terça-feira, 30 de março de 2021

Dignidade da condição

 

Certa noite, o homem que havia domado o touro sonhou com o centauro. Era a primeira vez que esse animal mitológico aparecia em seus sonhos. Toda a cena, a imagem, as sensações eram estranhamente vivas e reais. Sentia que anunciavam um novo desafio.

A conquista do touro foi um processo longo, duro, que exigiu muita perseverança. Já o centauro exigiria outros métodos que não o adestramento, sendo ele civilizado e inteligente; metade animal, metade humano. 

Só não estava claro o que o sonho denotava de seu mundo real. Foi então que veio uma tormenta, que abalou as estruturas de sua pequena cidade. As pessoas saíram às compras levando toda a comida para estocar nos dias difíceis que se seguiriam.

Não pensavam em quem viria depois, que encontraria as prateleiras vazias. Teve o instinto de agir igual, mas lembrou da humanidade vitoriosa do centauro. Que o fez deter o instinto de sobrevivência, seguir a inteligência do racionamento, a consciência da solidariedade.  

Como o centauro, fez prevalecer o humano em si. Lembrou-se de que além de instintos de sobrevivência e perpetuação - é feito de valores, virtudes e de sabedoria. Sabia então, que, como veio, a tormenta iria embora. E assim foi. Sem que ele perdesse a dignidade da sua condição humana.

Mariana Montenegro

março de 2021

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