quinta-feira, 25 de março de 2021

Sherazade, a professora

 

UM DIA uma professora chegou a um povoado que vivia em guerra. Tinha a notícia de que os professores que passaram por ali não obtiveram sucesso e foram embora. Já não havia mais mestre que acreditasse na educação daquela gente. Ainda assim, e disposta ao risco, ela tinha um estratagema.

Até a sua chegada, os alunos só se interessavam por conhecimentos instrumentais de guerra, como manejar as armas, etc. Não havia código de ética que os guiasse, a luta podia ser suja, até brutal. Não lutavam conservando qualquer dignidade. Tal era o cenário em que se encontrava Sherazade, a professora.  

Ela sabia que o plano deles era fazer o que fizeram com os outros antes dela. Porém, a professora também tinha um plano. Todos os dias, após receberem de seus instrutores o conhecimento técnico que desejavam, ela contava uma história diferente. A cada novo dia narrava e interrompia deixando a continuação para o dia seguinte.

Foi se criando no povoado uma sadia curiosidade própria dos aprendizes. Passaram a querer ouvir mais e mais, já que ela nunca terminava de contar. E assim, além de ir garantindo a sua sobrevivência entre eles, a professora foi despertando percepções e visões outras de mundo. Conta-se que alguns chegaram até a se interessar pelas artes cavalheirescas. 

Passadas mil e uma noites, o povoado continuava a ouvir, mas com outros ouvidos. As guerras não terminaram, pois era um povo guerreiro. Aconteceu foi que passaram a lutar de maneira diferente. A primar tanto pelas técnicas de combate e pela vitória quanto pela conduta frente às batalhas. E foi assim que a professora venceu o seu bom combate pela educação e pela civilização. 

Mariana Montenegro

março de 2021

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