quinta-feira, 5 de setembro de 2019

A Tao da metanoia




Por M_M

 O TAO é o símbolo da inteireza.
A METANOIA é a transformação.
A INTEIREZA em movimento é tanto masculino quanto feminino.
É jogo.
É criatividade.
É o fluir.

Escrever um livro é se lançar num abismo com a fé de possuir asas para alçar o voo. É um processo de concatenação de ideias, uma tecitura de nós de influências, uma reunião de vozes de pessoas lidas ou relacionadas que já me tocaram e atravessaram visceralmente a ponto de terem sobrevida na minha memória. Mas, sobretudo, escrever um livro é uma metanoia da autora, um rito de passagem de uma etapa à outra, de um nível de consciência a outro.

         Nas palavras de Hermann Hesse, “o homem não é uma forma fixa e duradoura; é antes um ensaio e uma transição”.Nesse processo, deixo para trás um ego já obsoleto e animo um novo e atual. Não sou mais a mesma de ontem, o que escrevo recentemente é diferente do que escrevi no passado, ainda que me debruce sobre os mesmos assuntos. Por essa razão, não gosto de me reler. 

            O grande poeta Jorge Luis Borges dizia que não guardava seus próprios livros porque sempre queria reescrevê-los. Essa é a sensação que tenho, de que o já feito não serve mais. O que permanece ao fim é o anseio de que tudo o que fiz ou fui seja transformado e atualizado. Minhas questões na presente etapa da vida são diferentes de outras mais remotas. Poderia resumir todo esse pensamento com a poesia de Cecília Meireles:

      “Renova-te. Renasce em ti mesmo. Multiplica os teus olhos, para verem mais. Multiplica os teus braços para semeares tudo. Destrói os olhos que tiverem visto. Cria outros, para as visões novas. Destrói os braços que tiverem semeado, para se esquecerem de colher. Sê sempre o mesmo. Sempre outro. Mas sempre alto. Sempre longe. E dentro de tudo”.

Remanescer frente à realidade da mudança é dançar a vida entre espasmos de prazer e dor, entre caminhos e bifurcações, processos de diferenciação e comunhão. Renovar-me é uma necessidade, sem a qual, seco, murcho. Goethe dizia que “precisamos sempre mudar, renovar-nos, rejuvenescer; caso contrário, endurecemos”. Essa necessidade de renovação me livra da sujeição e da modelagem externas, incita-me a constante invenção, e a assumir a autoria da minha própria existência.

        Sendo o sujeito uma invenção recente, pois nos tempos antigos e medievais havia no lugar poderes cósmicos e coletivos, o ser humano é uma história em potencial a ser contada. A irrupção da individualidade brota da semente humana, de floração efêmera, mas cujo rizoma persiste perenemente. No laboratório vivo da existência, para renascer preciso aceitar o desfecho de um ciclo e a abertura de um novo. Tenho integradas em mim as épocas passadas - agora reconfiguradas. Sigo sendo sempre a mesma e sempre outras.


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