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| Pintura de Jung |
“Ser aquele que tu és é banho do renascimento”
JUNG
JUNG TEVE A
CORAGEM de pisar nos terrenos lamacentos em que seus pacientes frequentemente se
afundavam. No Livro Vermelho (2009) ele faz uma narrativa arquetípica de imagens do seu
inconsciente, visitando as profundezas de onde emergem as forças e os símbolos
mais contrastantes e perturbadores. Num esforço de síntese, trarei aqui apenas alguns
pontos que considero importante amplificar e cabíveis de compartilhar.
O primeiro
deles diz respeito à coincidência dos opostos. Da ideia que Jung retoma de
Heráclito, de que um dia tudo se reverte em seu contrário. A balança penderá
para o outro lado, quer com a consciência do "Princípio da Polaridade"- de que os extremos se tocam e da conciliação dos paradoxos -, quer
com os sintomas violentos e guerras sangrentas que sobrevém da negação do outro
polo. “Mas antes que o ser humano possa ascender para a luz e o amor, há a
necessidade da grande batalha”, diz Jung. (p.178)
Outro ponto é
o confronto entre o “espírito do tempo”, que o mantinha preso à racionalidade e
às aparências, e o “espírito da profundeza”, que guiava sua intuição aos
caminhos da alma. Mas foi o "espírito da profundeza" que apontou a direção que ele
seguiria: da descida. Mostrando como existe um caos primordial dentro de cada
pessoa, e que cada um precisará se ver com esse seu caos. Não o fazendo, o que
acontece é o investimento deste inconsciente caótico sobre o mundo e as
pessoas.
No entanto, se disposto ao autoconhecimento, em momento auspicioso, quando bem gastos os chinelos, o sujeito chega à sua metanoia (a transformação). No eterno retorno, vir a ser é recriar-se; como a libélula, a borboleta, o escaravelho, vivendo seus mitos de transformação e renovação. Ainda para aclarar esse processo vai dizer: “O eu é o sujeito apenas de minha consciência, mas o si-mesmo é o sujeito do meu todo, também da psique inconsciente”. O si-mesmo, aí traduzido, é o famoso “self”, que integra aspectos e instâncias para além da unilateralidade da consciência, promovendo a saída do estado de identificação para a diferenciação e a singularidade.
Cada oposição confrontada é um aspecto não conciliado que deve ser integrado, se o indivíduo aspira a sua totalidade psíquica. Na abertura de Jung a seu mundo interior inconsciente, ele desenvolveu a linguagem simbólica, à maneira mesma do inconsciente, que fala por meio de símbolos. Pois o que é o mundo que vivemos senão a imagem que fazemos dele? E no Liber Primus se afirma: “A riqueza da alma consiste de imagens”. (p.118) Assim que a capacidade de encantar a vida é a mesma que nos faz vivê-la em sua plenitude. Pois o que não encantamos perece e morre.
“(...) quem
observa de fora aquilo que acontece só vê o que já passou e que sempre é a
mesma coisa. Mas quem olha de dentro sabe que tudo é novo. As coisas que
acontecem são sempre as mesmas. Mas a profundeza criadora da pessoa não é
sempre a mesma. As coisas não significam nada, só significam em nós. Nós criamos
o significado das coisas”. (p.138)
Perceber o que
atua do inconsciente é fundamental para saber o que nos
move, para não sermos arrastados e para não sairmos arrastando os outros. Para
não viver a base de sintomas e possessões. Mas de entender quais mitos estamos
encarnando. Que forças atuam causando essa ou aquela reação exacerbada. Se
somos feitos de elementos conflitantes, precisamos nos ver com isso, e abandonar
de uma vez a covardia de investir no próximo nossos conflitos.
MAIS AMOR E
MUNDO IMAGINAL É PRECISO - para quem quer crescer como a Árvore da Vida; da
raiz à copa, da profundeza às alturas. Desde a fase mais obscura do
inconsciente, quando desce a noite, o nigredo; passando pelo estágio do albedo,
o cisne branco, a purificação; até o rubedo, a fênix vermelha, a iluminação,
quando as oposições se dissolvem. Então se verá uma pessoa renascida que
aprendeu a navegar em seu inconsciente, pelas oscilações naturais, no jogo de
forças, mas como um dançarino, como o grande alquimista do Livro Vermelho.
maio de 2021
Referências: O Caibalion, Tao Te Ching, As Pedras Filosofais, Heráclito, Nietzsche e Jung.

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