Era uma mulher cheia de defesas, que levava demasiado a sério a vida, e, principalmente, a si mesma. Queria ser perfeita, por isso, o que não aceitava sobre si, rejeitava. Preocupava-se com agradar aos outros, porque queria ser amada. Mas, ainda assim, no fundo, não era amada como gostaria. Vivia numa gangorra, identificada com cada estado emocional que lhe passava. Não sentia mais prazer, não via mais novidade em nada.
O dia, que se renovava nos céus e na terra, não se renovava da mesma maneira dentro dela. Não acompanhava a mudança das estações, o pôr do sol, o frescor da manhã. Nada a nutria mais, o mundo aparentava sem viço, tudo já era conhecido e repetitivo. A vida parecia-lhe mais com a imagem de um velho barbudo, rabugento e ruminante. Não sabia o caminho para renovar-se. Mas negava com todas as forças a possibilidade de um novo destino.
E assim, na entropia dos dias, ia perdendo suas forças. Era doloroso demais para ela viver. No entanto, resistia a mudar sua frequência, pois havia se habituado ao sofrimento, aos seus labirintos mentais, e até se divertia com eles. Estava apegada demais ao sofrimento, não saberia como viver sem ele, que lhe conferia uma identidade de vítima sofredora, da qual até se orgulhava. Alimentava assim a sua arte, o seu gênio inconsciente e devastador. Abandonar o conhecido pelo desconhecido seria uma crise ainda maior e sem precedentes.
Do que falaria às pessoas se não existisse mais a sua história clássica de vítima? Como se sustentaria sem tantas teorias e crenças? Era fato consumado que o mundo era cruel e sem misericórdia para ela. Como poderia então a felicidade ser algo verdadeiro, e não uma invenção burguesa? Como haveria um paraíso dentro dela? Debochava com ironia de algo assim. Suas defesas mentais não permitiam que abrisse o coração.
O mundo da alma e da consciência, que alguns loucos anunciavam, parecia-lhe demasiado inocente, e não podia mais aceitar a inocência. Pois a condição requerida para sobreviver nesse mundo foi abandonar sua inocência e aprender a esperteza. Vivia uma luta interna, e não via saída. Mas algo dentro dela queria o seu renascimento. Queria ter a chance de viver uma vida plena de energia e de sentido, uma vida que valesse a pena. Precisava para isso aceitar tudo que havia feito até então, e se perdoar. Precisava demolir o velho edifício construído com as habituais espertezas e crenças.
Precisava de uma boa morte, de uma real transformação. Ela precisaria começar do zero. Voltar a terra. Aos ciclos naturais. Ao corpo. Reconciliar-se com os mistérios. Entender que tudo o que ela aprendeu até então foram mentiras convencionadas. Aceitar de volta a sua inocência e a sua simplicidade. Perder a coerência, mas conhecer a congruência. Sentir novamente a terra sob seus pés, o alimento que dá saúde ao corpo, o pensamento que dá saúde a mente, reaprender a viver.
Era muito difícil aceitar a tudo isso, ou melhor, aceitar a nada. Porque o simples da vida, de início, parece com o nada. Parece triste no primeiro encontro. É tão desprovido e tão nu. O silêncio parece ausência na primeira abertura, o que requer coragem e uma desistência, pois o que insiste em negar a impede de ser inteira. Há que perdoar a si mesma, para poder perdoar aos outros, ver a oportunidade no problema, o bem no mal, ir além das aparências. Há que celebrar o paradoxo!
No fundo, seu maior medo é ser quem ela é por inteiro. Seu medo inconsciente é descobrir o próprio potencial de plenitude, é dilatar-se do tamanho do universo, do mundo, do outro. É revelar seu verdadeiro semblante, assumir suas capacidades, que só fará quando acolher o que é negado, descuidado em si, trazendo a sombra escondida à luz da consciência. Só assim pode integrar os dois lados, e todos os lados, mudando a sua frequência, de uma frequência de polaridade e luta, para uma frequência de unidade e paz.
Às vezes, é preciso um pouco de ordem, como às vezes pode ser preciso um pouco de caos, para equilibrar. Ora um pouco de luz, ora um pouco de sombra. Temperar o caldo, fazer a magia certa para a hora certa. Tudo depende da intenção de quem conduz a energia. Mas só quem sabe jogar esse jogo paradoxal com sabedoria é o amor. Ela então percebe que fazia tantas defesas porque, no fundo, tentava proteger sua vulnerabilidade - o coração da sua alma. Aquilo que nela não tem defesas, não tem seguranças, não tem crenças, não tem opostos, que acolhe a luz e a sombra de igual maneira, como faz uma boa mãe com seus filhos.
Não queria aceitar a própria sombra por medo de se expandir além dos limites do conhecido. Quando virou essa chave, revelou o próprio semblante. Passou a dançar com a sombra e a correr com os lobos. A cantar com os anjos e a voar na imensidão. Assim ela aprendeu a se amar como era do lado do avesso, e viveu feliz para sempre, sempre que se converteu no eterno agora.
Mariana Montenegro
23/03/2014
Do livro Contos da Alma Peregrina
Editora Multifoco