cenários e trovas.


Servido da graça

não desperdiça. 

Retém apenas o bem. 


Sujeito livre no eixo. 

Um rosto limpo - só o sorriso salta. 

Diferença lograda; indivizível mutante. 


Sonhando com os pés no chão

aprende a dança.

Aberto o cofre de sândalos da inspiração.


Nas veias, da água ao vinho,

a sua alegria de viver,

assim na terra como no céu.


Mariana Montenegro

outubro de 2021




quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Autonomia do pensamento



 

“Assim era no princípio, metáfora pura suspensa no ar”

 Luiz Tatit

Um raio de pensamento me atinge.

Do tipo bom que acende uma ideia.

Quero dar direção.

 

Miríades de referências na memória. 

Busco me aproximar do objeto.

Gostaria de paramentar com bocados de vanguardismo primitivo.

 

Percorro minifúndios culturais atrás.

Roubo do tempo para a eternidade.

Procuro sujeitos entre os escombros das coisas.

 

Tecidos mortos de crenças

não fazem uma luz que caminha. 

Muito menos que voa.

 

O pensamento inaugura visões e se vai.

Tem um caminho autônomo.

Eu dou passagem.

 

Mariana Montenegro

outubro de 2021

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Vers la Source


Jacline Lussier


 "Viver não é esperar a tempestade passar...É aprender como dançar na chuva".(autor desconhecido)

Ao tocar o livro "Vers la Source", uma sensação de pureza e de bondade me percorreu. Foi meu primeiro contato com a biografia de Jacline Lussier, irmã do Guy Lussier, canadense de Montréal, que eu viria a colaborar com a tradução, junto com a Liz Eliodoraz e com a Manoela Rachel. O livro conta a história de uma missionária, e trago algumas passagens que me tocam, como o seu amor pelo Burundi, na Africa, onde ela esteve por 10 anos. 🕊🌻
"Eu, minha estabilidade,
está em minha fidelidade à mudança".
"Poucas palavras...
os gestos que contavam, que ensinavam".
"A vida se expressa sem restrições,
ela vibra com tudo".
"Não banalizem seus sonhos (...)
Eles são um segundo sopro de Vida".
"Ó Burundi, estás bem apegado a meu coração!
Amei-te e ainda te amo para sempre.
Tua terra vermelha, terra de fogo,
não tem nada igual ao fogo que habita em mim.
Como eu te desejei,
como te reconheci quando pousei meus pés em ti.
Teria gostado de me ajoelhar e beijar essa terra
que me chamava desde tanto tempo.
Que maravilha! Enfim, o meu sonho foi realizado".
"Quando encontrar um cruzamento,
escute no interior de ti, então você saberá,
sem hesitação, com a certeza em seu coração,
qual é a direção para cumprir seu destino".
"Coração aberto, coração acolhedor:
porta do Encontro".
_______________________
Do livro Vers la Source, Chemins de Vie
Jacline Lussier
Editions Magali
2014

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Grã-mestra amada

 


-A alma é coisa singular, dizia o Spinoza. 

Cada alma é diferente da outra. 

Porque o ser é um só. 

Tá no ar. 

Todo mundo respira o mesmo ar. 

Esse ar une todo mundo. 

Esse ar é pura consciência. 

A prova é que se você perde o ar, você perde a consciência. 

Esse ar traz nele também uma energia criadora desde o início dos tempos. 

Essa energia criadora une todas as formas visíveis do universo.

Essa energia criadora, segundo Einstein, é o amor. 

Que chamam de Deus. Põem Deus lá longe, desconhecido. 

Enquanto Deus está na respiração. 

Você respira você sente amor. 

Mesmo o amor por ninguém, o amor em si -.


Camila Amado

atriz e professora de teatro, 

em entrevista à Rede Rio TV


segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Singulares

A Camila Amado



 

O enigma da máscara,

um semblante desconhecido.

Como vê-lo se agarrado o rótulo?

Como movê-lo se o signo é fixo?

O ente dramaticamente plano. 

Sem facetas nem afeição pelo instante.

Mas, ousada, outra,

a alma é redondinha como os melhores personagens. 

Compõe formas singulares

com o desconhecido mais fascinante. 

Como caminham sem 1 perfil,

as abundantes feições da vida.


Mariana Montenegro

outubro de 2021

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Pequena como eu, incomensurável como outro


Olho pela janela e me surpreendo vez em sempre com o amarelo que verdejou.

Aspiro o sumo que se quer comido e gozo a liberdade do instante.

A paisagem enlaço do íntimo. 

Pequena como eu, incomensurável como outro.


No sobrado, ora canto, ora silencio.

Só a alegria me aproxima do céu.

E a dignidade do reles sobre o chão.

Para transcender e ascender, primeiro aceito e amo.


O lusco-fusco da Ave Maria

insinua a noite que vai descendo à minha janela. 

Sereno, fôlego, gestação.

É tudo novo e outro de novo.


Mariana Montenegro

setembro de 2021







quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Não-decomposto


Não-binário e +: não-decomposto.

Em letras, partículas, identidades fixadas.

Móvel no agora, existente na relação.


Partículas demarcam posição. 

Entrincheiradas pelo julgamento e pela exclusão.

E rótulo, como a fofoca,

serve ao controle.


Como poderá - ser integral de possibilidades?

Desclassificadamente. 

Se estão claras as categorias, o todo permanece difuso.

Mas somadas as partes, o todo é ainda maior.


Mariana Montenegro

setembro de 2021





sábado, 25 de setembro de 2021

Polos


"Os acontecimentos são metáforas do Processo"

(Roberto Crema)

Um continente de gelo derrete.

Boiam já sem destino 

tábuas de lei e de salvação.


As grandes verdades e identidades 

desprendem-se como blocos

e desabam com o próprio peso.


A perigosa liberdade

vai se atrevendo,

desfazendo os mais rijos extremos contornos.


Os polos viram ondas, encontram-se em mar.

A mesma água se redescobre em resposta.

Aprendendo a fluir.


Mariana Montenegro

Primavera de 2021



sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Fernandona e Clarice

"Deus só frequenta as igrejas vazias"

Nelson rodrigues


Uma história da Fernandona que eu adoro (com as minhas palavras):

A atriz Fernanda Montenegro volta do Oscar - depois da indicação que a colocou num patamar internacional - e decide fazer a peça de um amigo dela; uma peça "simples", "menor", "caseira", na avaliação dos entusiastas e críticos, que dizem a ela:

- Fernanda, você precisa fazer um Shakespeare, uma grande personagem, um clássico agora.

E Fernanda responde:

- Eu não estou competindo comigo mesma.

E outra da Clarice Lispector:

Nelson Rodrigues lança uma peça e grande parte do público e da crítica fica horrorizada, chamando ele de depravado e de imoral pra baixo. Clarice assiste, e, ao fim, diz:

- "É um menino".

E se encanta para sempre com ele.

_____________

Mariana Montenegro

setembro de 2021


terça-feira, 24 de agosto de 2021

O normal adoeceu - fala o palhaço


O normal adoeceu.

Desamparou as vistas grossas.

E agora com que cara ficamos?

De palhaços.

Tudo por fazer num mundo se esgotando. 


A superfície entre o fogo e o gelo. 

Mas será que sentimos na mesma intensidade

o coração quente

e a cabeça fria

para encontrarmos a saída?


Tudo o que nos chega precisa de tratamento.

Toda carga astral e mental.

A má-água que bebemos (tão magoada).

O ambiente que poluímos com más ideias;

incapazes de interligar as coisas.


É evidente a "patologia da normalidade".

(ou só para os videntes do óbvio?) 

E urgente mudar o rumo do abismo.

Gente nova criar,

aprender com os pajés

que o futuro é ancestral. 


O único viável é a transformação.  

Vibrar no mais alto da consciência. 

Quem puder ouvir o palhaço 

e não dançar, 

que se conecte pela vida.


Mariana Montenegro

agosto de 2021

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O culto japonês da tranquilidade

 


"O culto japonês da tranquilidade"

- era o título do livro na cabeceira da cama.
Naquela manhã, acordou já cansada de viver como uma pessoa normal - angustiada. E no que folheou encontrou:
"Maturidade é toda a expansão da tranquilidade".
Respirou fundo aquelas palavras, ela que vivia ofegante feito uma fugitiva. E quis aquilo para si.
No início, apertava os olhos e falava devagar, tentando se parecer com um japonês. Mas entendeu que só pela aparência não chegaria lá.
Então recomeçou pelo seu interior - "o centro vivo".
Para, um dia, almejava, entre sístoles e diástoles, respirar da tranquilidade do amadurecimento.
_______________
Mariana Montenegro
julho de 2021
(referência: Graf von Durckheim)

domingo, 22 de agosto de 2021

Se eu fosse Deus



Se eu fosse Deus 

meu barato seria a evolução.


Ver formas brutas 

moldarem um vaso delicado.

Um organismo unicelular

até tornar um ser humano.


Se eu fosse Deus

me alegraria a vida

da escuridão à luz,

da raiz ao fruto

- amando o processo.


Se eu fosse Deus

eu brincaria de esconde-esconde

com os adultos,

rindo muito deles

me procurando além,

ou me tendo por inexistente.


Eu certamente trocaria confidências 

com os artistas;

temos muito em comum.

Do branco ao arco-íris

eu me pintaria todo.


E voltaria num trovão 

só para dar novo impulso.

Se eu seu fosse Deus.

Sendo um bardo.


Mariana Montenegro

agosto de 2021



domingo, 13 de junho de 2021

O herói evoluído

 


ERA ANTIGAMENTE. O herói queria mudar o mundo, mas, ele mesmo, continuava igual. Tentava se colocar no patamar dos deuses, e acabava nos grandes erros trágicos – se ferrando solenemente. Usurpando do poder como um voluntarioso guiado pelo seu pretenso livre-arbítrio.

QUANDO FOI MODERNO, o herói já queria outras coisas. Muitas possibilidades se apresentavam a ele, que duvidava tanto, de tudo, a ponto de não acreditar mais em nada, nem em si. Foi um derrotado convicto da sua condição de vítima e da sua impotência perante a realidade.  

FINALMENTE NO AGORA o herói é outro sujeito. Não se coloca acima, nem abaixo, mas justo no meio. Atua como um facilitador dos processos da vida. Já não tão propenso ao arbítrio; mais interessado em agir conectado do que agir descolado. 

O HERÓI agora busca superar a si mesmo. Sabe do seu limite, mas também do seu alcance. E que suas ações podem ser até pequenas, em extensão, mas ter um impacto verdadeiro e profundo. Sua meta de superação é para se tornar melhor para o outro e para o mundo em que vive.

EVOLUIU não à condição dos deuses, mas à condição humana. Talvez, esta sim, a condição almejada pelos próprios deuses.

Mariana Montenegro

junho de 2021

domingo, 6 de junho de 2021

A saída do limbo

 

"Quem elegeu a busca, não pode recusar a travessia". (Alfredo Bosi)

"O inferno e o paraíso estão dentro de nós;
 é uma escolha de cada momento". (Guy Lussier)

Beatriz atravessou o ponto sem retorno da estrada, mas ainda vacilante, tornava a regressar por atalhos. Vivendo entre a periferia de si e a multidão segura. Assim, em verdade, não saía do lugar; tinha uma falsa impressão de movimento, com um pé em cada canoa.

Tão só permanecia nesse fatídico limiar. Embora pressentisse o quanto se furtava, que não fazia o seu melhor. Que vivia era bem da casca para fora; fosse, em veleidade, ou mesmo, se alquebrada. Mas um dia, naufragada em si, teve a visão.

Viu que estava no limbo – naquele primeiro círculo do inferno. 

Rememorou o letreiro da porta: “Deixai, ó vós, que entrais, toda a esperança”. E sentiu um calafrio. Mas a aliviou o fato de que o limbo é apenas um lugar de suspensão (não precisaria ainda rastejar). Ela estava ali por sua indecisão, por se inclinar ao nada, ou a qualquer nota.

Em outras palavras, o limbo de Beatriz era a pasmaceira, que ela cansou de sustentar. Foi então seguindo pela estrada, e, ao invés de pegar o retorno, decidiu finalmente seguir em frente. No caminho ouviu a solene anunciação de Dante: “Não fostes feitos para viver como brutos,/mas para seguir virtude e conhecimento”.

Depois disso, Beatriz firmou-se na senda da aprendizagem e foi ganhando alma. Passando a dar passos do seu tamanho, nem mais largos nem mais curtos, apenas condizentes. Sempre disposta à purificação, à correção. Vendo beleza nesse processo. Ficando até inocente pôde ouvir de não muito longe o repicar dos sinos de que ela gostava, às portas do céu.

Mariana Montenegro

junho de 2021

quinta-feira, 27 de maio de 2021

A vigília da oca

Estava na oca à noite. Naquele horário propício à vigília. Aberta à instrução indígena. O silêncio era grande e de uma presença forte. Sentia que nos planos internos algo se passava. O trabalho consciente era, para com meus gestos e pensamentos, não poluir o silêncio, o ar puro e os aromas que ali estavam. Não perturbando a floresta eu contribuía com a vigília.

Como uma árvore eu me sentia. Estava lá sentada, mas com a consciência em pé, erguida da terra ao céu. Como deve ser. Com os ciclos e os ritmos em acorde. A seiva da vida circulando em mim seus nutrientes. Os venenos que levava em minhas correntes iam sendo eliminados e transformados no remédio de que precisava.

A oca era lugar de cura e de instrução. Quando o silêncio trouxe a palavra do xamã, era assim: - Veja o campo unificado que a ti e a tudo abarca. Sem fenda, sem fresta. Atente ao lapso, aos voos perdidos. Desperte. Respeite a mãe terra e montanha. Cante com teus irmãos pássaros as árias dos bosques e dos rios. Ame o fogo da vida e se deixe queimar. 

Quando ouvi tal palavra senti um arrepio nos ossos, estalados com o calor da voz, com a tamanha força do vento. Mas meus ouvidos, mais dóceis com o passar do tempo, foram capazes de escutar. Então a noite foi caindo, o silêncio abriu as estradas que davam no espaço e nas estrelas, e pude abraçar a imensidão do cosmos.  

Nesse momento, a oca era o globo terrestre. Dentro dele uma nova humanidade era preparada pelas árvores e pelos xamãs. Um planeta sagrado era gestado, com respeito à vida única em sua dinâmica complexa de equilíbrio entre todas as comunidades viventes. No conclave que formavam, o ser humano estava presente; finalmente, reintegrado.

 

Mariana Montenegro

maio de 2021

 

terça-feira, 25 de maio de 2021

Ensaio: O opus alquímico do Livro Vermelho

 

Pintura de Jung

“Ser aquele que tu és é banho do renascimento”

JUNG

JUNG TEVE A CORAGEM de pisar nos terrenos lamacentos em que seus pacientes frequentemente se afundavam. No Livro Vermelho (2009) ele faz uma narrativa arquetípica de imagens do seu inconsciente, visitando as profundezas de onde emergem as forças e os símbolos mais contrastantes e perturbadores. Num esforço de síntese, trarei aqui apenas alguns pontos que considero importante amplificar e cabíveis de compartilhar.

O primeiro deles diz respeito à coincidência dos opostos. Da ideia que Jung retoma de Heráclito, de que um dia tudo se reverte em seu contrário. A balança penderá para o outro lado, quer com a consciência do "Princípio da Polaridade"- de que os extremos se tocam e da conciliação dos paradoxos -, quer com os sintomas violentos e guerras sangrentas que sobrevém da negação do outro polo. “Mas antes que o ser humano possa ascender para a luz e o amor, há a necessidade da grande batalha”, diz Jung. (p.178)

Outro ponto é o confronto entre o “espírito do tempo”, que o mantinha preso à racionalidade e às aparências, e o “espírito da profundeza”, que guiava sua intuição aos caminhos da alma. Mas foi o "espírito da profundeza" que apontou a direção que ele seguiria: da descida. Mostrando como existe um caos primordial dentro de cada pessoa, e que cada um precisará se ver com esse seu caos. Não o fazendo, o que acontece é o investimento deste inconsciente caótico sobre o mundo e as pessoas.

No entanto, se disposto ao autoconhecimento, em momento auspicioso, quando bem gastos os chinelos, o sujeito chega à sua metanoia (a transformação). No eterno retorno, vir a ser é recriar-se; como a libélula, a borboleta, o escaravelho, vivendo seus mitos de transformação e renovação. Ainda para aclarar esse processo vai dizer: “O eu é o sujeito apenas de minha consciência, mas o si-mesmo é o sujeito do meu todo, também da psique inconsciente”. O si-mesmo, aí traduzido, é o famoso “self”, que integra aspectos e instâncias para além da unilateralidade da consciência, promovendo a saída do estado de identificação para a diferenciação e a singularidade. 

Cada oposição confrontada é um aspecto não conciliado que deve ser integrado, se o indivíduo aspira a sua totalidade psíquica. Na abertura de Jung a seu mundo interior inconsciente, ele desenvolveu a linguagem simbólica, à maneira mesma do inconsciente, que fala por meio de símbolos. Pois o que é o mundo que vivemos senão a imagem que fazemos dele? E no Liber Primus se afirma: “A riqueza da alma consiste de imagens”. (p.118) Assim que a capacidade de encantar a vida é a mesma que nos faz vivê-la em sua plenitude. Pois o que não encantamos perece e morre.  

“(...) quem observa de fora aquilo que acontece só vê o que já passou e que sempre é a mesma coisa. Mas quem olha de dentro sabe que tudo é novo. As coisas que acontecem são sempre as mesmas. Mas a profundeza criadora da pessoa não é sempre a mesma. As coisas não significam nada, só significam em nós. Nós criamos o significado das coisas”. (p.138)

Perceber o que atua do inconsciente é fundamental para saber o que nos move, para não sermos arrastados e para não sairmos arrastando os outros. Para não viver a base de sintomas e possessões. Mas de entender quais mitos estamos encarnando. Que forças atuam causando essa ou aquela reação exacerbada. Se somos feitos de elementos conflitantes, precisamos nos ver com isso, e abandonar de uma vez a covardia de investir no próximo nossos conflitos.

MAIS AMOR E MUNDO IMAGINAL É PRECISO - para quem quer crescer como a Árvore da Vida; da raiz à copa, da profundeza às alturas. Desde a fase mais obscura do inconsciente, quando desce a noite, o nigredo; passando pelo estágio do albedo, o cisne branco, a purificação; até o rubedo, a fênix vermelha, a iluminação, quando as oposições se dissolvem. Então se verá uma pessoa renascida que aprendeu a navegar em seu inconsciente, pelas oscilações naturais, no jogo de forças, mas como um dançarino, como o grande alquimista do Livro Vermelho.

 Mariana Montenegro

maio de 2021

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Referências: O Caibalion, Tao Te Ching, As Pedras Filosofais, Heráclito, Nietzsche e Jung. 


 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

O Povo da Inteireza

 


No centro do povoado havia um totem presentificando os reinos que os indivíduos encarnavam:

 Mineral, Vegetal, Animal, Humano e Angélico. 

Uma imagem do que os constituía que mantinham sempre viva. 

Nas praças, populares se reuniam para seu jogo tradicional, o quebra-cabeças.

Na educação cada qual era investido em seu próprio caminho. Tudo era feito com arte; as pessoas encontravam o que amavam fazer e seguiam suas vocações. 

Um guia bem-aventurado do local, perguntado sobre o que acontece quando se atinge a plenitude almejada, respondeu:

- Você se torna humano.

Conquista essa que povos primitivos, como o Povo da Mercadoria (que viveu por volta da pré-história da Noosfera), não lograram. 

Hermann Hesse, o lobo da estepe entre os primitivos, inscreveu a insigne mensagem no pórtico da cidade: 

“Em vez de reduzir o teu mundo, de simplificar a tua alma, terás de recolher cada vez mais mundo, de recolher no futuro o mundo inteiro na tua alma dolorosamente dilatada”.

Assim se fez o Povo da Inteireza: 

à imagem do totem, integrando cada reino, buscando sua centralidade e totalidade. 


Mariana Montenegro

maio de 2021

domingo, 9 de maio de 2021

A Rainha

 

A Rainha Coroada de Estrelas, como era chamada, conduzia seu pequeno reino em harmonia. Em suas terras aldeavam peregrinos e mutantes, que viviam cautos do movimento inerente à vida. Todo outro era um espelho de si, e toda guerra tornou-se obsoleta, circunscrita às arenas esportivas e aos dramas teatrais.

Pela conciliação das polaridades dentro de cada ser a paz se deu. A douta ignorância se estendia a todo o reino, desde a Rainha até o povo; todos eram aprendizes na terra. Entre os monumentos de seu governo, fulgia o Ateneu da Consciência; um projeto de investimento no potencial humano de plenitude.

Sempre aberta, a obra majestosa era o reduto do silêncio e dos arquétipos, de onde emanavam os símbolos que engendraram os mitos de origem do povo. Mas, para chegar lá, era preciso partir de dentro de si, do próprio ser interior. Pois a via de acesso não se encontrava na mente ou em nenhum outro canto do mundo senão no coração.

Quanto aos atos decisórios da Rainha, seguiam fielmente os três princípios: ético, estético e noético. E a justiça em cada ato era resultado da sua escuta. Do cultivo do silêncio interior que a tornava capaz de bem olhar e bem valorar o que fosse necessário. Assim, ela governava. Junto com seu povo. De composição múltipla e lealdade em comum às estrelas.

Era com essa direção e essa consciência que todos viviam em harmonia.  

 

Mariana Montenegro

maio de 2021

 

terça-feira, 20 de abril de 2021

Encontro com a verdade

 

Um dia, há muito tempo atrás, uma amiga me convidou para a palestra de um iluminado. Sem o conhecer, mas interessada, aceitei o convite. Chegando ao lugar do encontro, sentamos formando um semi-círculo em torno dele que, tão logo se apresentou, abriu às perguntas.

Quando alguém compartilhou: “Eu sinto muita raiva, muita raiva, não sei como superar isso”. E ele logo respondeu: “Tudo bem de você sentir raiva. Sinta". E deu-se ali uma respiração profunda com uma longa expiração. Em seguida, senti um forte estremecimento, que me forçou a partilhar: 

- Eu busco desenvolver minha espiritualidade. Eu luto contra os meus defeitos... mas é difícil. Então ouvi:“Pare de lutar. Não tem que lutar”. E olhando dentro dos meus olhos perguntou: “Você vê?". Sua luz era tão forte que iluminou tudo em mim. A luta interna que eu travava cessou. Eu chorei.

Enquanto isso ele mantinha um sorriso amável no rosto. Esse foi meu primeiro satsang (do sânscrito) - “encontro com a verdade”. O primeiro contato na vida com a ideia da aceitação; que é o princípio de tudo, o início da cura. E ele então, resumindo toda a sua mensagem, revelou:

 “PARA ME ILUMINAR TIVE QUE ABRAÇAR TUDO O QUE NEGUEI”.

E assim é. 

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p.s. Hoje considero que este termo "iluminado" (como uma distinção) caiu em desuso, pois perdeu a sua mística (seu mistério) e tornou-se algo bastante comum. 

Mariana Montenegro

abril de 2021

domingo, 18 de abril de 2021

Vestais XXI


No Templo Circular 6 sacerdotisas velam o Fogo Perpétuo, sob um manto e um véu, aos olhos das profundezas. A esta altura, do crepúsculo sem estrelas, sem o olhar para fora da caverna, resta o fogo que qualquer natureza consome.

Mas há quem vindo de longe pergunte à boca pequena do templo (o oráculo): - O que exatamente as sacerdotisas transmutam em seus ritos secretos?

- Tudo é notório dado o desenlace dos tempos. Estamos cá a sustentar o céu. A alimentar os atributos que o momento pede. Dos tempos que virão que já aí estão.

Sem ocultar, as sacerdotisas de Vesta ressoam em coro também os atributos que urgem do fogo:- Confiança! Misericórdia! Confiança! Misericórdia!

E conclamam para haja o que houver remanescente, no que ainda sobejar vicejante, mantê-los vivos com a chama interior. 

 

Mariana Montenegro

abril de 2021

segunda-feira, 12 de abril de 2021

?

 


Teve uma médica que me ajudou a viver a morte da minha mãe.

Ela é bastante conhecida na área de cuidados paliativos. Aqueles dedicados aos doentes graves ou incuráveis. Assisti a seus vídeos a procura de ajuda para atravessar o sofrimento, e de compreensão a respeito do processo da morte.

Recentemente ela compartilhou algo que achei curioso: disse que, ao contrário do que se pensa normalmente, não é a primeira impressão a que fica, mas a última. Segundo ela, é no final da vida que as pessoas expressam a essência do ser humano. Dizendo mais:

“A generosidade com que essas pessoas distribuem sabedoria, conhecimento e gratidão para quem trabalha com Cuidados Paliativos com dedicação é algo que não dá para descrever”.

E me pergunto: Por que deixamos para o fim da vida para distribuir o que temos de melhor? Que diabos de aparências são essas tão importantes que nos impedem?

Mariana Montenegro

abril de 2021