sexta-feira, 26 de março de 2021

A Balança da Justiça

A mulher chegou desabalada a seu destino. Tão logo bateu à porta, tão forte badalou o sino. À entrada um guardião a recebeu cortês. Trazendo em mãos uma balança, que tinha de um lado uma leve pena, e o outro, ele oferecia para que ela pesasse o seu coração. 

O guardião anuncia que o coração deve pesar menos do que a pluma para se atravessar o portal. Aturdida com a condição imposta, ela se detém em frente ao pórtico e pergunta perplexa a si mesma:

 - Como meu coração poderá pesar menos do que uma pluma?!

Não poderia sequer imaginar tal coisa. Pacientemente, o guardião lhe diz: "Você terá o tempo de que necessita. Porém, não há outra maneira de cruzar o portal; sem que o seu coração seja mais leve do que a pena". 

Frente ao incontornável desafio ela se vê tendo que refletir um pouco.

Quando então, voltando-se com atenção e honestidade para seu coração, percebeu os pesos que ali estavam; o que havia de nocivo, o acúmulo de emoção represada e amargada há tempos. Vendo as imagens de todo um acervo empoeirado formando um amontoado nebuloso em seu peito. 

Escutou com as palpitações de seu coração a elegia. 

Reconheceu que para atravessar aquele portal tudo o que acumulou não servia. 

Faltava o essencial, a única coisa que lhe pedia.

Mariana Montenegro

março de 2021

 


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