sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

A Maga Babette

 

(Imagem do filme "A festa de Babette", 1987)

-“Permitam-me dar o máximo de mim!”, diz Babette.

Mas numa pandemia não pode dar o máximo de si. Tal é a sua dor num canto de mundo estacionado. Movimentando-se em limites demarcados. Condoída das asas aparadas, ela conjectura em agonia: Uma bela e segura gaiola é ainda uma gaiola.

Desse jeito sucumbiria, não fosse sua magna ciência, sua arte. Não suportaria se faltasse vida interior a si. Mas como dispõe de instrumentos transmuta a dor da vida banal; da vida em que não se expressa o máximo de si.

Babette tem algo da eternidade; um valor, uma virtude, um dom, um tom todo seu. Que nada deste mundo - guerra, pandemia ou qualquer estupidez humana – tem o poder de tirar ou reduzir.

Ela sendo por inteira, quando usa o que tem de melhor, serve um banquete que faz as pessoas felizes. Quando de posse de sua liberdade e de sua potência. Mas onde o terreno não é fértil, onde o terreno foi degradado, como brotar flor, Ó Maga Babette?

A Maga então evoca o poeta Pessoa: “Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha”. Apresentando outras receitas de chef para os flagelos humanos. E lembra - para não esquecer - do toque essencial de SONHAR o banquete. 

 

Mariana Montenegro

fevereiro de 2021

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