quinta-feira, 11 de março de 2021

O pontífice

 (homenagem a Hildegard von Bingen)


Havia a história clássica dos dois pássaros pousados na árvore.

Um olhava para o céu e outro olhava para a terra. Se um atuava, o outro se ocultava. Enquanto um observava, o outro experimentava os frutos... Eram totalmente opostos em suas naturezas e disposições. Cada qual no seu mundo, vivendo incomunicáveis e sempre distantes. Nunca podendo tocar um ao outro. Assim os tempos se repetiam.

Até o dia em que surgiu um terceiro pássaro.

Que logo notou a distância dos dois. Então se aproximou deles, colocando-se entre um e outro. Sendo capaz de se comunicar com o pássaro-observador, ele acolhe suas ideias originárias. Já do pássaro-desfrutador, suas experiências sensíveis.

Conhecendo eles a fundo, o terceiro vai aos poucos construindo uma ponte entre seus mundos.

De modo que com o passar do tempo, um entoará cantos que o outro será capaz de escutar. O primeiro pássaro verá os frutos amadurecem em doces frutos de sua própria essência. Na realidade transitória do segundo choverá água da fonte eterna.  

Eles passam então a se ver, a se admirar e a viver juntos. Cada qual conservando sua natureza, mas estando em paz, com outra qualidade e em harmonia – a cantar simultaneamente suas diferentes notas. Assim foi que os tempos se renovaram.

Quando o terceiro pássaro abriu suas asas, eram tão grandes que capazes de acolher com seu amor os céus e a terra.  

Mariana Montenegro

março de 2021

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