Estava na oca
à noite. Naquele horário propício à
vigília. Aberta à instrução indígena. O silêncio era grande e de uma presença
forte. Sentia que nos planos internos algo se passava. O trabalho consciente
era, para com meus gestos e pensamentos, não poluir o silêncio, o ar puro e os
aromas que ali estavam. Não perturbando a floresta eu contribuía com a vigília.
Como uma
árvore eu me sentia. Estava lá sentada, mas com a consciência em pé, erguida da terra ao céu. Como deve ser. Com os ciclos e os ritmos em acorde. A seiva da vida circulando em mim seus nutrientes. Os venenos que levava em minhas correntes
iam sendo eliminados e transformados no remédio de que precisava.
A oca era lugar de cura e de instrução. Quando o silêncio trouxe a palavra do xamã, era assim: - Veja o campo unificado que a ti e a tudo abarca. Sem fenda, sem fresta. Atente ao lapso, aos voos perdidos. Desperte. Respeite a mãe terra e montanha. Cante com teus irmãos pássaros as árias dos bosques e dos rios. Ame o fogo da vida e se deixe queimar.
Quando ouvi tal palavra senti um arrepio nos ossos, estalados com o calor da voz, com a tamanha força do vento. Mas meus ouvidos, mais dóceis com o passar do tempo, foram capazes de escutar. Então a noite foi caindo, o silêncio abriu as estradas que davam no espaço e nas estrelas, e pude abraçar a imensidão do cosmos.
Nesse momento, a oca era o globo terrestre. Dentro
dele uma nova humanidade era preparada pelas árvores e pelos xamãs. Um planeta
sagrado era gestado, com respeito à vida única em sua dinâmica complexa de
equilíbrio entre todas as comunidades viventes. No conclave que formavam, o ser humano estava presente; finalmente,
reintegrado.
Mariana Montenegro
maio de 2021

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