Beatriz atravessou o ponto sem retorno da estrada, mas ainda vacilante, tornava a regressar por atalhos. Vivendo entre a periferia de si e a multidão segura. Assim, em verdade, não saía do lugar; tinha uma falsa impressão de movimento, com um pé em cada canoa.
Tão só permanecia nesse fatídico limiar. Embora pressentisse o quanto se furtava, que não fazia o seu melhor. Que vivia era bem da casca para fora; fosse, em veleidade, ou mesmo, se alquebrada. Mas um dia, naufragada em si, teve a visão.
Viu que estava no limbo – naquele primeiro círculo do inferno.
Rememorou o letreiro da porta: “Deixai,
ó vós, que entrais, toda a esperança”. E sentiu um calafrio. Mas a aliviou o
fato de que o limbo é apenas um lugar de suspensão (não precisaria ainda rastejar).
Ela estava ali por sua indecisão, por se inclinar ao nada, ou a qualquer nota.
Em outras
palavras, o limbo de Beatriz era a pasmaceira, que ela cansou de
sustentar. Foi então seguindo pela estrada, e, ao invés de pegar o retorno,
decidiu finalmente seguir em frente. No caminho ouviu a solene anunciação de Dante: “Não fostes feitos para viver como brutos,/mas para
seguir virtude e conhecimento”.
Depois disso, Beatriz
firmou-se na senda da aprendizagem e foi ganhando alma. Passando a dar passos
do seu tamanho, nem mais largos nem mais curtos, apenas condizentes. Sempre
disposta à purificação, à correção. Vendo beleza nesse processo. Ficando até
inocente pôde ouvir de não muito longe o repicar dos sinos de que ela gostava, às portas do céu.
Mariana Montenegro
junho de 2021

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